Sobre viver com a reparação

(Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene)

Por Genival Pascoal, Joana D’Arc, Paulo César e Terezinha Quintão

Com o apoio de Tainara Torres

Desde 2015 os atingidos(as) precisam contar com o cartão de auxílio-reparação e, de lá pra cá, as mudanças e as readaptações fazem parte do cotidiano das famílias. O que é sobreviver com uma reparação? O que é viver à mercê de burocracias e (não)reajustes? O que é receber um salário que antes não se recebia, ou melhor, do qual não se dependia? O que é compreender que, mesmo diante dessas dificuldades, existem outras pessoas que não têm nem isso pra reclamar?

De um ano para o outro, muita coisa pode mudar: os filhos casam,  as filhas trocam de emprego, casas ficam prontas. As viagens que tanto queremos acontecem – ou não -, conhecemos pessoas, as famílias crescem ou diminuem. Compramos coisas novas, ficamos mais velhos, vendemos aquele sofá, reformamos casas ou ficamos sem elas. Os salários aumentam? As contas de luz também, e as dores de cabeça começam a ficar mais fortes.

De tempos em tempos, descobrimos que o fluxo pode ficar um pouco mais difícil para entender, porque, de um ano para o outro, muita coisa pode mudar, ou nada, já que também temos essa sensação de estarmos parados no tempo.

Se nos perguntam sobre transformação, conversamos sobre como a lembrança é forte, sobre o quanto nós somos fortes e sobrevivemos. Hoje, somos metade, porque a outra parte é o Bento. Metade porque essa outra parte resiste em memória, na nossa memória. Mas os obstáculos são diferentes agora, vivíamos do nosso trabalho e, aqui, sobrevivemos por meio de uma reparação.

Genival Pascoal, morador de Bento Rodrigues

Cotidiano Diferente

Hoje, a rotina dos(as) atingidos(as) não é mais a mesma, as mudanças, as poucas que aconteceram, não foram positivas. De lá pra cá, eles precisaram reaprender a viver e a sobreviver de um novo jeito, com renda e gastos diferentes dos que tinham até então. O cartão entregue a eles pela Renova/Samarco para auxílio-reparação, por exemplo, já teve um início cheio de problemas. A bandeira Policard era aceita em poucos pontos de comércio da cidade de Mariana, além de vir com um baita adesivo da Fundação Renova, o que reforçava o preconceito e dificultava que comprassem materiais e alimentos para as necessidades mensais de casa.

Em junho de 2017, a empresa Alelo passou a gerir os cartões, mas os transtornos com a utilização continuaram. Um deles é a não emissão de um extrato bancário com os valores depositados em cada mês, algo básico e que possibilitaria entender um pouco mais sobre o que recebem. Ainda, para se obter informações sobre a conta é preciso fazer ligação de um telefone fixo, quase inexistente na maioria das residências dos referidos moradores, ou acessar pelo aplicativo – que tem um sistema operacional específico, que não funciona em qualquer aparelho celular.

“A nossa despesa, lá no Bento, era um nível; aqui é outro, bem mais alto. Lá, nós gastávamos um botijão [de gás] a cada três, quatro meses; aqui, todo mês, é um. Lá, eu tinha a minha renda, tratores e uma chácara produzindo. Costumo brincar que eu era rico e não sabia. Hoje, o meu cartão pouco dá pra abastecer o carro. Lá, eu tinha galinhas e não gastava nada pra cuidar delas, porque comiam do milho que eu plantava. Banana, alface e couve: era só pegar da horta e dar para elas, e assim era também com os porcos. Hoje, eu nem tenho galinhas mais. Os animais que eu tenho aqui só posso tratar com ração e isso altera mais a nossa renda.”

Paulo César, morador de Bento Rodrigues

“Aqui onde a gente está morando, juntando a minha renda, o que eu tinha mais o cartão, a gente está sobrevivendo. As coisas são muito caras. Aqui, temos que comprar verduras, lá em Bento, a gente não comprava. Frutas e verduras a gente pegava na casa da gente mesmo. Às vezes, pegamos o salário e não sabemos nem o que fazer com ele. Lá em Bento, eu tinha o salário, trabalhava com a minha irmã e, às vezes, ela me pagava um salário mínimo. Eu conseguia juntar, eu guardava uns trocados.”

Terezinha Quintão, moradora de Bento Rodrigues

“Tem coisa que você tem que deixar de comprar para ter as coisas mais necessárias. Lá em Bento, eu tinha meu fogão à lenha; aqui, eu uso a gás e ele não dá pro mês; e, quando ele acaba, nós esperamos virar o mês pra conseguir comprar outro, senão ficamos sem. Lá, quando quisesse chupar uma cana, tinha; e aqui é o quê? Se não tinha verdura, meu sogro levava pra gente; e aqui? Lá, eu não comprava banana, laranja, mamão; e aqui preciso comprar tudo isso.”

Joana D’Arc, moradora de Bento Rodrigues

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