Os costumes religiosos permanecem

Com a perda de objetos simbólicos, após o rompimento da Barragem de Fundão, houve a diminuição das práticas religiosas e da comunhão entre os moradores das comunidades. O valor dos ritos espirituais, entretanto, não foi perdido e ainda permanece na memória dos(as) atingidos(as) e na história das comunidades. São vínculos afetivos construídos ao longo de décadas, que envolvem dedicação, amor e fé. Algumas liturgias ainda fazem parte do imaginário e são praticadas nas comunidades atingidas por seus(suas) moradores(as), sobretudo em datas festivas e religiosas. Apesar das perdas, o presente ainda se liga ao passado de costumes, seja por meio da lembrança, ou por algum objeto que não foi levado pelos rejeitos de minério.

Por Filomeno da Silva e Maria Geralda
Com o apoio de Rafael Francisco

 

Eu vivi, até pouco tempo atrás, muito próximo da igreja. Comecei muito novo a participar de assuntos religiosos. Eu tinha 13 anos quando fui convidado. Eu ia à igreja na parte da noite. Fazíamos visitas e orações ao Santíssimo todos os dias. Próximo da Semana Santa, tínhamos o cuidado de preparar as procissões: a de Ramos, das Dores, a do Depósito do Senhor Morto e a do Encontro. E também tinha as celebrações de missa. Eu levantava de manhã e ia à capela arrumar alguma coisa.

Eu cheguei a construir locais para guardar coisas antigas da igreja que só eu sabia. Só nesta época do ano que as pessoas podiam ver as imagens de madeira. Elas ficavam escondidas nos esconderijos que eu havia feito para não serem roubadas. Mesmo após o crime, algumas pessoas vão para Bento na Sexta-Feira da Paixão, porque as missas ainda são celebradas em Bento. Mas muita coisa não fazemos mais, devido à perda dos objetos da igreja. As vias sacras não são mais como eram. Não vai nem um terço das pessoas que participavam antes.

Muita coisa foi perdida com a lama. É bem provável que algumas peças sacras da Igreja de São Bento estejam debaixo da lama seca. Eu estava muito próximo da convivência da organização, então aquilo tinha, para mim e para a comunidade, um valor histórico, religioso. Não existe preço que pague o valor que tudo isso significa.

As festividades da Semana Santa são feitas desde a década de 1950. E só paramos de fazer dentro de Bento por um tempo, após o rompimento da barragem. No passado tinha todas as festividades. Os troféus que eu tinha, fotografias, tudo foi embora. Ficam as lembranças.

Filomeno da Silva, Bento Rodrigues

Fotos Rafael Francisco

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