Como funcionam as redes de regeneração na foz do Rio Doce

A Revolução dos Peixes (Foto: Aliança Rio Doce/Divulgação)

Por Hauley Valim*

A vila é uma comunidade afetiva, né? Não só como ela está organizada, como ela está constituída, em suas dimensões socioculturais, mas também em função da qualidade da onda que Regência tem. Esse mix de cultura e a qualidade das ondas para a prática do surf fizeram desse espaço um espaço afetivo pra mim.

Depois de um ano e meio que os rejeitos de mineração da Samarco chegaram aqui na foz, a gente percebeu que outros tipos de luta a gente precisava provocar. Então, durante um ano e meio nossas forças se concentraram para poder fazer enfrentamento político: fechar trilho de trem; ajudar no processo de organização das comunidades; a produção de documentos para poder munir a defensoria pública e o Ministério Público pela luta dos nossos direitos como atingidos.

O surgimento da Aliança Rio Doce

Durante todo esse processo, a gente chegou a uma conclusão que: outros níveis de luta precisavam ser implementados; e a preocupação deveria ser ampliada pra além dessa necessidade de luta pelos direitos. “Um ano e meio” é um momento marcante, foi um momento que a gente percebeu que indivíduos doentes, comunidades doentes, não têm condições de cuidar nem de si, quanto mais cuidar de um rio nas condições que o Rio Doce se encontra. E baseado nessa crença de que a regeneração do Rio Doce passa pela regeneração dos indivíduos e das comunidades, uma série de ideias, uma série de conceitos, uma série de ações começaram a ser pensadas e implementadas no território a partir desse encontro fértil que a gente chamou de Aliança Rio Doce.

É necessário para que tenhamos condições de lutar médio-longo prazo, que nós cuidemos dessa dimensão essencial que poderá nos fortalecer pra poder enfrentar esse processo

Aliança Rio Doce é um grupo de pessoas, na verdade, ela é uma rede que se constituiu a partir do encontro aqui na foz de várias expedições que percorreram o curso do rio de Mariana à Regência, na época do rompimento da barragem. E aí, várias pessoas, com várias formações, com várias concepções de mundo, mas todas alinhadas a partir de princípios ambientais, sociais e espirituais. A gente percebeu que outras coisas precisavam ser feitas também, paralelamente à dimensão da luta política.

O processo de se regenerar

Nós sofremos um grande dano; esse dano nos colocou numa condição precária em termos socioculturais e também afetivos. Nós sofremos o dano mais duro; ele foi dentro de nós. Então, a gente acredita que a partir do processo de cuidado do corpo, cuidado com a alimentação, cuidado com a espiritualidade, o resgate desses princípios ancestrais –  que olham para o rio enquanto uma entidade, ser vivo, e que nós podemos interagir e trocar com ele–  aí nós passamos a acreditar que reestabelecer esses vínculos com a natureza, com a entidade Rio Doce, nos fortaleceria enquanto indivíduos. Indivíduos fortalecidos compõem uma comunidade fortalecida; e uma comunidade fortalecida tem condições, junto com outras comunidades fortalecidas, de embalar um processo de regeneração para um problema nas proporções deste que nós estamos enfrentando.

Dentro desse processo de regeneração tem um conceito muito importante que é o conceito de ancestralidade. A gente acredita que nós não temos ferramentas suficientes para poder embalar esses processos a partir somente, por exemplo, da pesquisa científica e da nossa racionalidade. A ideia de ancestralidade nos convoca, sabe, a buscar nos povos tradicionais, nos povos originários, nos povos antigos, como são os povos indígenas que ocupam as margens do Rio Doce; buscar neles o conhecimento necessário para que nós tenhamos condições de regenerar essa relação corrompida que há entre o ser humano e a natureza. Os Krenaks, por exemplo, os Tupiniquims, os Botocudos, os Guaranis, os Pataxós… eles possuem um conhecimento que podem nos ajudar à não só dar soluções, mas também criar uma relação harmônica com esse ambiente impactado que precisa ser regenerado.

As comunidades estão muito fragmentadas, muito descrentes dos processos implementados pelas políticas públicas e pelas políticas da Renova e da Samarco

Assim, depois de um ano e meio de tentativas, de acertos, de erros, a gente chegou à conclusão que havia muita coisa bonita acontecendo no território e que precisava ganhar visibilidade. A gente entende que esses pequenos processos, esses pequenos projetos, eles têm condições de nos fortalecer afetivamente, nos fortalecer espiritualmente para enfrentar esse processo dramático que, a gente sabe, é um processo longo. A gente acabou de terminar 18 meses dos 180 meses previstos para a mitigação dos danos previsto pelo Acordo, mas a gente não sabe, de fato, quanto tempo o problema vai durar. Então… a gente está no início de um processo. E é necessário para que tenhamos condições de lutar médio-longo prazo, que nós cuidemos dessa dimensão essencial que poderá nos fortalecer pra poder enfrentar esse processo. O festival Regenera Rio Doce tem justamente essa intenção: de dar visibilidade pra aquilo que está sendo feito, de bonito, nos territórios; e ver de que forma esses modelos podem servir de protótipos para que possam ser desenvolvidos em outras comunidades.

Espaço de reencontro

A Casa Rosa é um bom exemplo de um espaço de regeneração. Pra começar, aquela casa estava fechada. A partir do momento que a gente abre e coloca um novo fluxo energético naquele espaço, aquele espaço se regenera.  A partir do momento que as pessoas começaram a se confluir pra aquele espaço e ali, processos criativos, artísticos, culturais começaram a ganhar movimento, automaticamente, muitas pessoas enxergaram ali, naquele espaço regenerado, um espaço fértil para embalar as próprias regenerações. Através das aulas de arte, do Baú das Artes, das aulas de música com o Ian do Natividade… a gente acredita que a partir desses espaços afetivos que estão sendo construídos, esses processos de regeneração podem ser impulsionados.

Mobilização em meio a descrença

As comunidades estão muito fragmentadas, muito descrentes dos processos implementados pelas políticas públicas e pelas políticas da Renova e da Samarco. Ninguém acredita em ninguém, ninguém acredita em processo algum. Por isso que hoje é muito difícil a gente conseguir mobilizar as pessoas para encontros comunitários, pra poder discutir os problemas.

A partir dessa porta que é o afeto e a partir do fortalecimento dos vínculos –  dos vínculos afetivos, que são vínculos socioculturais – nós conseguiremos criar um ambiente favorável para essa mobilização comunitária, coletiva, a médio-longo prazo, que é fundamental para superar a parte mais dramática.

A gente não sabe quando será o pior momento que nós iremos viver. A gente não tem como dizer que a chegada da lama tenha sido o pior momento. A gente não tem como dizer que, um ano e meio depois, na ausência da Samarco, da Vale, da BHP, da Renova no território, a gente não sabe se esse, de fato, é o pior momento. A gente não sabe se o pior momento vai vir com 10, 15 anos, em função do tipo de exposição, contaminação, que nós estamos vivenciando. Então, assim… nessa dúvida que nos danifica, nós precisamos criar dispositivos de regeneração, tendo o afeto com porta de entrada para avançarmos na luta pelo Rio Doce e com as comunidades atingidas.

*Hauley Valim é sociólogo, ativista, surfista e morador da Vila de Regência

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