Entre o cansaço e a esperança

Por Expedito Lucas da Silva (Kaé), Manoel Marcos Muniz e Maria Geralda
Com apoio de Francielle de Souza e Wandeir Campos
Foto: Miriã Bonifácio

A Fundação Renova/Samarco insiste em dificultar as negociações do processo de reparação integral e, assim, a retomada dos nossos modos de vida parece ficar cada vez mais distante. Desde o rompimento, precisamos denunciar o descaso das empresas e, ainda, manter alguma expectativa de que nossas perdas e danos sejam reconhecidos para, enfim, teremos nossa vida de volta. Se pudéssemos nos encontrar com quem éramos há três anos, o que será que diríamos dessa trajetória? Como contaríamos sobre o que (não) tem sido feito nesse tempo? Quais recados gostaríamos de dar a nós mesmos?

Ainda há luta

Até o dia 05 de novembro de 2015, levávamos uma vida tranquila em Bento Rodrigues, de acordo com os meus projetos de vida e da minha família. Hoje, passamos a maior parte do tempo tentando resolver situações causadas pelo rompimento da Barragem de Fundão, das empresas Samarco e suas controladoras Vale e BHP Billiton. Faço parte da Comissão, participo de reuniões, GTs, audiências, visito os animais que estão aos cuidados da empresa, teve reformulação do cadastro. São atividades que, antes, eu não tinha. Estamos sempre em busca de direitos, para que a Renova/Samarco reconstrua Bento Rodrigues e nos faça uma reparação justa, para termos de volta uma vida digna, próxima a que tínhamos lá, da melhor maneira possível. Não vai ser igual, é lógico, mas pelo menos vamos poder tocar a vida para frente.

A sensação que tenho e acho que é a mesma da maioria dos atingidos é que nesses três anos a nossa vida parou. Eu poderia estar na minha casa com a minha família, nos momentos de lazer ou fazendo as atividades diárias, como era de costume, cuidando daquilo que eu mais gostava, desfrutando de tudo que conquistamos com o nosso trabalho, eu e minha esposa já aposentados e minha filha na nossa comunidade – Bento Rodrigues. Como sempre falo, hoje vivemos em função do rompimento, mas até isso a empresa entende que é nossa obrigação.

Se vamos às reuniões para defender direitos que nos foram tirados é porque eles estão se negando a reconhecer. De quantas reuniões participamos até hoje? Quantas entrevistas foram dadas? Isso aconteceu alheio a nossa vontade, estávamos no anonimato de um distrito tranquilo e sossegado. Quem nos tirou tudo isso é que tem o dever e a obrigação de nos reparar.

No meu caso, me consideram como “meio atingido”, os meus direitos são pela metade, e tem também aquelas pessoas que ainda não tiveram os direitos reconhecidos. É uma situação simples de ser resolvida, mas a Renova/Samarco prefere subtrair daqueles que eles sabem que são atingidos e que perderam tudo num piscar de olhos, como num passe de mágica, arrancados por eles mesmos, resultado da ganância. Preferem gastar quantias volumosas com o jurídico, nos humilhando nas audiências, buscando esconder atrás das leis o crime que cometeram, transformando o atingido em réu. Por quanto tempo mais nós vamos ter que continuar “mendigando” nossos direitos, sendo humilhados e constrangidos diante das empresas e da justiça? Os projetos de vida que eu tinha foram interrompidos. Até quando?

Manoel Marcos Muniz,
Morador de Bento Rodrigues.

Como nos sentimos

Esses três anos foram de muita luta e de muita incerteza. Tive que aprender muito, porque não era acostumado com reuniões e audiências. Mas, com a ajuda do Ministério Público, Assessoria Técnica e outras pessoas/órgãos que nos auxiliam a entender o processo, tivemos algumas vitórias ao longo desse tempo. Por isso, hoje eu consigo trabalhar, minha memória tem voltado. A saúde da gente ainda não está boa, mas agora que começou o reassentamento, tenho um pouco de esperança. Mesmo que não esteja 100% resolvido, há uma esperança.

Antes eu me sentia uma pessoa livre, hoje mudou. Minha liberdade… Me sinto como um passarinho que estava solto e você prende ele na gaiola, depois o solta e ele nunca será o mesmo. Fica sem rumo. É difícil até para quem está de fora entender, só quem é atingido(a) sabe. Então, para o Kaé de antes, eu digo que você tem que seguir em frente, tocar a vida, erguer a cabeça e enfrentar os problemas. Só assim que você vai conseguir.

Expedito Lucas da Silva (Kaé)
Morador de Bento Rodrigues

Nesses 3 anos, a vida já não é mais a mesma de antes. Estamos vivendo na esperança de que as empresas façam alguma coisa, mas até agora nada. Tudo está do mesmo jeito. Temos muitas reuniões, nada é decidido e nem sabemos quando vai ser. Vivemos em um lugar que não é nosso. Tivemos que vir pra cidade, viver de aluguel, de cartão. Essa não é a nossa vida. Eu cuidava da minha casa, vivia tranquila, cuidava das minhas plantas. Agora acabou a nossa liberdade. As empresas acham que o direito é deles, que podem pisar em nós. Não estamos sendo reconhecidos. Atingido não tem valor para eles. Isso não é certo. A culpa é das empresas. Foram elas que cometeram um crime.

Tenho ido a reuniões, por exemplo, e fico pensando no meu povo de Paracatu. Muitos já perderam a esperança. Às vezes, olho para as pessoas e vejo isso nos olhos de muitos. Uns estão doentes, outros já se foram e nem puderam ver o novo Paracatu. Sabemos que nossas casas não vão ficar prontas em 2019. Tudo o que queremos é justiça e a empresa nega nossos direitos. Não conseguiram devolver a nossa vida ainda.

Para a Maria Geralda de antes, eu diria que tudo está muito diferente. Agora eu vivo preocupada, pensando quando vamos sair dessa. É muito sofrimento, muita dor, muito desespero. São três anos de angústia e sofrimento. Eu diria que essa marca nunca vai apagar, essa marca vai ser pra sempre, mas a gente vai aprendendo com a vida.

Maria Geralda
Moradora de Paracatu de Baixo

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