Estamos juntos, não importa a distância

Por Efigênia de Almeida, Juliana Campos, Lucimar Muniz, Milton Sena, Sandoval Filho, Simone Silva e Rodrigo Ferreira

Com o apoio de Flávio Ribeiro e Gustavo Nolasco

Fotos: Tainara Torres

Viajamos até a cidade de Congonhas no início de abril e chegamos bem próximos da barragem Casa de Pedra, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Com risco de rompimento, essa barragem está a menos de 400 metros do bairro Residencial Gualter Monteiro e ameaça cerca de 1.500 pessoas no entorno de Congonhas, além da bacia do Rio São Francisco. É exatamente esse risco que nos motivou a participar do seminário “Barragens: da não construção ao rompimento”, realizado pelo observatório Lei.A. Nesse encontro, compartilhamos nossas experiências e medos com aqueles que, talvez ainda não saibam, mas já possuem uma luta a cumprir.

Abertas as portas da Associação Comunitária e expostas as fotos do Jornal A SIRENE sobre a tragédia de Fundão, a jovem Vitória, de 10 anos, é uma das primeiras a entrar. Olha cada imagem por vários segundos, até que se sensibiliza com a foto de Isabella, a menina que não consegue mais pescar na comunidade de Pedras. “Isso aqui no rio é lama?”, pergunta, pouco antes de seu amigo Gustavo, de 13 anos, se impressionar com a mesma imagem e dizer que tudo aquilo parecia “triste”. Foram imagens como essas que reforçaram o sentimento de que uma tragédia parecida com a nossa não deveria acontecer com aqueles moradores. Trata-se de uma comunidade que não sabe se ou quando a barragem da CSN vai romper.

Após verem as fotos da exposição, Vitória e Gustavo foram ler a edição mais recente do Jornal A Sirene. (Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene).

“Quando eu cheguei lá e soube que a barragem estava acima de mim, fiquei horrorizada. Ali não dá tempo de correr, nem mesmo de gritar socorro. É uma tragédia anunciada, assim como era em Bento, mas lá todos já têm conhecimento. É preciso que eles se unam. E a gente se una a eles também, para dar voz, para saberem que não estão sozinhos.”

Simone Silva, atingida de Barra Longa

“Eles estão lutando sem saber sobre a maior parte do dano, que não é o físico. O dano maior que está sendo causado é o psicológico, porque o físico é recuperável, mas o mental é sobre como vai ser daqui pra frente, e isso eles não podem mensurar.”

Milton Sena, atingido de Ponte do Gama

Nós já fomos das batalhas mais desgastantes até os encontros que nos permitiram rever os amigos. E um pouco disso foi possível mostrarmos em Congonhas, ao contarmos nossas histórias. Os moradores se reconheceram em várias delas e entenderam a importância de se unirem pela garantia da vida.

“Nenhuma informação a gente dispensa, porque a barragem da CSN está em cima da nossa cabeça. A empresa diz que, caso rompa, eles vão avisar a gente de carro também. Em Mariana, deu tempo com aquela moça da moto [Paula], mas e se aqui não der tempo? A gente treme com isso.”

Efigênia de Almeida, moradora de Congonhas

“Foi muito importante para nós, de Congonhas, receber essas orientações e trocar experiências. Além disso, foi bom saber a importância de ter um mecanismo de informação que fale a voz da verdade, ter um apoio assim como o do Jornal A SIRENE. Acho que foi o começo de uma parceria muito bacana e nós agradecemos muito por esse momento.”

Rodrigo Ferreira, morador de Congonhas

Em Congonhas, dizem que, para a CSN, o “egoísmo fala mais alto”. E parece mesmo, pois a empresa pretende aumentar a barragem em 10 metros, chegando a quase 90 metros de altura, como nos explicou o morador e ativista Sandoval Filho, que também luta contra a exploração mineral na Serra da Moeda. Os governantes e a CSN não esclarecem aos moradores sobre os perigos.

“Nós não fomos treinados e a sirene que eles instalaram não funcionou. Fizeram relatórios sobre isso, mas a gente não tem muito acesso e, quando temos, não entendemos muito o que dizem.”

Juliana Campos, moradora de Congonhas

“A falta de um treinamento para os moradores me angustiou. É preciso soar a sirene mensalmente, com orientações, como: as crianças na escola, para onde elas devem correr; não voltar para casa e seguir do ponto onde estão; como deve ser a retirada de idosos e doentes.”

Lucimar Muniz, vítima do crime de Fundão

O fato de as empresas não serem transparentes acaba gerando desinformação e angústia na comunidade, que acaba não sabendo como agir. Por isso, o trabalho do Lei.A, que nos convidou para o evento, foi explicar o que ocorre sobre o meio ambiente, na linguagem de quem precisa saber.

Gustavo Nolasco, coordenador de comunicação do Lei.A, organização responsável pelo seminário. (Foto: Tainara Torres/Jornal A Sirene)

“Quem passa a informação, no caso da mineração, ou é a mineradora ou é o governo. Por que tem que ser assim? Nós não somos contra a mineração, a agricultura ou contra o uso dos recursos hídricos. Na verdade, a gente é contra a forma que se faz hoje e, principalmente, a forma como se explica as coisas para as pessoas sobre isso. Ao conhecer as informações, a pessoa vai conseguir monitorar e, ao conseguir monitorar, ela vai ter o estímulo para agir.”

Gustavo Nolasco, coordenador de comunicação do Lei.A e um dos fundadores do Jornal A SIRENE

O que esperamos, daqui pra frente, é que lá em Congonhas seja ainda mais forte a resistência contra as pressões da CSN, na garantia de decisões claras e que favoreçam a segurança das famílias. E, do lado de cá, seguimos nossa luta sem esquecer que, não importam as distâncias, continuamos sempre do lado certo da história.

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