A fé e a espera de João

O crime da Samarco, Vale e BHP Billiton altera a vida dos(as) atingidos(as) de diversas formas. João Leôncio construiu a sua vida em Bento. Mudou-se aos 20 anos e lá se converteu ao Evangelho, construiu uma família, adotou diversos cães e cultivou um grande afeto pelos animais. Hoje, ele ainda vai ao cultos, mas não mais diariamente.  Aqui, longe de Bento, carrega a sua maior saudade: seu cachorro Fred.

Por João Leôncio Martins

Com o apoio de Júlia Militão e Wigde Arcangelo

Eu nasci na região de Piranga. Vim para o Bento em 1972. Tem bastante tempo, uns 47 anos, por aí. Não pretendia sair do Bento, não. Eu pensava que ia morrer lá. Mas, infelizmente, aconteceu que a barragem estourou, aí não teve outro jeito a não ser sair. Mas eu gostava de lá, gostava mais do que de onde eu nasci. 

Eu fui pra Bento, porque eu tinha um tio que trabalhava numa companhia que mexia com reflorestamento, ele arrumou um serviço pra mim. Trabalhei um tempo na empreiteira, depois fichei e, por lá mesmo eu fiquei. Trabalhei uns nove anos nessa empresa, saí dela, trabalhei mais ou menos um ano na Prefeitura. Quando terminou esse serviço, eu comecei a mexer com garimpo, acabou que acostumei e fiquei por lá mesmo. 

João Leôncio Martins, morador de Bento Rodrigues

 

Relação com a igreja

Eu me converti com uns 37 anos, em 1989. Eu já estava em Bento. Me converti na Assembleia de Deus, onde congreguei. Eu era o ajudante do pastor. Aí, nos dias em que ele saía, eu dirigia os trabalhos. 

O que mudou, aqui em Mariana, é que lá a gente ia ao culto quase todos os dias da semana. Tinha dia em que a gente fazia culto nas casas dos irmãos. Tinha culto de segunda a sexta, só dia de sábado que não tinha. E aqui não, aqui, normalmente, os cultos que eu vou é dia de domingo e terça. Mas lá não, lá eu ia a semana inteira. A igreja era, mais ou menos, a uns 100 metros de distância, pertinho de casa. Aqui dá um quilômetro e pouco. É um pouquinho mais longe. 

No Bento, a gente conhecia todo mundo. Aqui, até hoje, eu não conheço os irmãos todos da igreja. Vai fazer quatro anos que estou congregando aqui e não conheço quase ninguém por nome. Aqui é diferente, eu só fico na porta, na entrada da igreja. Lá não, lá eu já ficava no púlpito. Mas eu gosto, gosto de ficar na porta, porque a gente tem ligação com as pessoas. 

João Leôncio Martins, morador de Bento Rodrigues

 

Saudade que fica

O que mais me deixou sentimento de lá é cachorro. Eu tinha cinco cachorros. Eu andava pro garimpo todo dia e levava eles, eram como gente pra mim. Com eles, eu conversava, eu brincava, eles iam e voltavam comigo todo dia. 

Um deles, o Fred, era preto, das patas brancas, barriga branca, barbudinho. Ô cachorro que gostava de mim. Antes, eu tinha um outro Fred que gostava de mim, aí eu pus o nome desse de Fred por causa daquele. Cê acredita que o cachorro ficou igual ao primeiro? O cachorro ficou gostando muito de mim. O primeiro que eu tinha, se ele estivesse perto de mim e chegasse uma pessoa correndo na minha direção, ele pulava nela. Eu pus o nome desse de Fred também e ele ficou gostando de mim da mesma forma que o outro.

No dia em que a barragem estourou, eu tava uns 50 metros longe de casa, conversando com uns colegas na porta do açougue. Eu ouvi falar que a barragem estourou, aí eu fui em casa avisar a minha esposa e minha neta. Dali mesmo que eu falei, a gente já pegou tudo e rachou fora pro morro, mas minha esposa disse que os cachorros estavam amarrados lá em casa. Voltei lá, tinha dois cachorros amarrados e três soltos. Desamarrei os dois que estavam amarrados e saí. Chegaram uns bombeiros, polícia e eu fiquei lá perto dos helicópteros, e meu cachorro Fred não apareceu. 

Depois de uns quatro dias, eu voltei pra procurar o cachorro e não achei. O bombeiro disse que o cachorro tinha sido levado pro canil, mas ele não tava lá. Esse cachorro não saía de perto de mim. Pra eu sair de casa, era difícil ele não me acompanhar. E esse cachorro ficou lá. Eu já revirei tudo, até em canil em Ouro Preto, e esse cachorro não apareceu. Eu tô achando que eles deram ele pros outros, só pode ser, eu ouvi falar que teve gente até de São Paulo que levou criação de Bento, então acho que esse cachorro foi pra lá. Se eu soubesse de um investigador que conseguisse descobrir, eu tinha coragem de arrumar um pra olhar isso, pra ver aonde esse cachorro tá. Todo dia eu peço a Deus pra me mostrar esse cachorro. Meu aborrecimento é esse cachorro. E logo o coitado foi ficar lá. Não esqueço dele, às vezes, eu tô andando, me dá uma tristeza, eu lembro dele, porque ele não me largava. Mas eu ainda tenho esperança dele aparecer. Às vezes, quem tá com ele, na hora que arrumar esse Bento, pensa que ele era de lá e joga ele lá de novo. Eu ainda tenho essa esperança dele aparecer. 

João Leôncio Martins, morador de Bento Rodrigues

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