Muitas sirenes para pouca orientação

Há quatro anos, o mundo parou para olhar Mariana e, após Brumadinho, durante alguns meses, olhou para outras cidades ameaçadas por um mesmo fim. Como em grande parte do território mineiro, os moradores de Congonhas e de Macacos convivem com a insegurança da mineração e com o medo de um novo rompimento de barragem. Passado o alarde da mídia, as comunidades ainda esperam por certezas e respostas.

Por Maria Auxiliadora Coelho Pereira e Sandoval de Souza Pinto Filho

Com o apoio de Joice Valverde

Foto: Sandoval de Souza Pinto Filho

A questão de barragens em Congonhas vem passando por fases de atenção e esquecimento bem antes do rompimento de Fundão. Em 2008, houve, aqui, um rompimento parcial da Barragem do Vigia, que causou alagamento de um bairro, felizmente sem vítimas. A partir dali, a população começou a ficar mais atenta. Em 2012 e 2017, a grande barragem Casa de Pedra apresentou problemas e teve que ser reparada. Mas, tanto para Congonhas, quanto para o mundo todo, foi Mariana que acendeu definitivamente o sinal vermelho, depois violentamente reforçado com o pesadelo de Brumadinho. 

 

Sandoval de Souza Pinto Filho, morador de Congonhas

 

No dia 17 de fevereiro, quando falaram que a barragem ia estourar e que a sirene tocou, estava chovendo muito, foi um alarme total. Eu fiquei apavorada. Tava com visita e a criança que tava lá em casa começou a gritar: “Vou morrer! Vou morrer!”. E meu marido tentando acalmar ela, mais a mãe e o pai. Nós fomos para a casa da minha filha, ficamos lá de um dia pro outro, ninguém dormiu. Aí tocou a sirene de novo depois e todo mundo ficou apavorado mais uma vez. Lá, ninguém dorme, o pessoal ficou com síndrome do pânico, tem gente com pressão alta, fazendo tratamento com psicólogo. 

 

Maria Auxiliadora Coelho Pereira, moradora de Macacos

 

Hoje, os que moram próximos da barragem vivem apreensivos, principalmente durante o período chuvoso. Muitos que se encontram em zonas de autossalvamento sequer sabem o que significa a palavra. De prático, temos, no município, uma situação surreal de planos de ação emergencial e de contingência que ainda não têm efetividade e confiança da população. Em duas palavras, medo e desinformação, podemos definir como vive, debaixo de 24 barragens, a população de 70.000 habitantes (fixa e flutuante) de um lugar de altíssimo risco potencial de catástrofe, dado que todas elas se encontram em altitude superior à grande parte da mancha urbana. Ninguém está gostando de viver ao lado de sirenes, como os moradores do Residencial e Cristo Rei (sirenes da CSN) e do bairro Praia (sirenes da Vale), mas não tendo outro jeito. O mínimo que se espera é que as pessoas saibam o que fazer se, um dia, tocarem.

 

Sandoval de Souza Pinto Filho, morador de Congonhas

 

Sobre o medo dela estourar de novo, ninguém fala nada. E aquela contenção que eles estão fazendo lá está atrapalhando o bairro todo. De manhã, a gente vem pro serviço, cheio de caminhão na frente e atrás. Tá insuportável. E ninguém faz nada. Fica assim à mercê: se estourar, estourou, entendeu? E tem muita gente doente com isso, que só de falar de barragem passa mal. Ninguém aguenta isso não, pelo amor de Deus, ninguém aguenta. Eu vivo lá apavorada, tem noite que nem durmo direito. Eu tenho que morar lá, porque é mais perto do meu emprego. Então é assim que o pessoal vive, com medo, angustiado, sem recurso pra nada, tem gente fora de casa desde o dia que tocou a sirene.

 

Maria Auxiliadora Coelho Pereira, moradora de Macacos

 

Grande parte da população de Congonhas ainda não tem informações e orientações confiáveis que tenham sido emitidas por órgãos responsáveis e pelas próprias empresas de forma eficiente. Ver na televisão, todos os dias, o que ocorreu, principalmente em Mariana e em Brumadinho, vivendo nesse vácuo de informações, abre margem para o medo e adoecimento,. Só quem sofre sabe o que está passando. Enquanto deveres legais são esquecidos, serviços essenciais, como a creche e a escola do bairro Residencial, foram suprimidos pela Prefeitura.

 

Sandoval de Souza Pinto Filho, morador de Congonhas

 

A Vale está dando uma moeda que se chama vouchers. Essa moeda só funciona dentro de Macacos, para fazer compra nos mercados e restaurantes. Tem família que tem 20 anos que mora lá e eles tiraram da lista pra receber. Isso é um absurdo. 

  

Maria Auxiliadora Coelho Pereira, moradora de Macacos

 

A atuação do Ministério Público vem sendo extremamente importante desde 2011, quando apareceram as primeiras surgências na Barragem Casa de Pedra. Várias situações tiveram que passar por perícias técnicas e correções das estruturas. Não temos dúvida alguma de que, sem atuação do órgão, Congonhas estaria numa situação bem mais delicada do que a que se encontra. Foram diversos TACs e outras questões até judicializadas, como a obrigação de pagamento de aluguéis para moradores e o funcionamento da escola e da creche em locais mais seguros, que se encontram sob apreciação do Poder Judiciário. Da parte das empresas as ações, no sentido de informar e proporcionar mais tranquilidade e meios adequados de enfrentar a vizinhança indesejável com as barragens, ainda é muito tímida, um pouco na linha do assistencialismo e da negação de responsabilidades, sem  promoção de medidas efetivas. São muitas sirenes para pouca orientação.

 

Sandoval de Souza Pinto Filho, morador de Congonhas

 

A cidade agora é só aquele paradeiro. Tem gente que não vai fim de semana, porque tem medo. O pessoal corre atrás, mas a Vale e o Ministério Público não resolvem nada. Então eles têm que esperar. A Vale só fala isso: “tem que aguardar pra ver o que que vai fazer, como que vai indenizar as pessoas”. Mas isso não interfere em nada. Indenizar? E o que a gente passou, não conta? Porque lá tem muita gente doente, tem criança apavorada, tem gente acamada. E eles não querem nem saber, só querem olhar o lado deles. Descendo pra Macacos, aqui tá um caos, é gente indo e voltando. É uma poeira, é barulho, que as máquinas trabalham a noite inteira. Depois da mídia, depois que teve aquilo lá, é isso aí que tá acontecendo. Vive com os vouchers, né, até resolver.

 

Maria Auxiliadora Coelho Pereira, moradora de Macacos

 

Principalmente após Brumadinho, houve uma cobertura maciça da situação de Congonhas, inclusive pela imprensa internacional e pela comunidade acadêmica. No rebote da catástrofe de Feijão, desembarcaram aqui todas as grandes mídias nacionais e internacionais. É preciso registrar que estamos há nove meses do infeliz ocorrido e ainda não enfrentamos um novo período chuvoso. Se, por um lado, com o passar do tempo, os impactos e as informações parecem ir se dissipando, por outro, as chuvas estão por chegar. Naturalmente que a vizinhança mais próxima das barragens fica mais temerosa com a possibilidade de eventos climáticos severos, como tem sido comum nos últimos tempos.

 

Sandoval de Souza Pinto Filho, morador de Congonhas

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