“Eles resolvem com mais barragens”

(Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

Por Geraldo Magela Silva e José Ribeiro Neto (Zé Patim)

Com o apoio de Larissa Pinto, Sérgio Papagaio e Silmara Filgueiras

Fotos: Larissa Pinto e Silmara Filgueiras

Santana do Deserto, distrito da cidade de Rio Doce, é uma comunidade ribeirinha que, por conta do crime da Samarco, Vale e BHP, não pode mais confiar no rio que tinha como fonte de renda, trabalho e, além de tudo, lazer. Desde 2017, a rotina do lugar, caracterizada essencialmente como rural, se transformou novamente a partir do início das ações de limpeza na Hidrelétrica Risoleta Neves, do consórcio Candonga. Porém, a solução dada pela Renova/Samarco para a limpeza do rio é questionável. A fundação/empresas estão construindo uma nova barragem destinada ao depósito de rejeitos retirados da água e os moradores se preocupam com os riscos que isso apresenta à comunidade já atingida por Fundão.

“Eu não ando na beira desse rio sem uma bota no pé de jeito nenhum”, Geraldo Magela Silva (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)
“Eu tive um prejuízo muito grande no meu comércio por conta do rompimento da barragem”, Zé Patim (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

No final de 2016, a Samarco comprou a Fazenda Floresta e tirou as pessoas que estavam morando de lá. O que a gente sabe é que a fazenda está sendo usada como depósito do rejeito. O caminhão pega a lama na beirada do rio e leva até lá em cima. Nós não sabemos muito bem o que acontece lá, porque eles não falam nada com a gente aqui na comunidade e também não deixam nenhum de nós atravessar a área de proteção. Outro dia, um fazendeiro foi até lá procurar uma criação que tinha sumido e o segurança chamou polícia para ele. Lá em cima, onde eles estão construindo a barragem, sei que tem até nascente de água. Eles estão colocando o rejeito em cima da nascente e isso está matando ela. E é até perigoso, porque, se eles estão colocando o barro lá, ele vai ficar sempre úmido.

O que eles querem esconder de nós? Quais segredos trazem aquela barragem? Seria Fundão de novo? Afinal, por que não podemos ir até lá? O que a gente tem ouvido é que, no terreno da barragem, já tem uma rachadura e isso nos deixa apreensivos. Para a empresa, lá não tem perigo não, mas, e para nós, aqui, quem garante? A lama pode não derrubar as nossas casas, mas vai nos atingir mais uma vez.

A gente passa na estrada, onde a ponte quebrou, e não vê mais a quantidade de água que descia antes. Além disso, a estrada que liga Santana a Rio Doce ficou mais perigosa por causa do trânsito de caminhões, máquinas e equipamentos pesados, por causa disso a estrutura da ponte foi abalada e não podemos mais passar por ela. Eles construíram um desvio com tubulões para escoar a água da nascente, mas o que temos medo é que, depois de uma chuva forte, como umas que já presenciamos, a obra provisória não comporte a água e venha a se romper. Se isso acontecer e juntar com o rompimento da barragem de rejeitos da Fazenda Floresta, podemos ficar sem estrada para sairmos de Santana. Ficaremos ilhados. E se tivermos alguma emergência? Nós já somos atingidos e eles não querem reconhecer.

Geraldo Magela Silva e “Zé Patim”

Por tudo isso, a paisagem natural de Santana do Deserto está sendo continuamente modificada pelas movimentações dos canteiros de obras que invadem áreas de preservação ambiental e destroem grotas. Do mesmo modo como a construção do Dique S4 alagou as terras de Bento Rodrigues (obra justificada, sem prova, como plano de ação para conter o rejeito de Fundão), a Renova/Samarco/Vale/BHP substituíram a Fazenda Floresta e o campo de futebol da comunidade como forma de manejo de rejeitos. Mas é possível recuperar o meio ambiente condenando novas nascentes? Quantas barragens ainda serão construídas para serem depósitos de rejeitos nessa tentativa de reparar o crime?

Entrada para a Hidrelétrica de Candonga (Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)
Na placa: “Zona de Preservação Ambiental (ZPA)”. (Foto: Silmara Filgueiras/Jornal A Sirene)

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