Vem aí o Zé e sua catraca

Por José Mauro Marra, ou melhor, Zé Catraca
Com o apoio de Larissa Pinto e Tainara Torres
Fotos: Tainara Torres

– Opa! Você sabe onde mora o Zé Catraca aqui?
– Ah, Zé Catraca? Seeei! É na rua de cima aqui, ó.

Já na primeira tentativa de encontrar o endereço certo, a dica dada por José Mauro Marra, pelo telefone, dias antes da entrevista, surtiu efeito: “Pergunta na rua onde mora Zé Catraca. Todo mundo sabe onde é”. Não deu outra. Foi só bater algumas palmas e gritar “Ô, Zé!” para que ele aparecesse: meio desconfiado, apesar de saber que receberia visita.
Na sala de casa, sentado no sofá, Zé logo tratou de contar que, na outra vez em que deu entrevista para o Jornal A SIRENE, saiu coisa errada. Na matéria da edição 5, ele relembrava os festejos tradicionais das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem. “Eu não moro em Gesteira, nasci lá, mas vivo em Barra Longa”, esclarece.

Apesar da fala calma, Zé tem uma rotina agitada. De manhã, das 5 às 7 horas, comanda o programa de rádio Manhã Sertaneja, na Barra FM – rádio que ajudou a fundar. Às 7 horas, trabalha como borracheiro na prefeitura, onde fica até às 16 horas. Quando o relógio marca 17h15, ele pula no ônibus e vai para Acaiaca para estudar. “Eu não sabia ler nem escrever, então, há cinco anos, resolvi estudar.” Tem dias que só volta pra casa pra lá de 23 horas.

E isso não é tudo. Zé tem um coral – formado só por homens – chamado Cristo Rei, que começou com os amigos de igreja. É coordenador dos Alcoólicos Anônimos de Barra Longa e está sóbrio há 17 anos. E, aos finais de semana, ainda trabalha com um grupo de garçons. As ocupações, apesar de muitas, fazem bem a ele: “Pra mim, ocupa a mente. Alcoólatra não pode ter tempo, senão já vai tomar uma cerveja ali. Desse jeito, eu fico com a cabeça ocupada só com serviço, trabalhando”.

O senhor conta, porém, que o trabalho diminuiu desde o rompimento da Barragem de Fundão. “Eu trabalhava de garçom à noite numa casa noturna e a casa fechou por causa da lama. Eu fui chamado pra fazer o cadastramento e fiz. Só que, até hoje, ninguém falou mais nada comigo.”

Zé conta, ainda, que, no dia em que a barragem rompeu, pediram que ele fizesse um plantão na rádio para alertar as pessoas sobre o que estava acontecendo. “Eu fui pra lá. Só que teve gente que mandou me tirar da rádio. Falou que eu tava apavorando os outros, olha só.”

Depois de muito papo, a dúvida que vinha nos acompanhando virou, finalmente, uma pergunta: “E esse apelido, de onde o senhor ganhou?” Zé Catraca jogou o corpo pra trás no sofá e riu. Provavelmente, ele já esperava pela questão, mas se surpreendeu por demorarmos tanto para fazê-la. “Esse apelido tenho desde criança. Há muitos anos, passou um circo em Gesteira e eu cismei. Fui embora com eles. Eu tinha 11 anos. Aprendi a trabalhar de palhaço e, na época, tinha um monociclo de uma catraca só. Eu trabalhava nele, montava e rodava pra frente e pra trás. Eles falavam: ‘Vem aí o Zé e sua catraca!’. E ficou Zé Catraca”.

A cada frase, Zé esbanja no rosto um sorriso que esconde o peso de suas histórias. A mãe e o pai sumiram quando ele tinha dois meses de idade. “Meu pai queria matar eu e meu irmão porque dizia que não tinha condição de criar nós dois. O senhor Pedro, de Gesteira, que já tinha 14 filhos, pegou a gente pra criar.” Mais tarde, Zulmar, filho de seu Pedro, se casou com dona Vilma e Zé Catraca foi morar com a nova família. Contudo, ele não esconde que sua maior vontade, hoje, é conhecer a mãe. “Eu tenho vontade de saber quem é ela, como ela é. Só sei o nome dela, não tenho o sobrenome. Ela deve ter 88 anos hoje”, revela José Mauro.

Para encerrar a conversa e retomar o dia – pois precisava voltar ao trabalho -, Zé Catraca agradeceu a conversa e, como acontece no circo, fechou as cortinas de mais um espetáculo: “É isso aí que eu tinha pra falar pra vocês. A minha vida é isso”.

COMENTE

Ainda não há comentários

Os comentários estão fechados

CADASTRE-SE NA NEWSLETTER

Send this to a friend