Para onde foi a lama?

Quatro anos após o rompimento da barragem de Fundão, algumas das questões que envolvem o crime da Samarco, Vale e BHP Billiton são: para onde foi o rejeito de minério que não alcançou o rio? O que a Renova/Samarco/Vale/BHP Billiton fez com a lama de rejeito? A verdade é que parte dela está sendo levada para territórios em que não havia chegado. Em 2018, por exemplo, a Renova lançou uma parcela desses detritos debaixo do calçamento da Rua das Flores e da estrada que leva até a comunidade de Bonsucesso, distrito de Barra Longa. As empresas criminosas descarregam o rejeito de forma irresponsável e geram problemas ainda maiores, ao atingirem outras comunidades. As chuvas dos últimos dois anos fizeram com que parte desse rejeito destruísse as plantações e as criações de peixes, galinhas e porcos de Imaculada e Luís Carlos, que vivem em uma das casas atingidas.

Por Imaculada Rosária Vicente e Luís Carlos

Com o apoio de Júlia Militão e Sérgio Papagaio

Em primeiro lugar, eles fizeram o calçamento em cima do meu barraco, né? Aí trouxeram o rejeito, calçaram com rejeito. Depois de chover muito, o muro que fizeram caiu e o rejeito veio todo pra dentro daqui. Ele desceu, entrou no poço, matou os peixes e levou tudo por aí abaixo. E veio lá de cima também, porque eles puseram o rejeito lá na estrada também.

Luís Carlos, morador de Bonsucesso

 

Eles vieram jogando isso [rejeito] pela estrada afora, espalhando tudo. Chegou caminhão entornando na estrada, nas ruas. Logo depois da obra, uns quatro ou cinco meses depois, aconteceu isso. Da ponte de fora pra cá, veio trazendo tudo, lama, barro, ninguém via nada, arrancou tudo. 

Só em Barra Longa não chegou, não, eles tinham que trazer pra nós aqui também. O que nós temos a ver com isso, né? O problema é esse, o que a gente tem a ver com isso? Não falaram nada que ia colocar, simplesmente, entornaram o caminhão aí, o pessoal da obra veio, colocaram os bloquetes e “tá tudo bem, também”, ninguém falou nada. Na verdade, achamos que era areia mesmo, depois, descobrimos que não, era rejeito que eles tavam trazendo, espalhando por aí. A gente não tem nada a ver com isso e tem que “pagar o pato” também, né?

Imaculada Rosária Vicente, moradora de Bonsucesso

Eles ficam falando que o pessoal de Bonsucesso não foi atingido pela barragem, mas nós fomos atingidos sim. Fizeram essa “porcariada” aí pra cima. Eu fiquei no prejuízo e vou cobrar de quem? Eu tinha minha plantação, tinha laranja, mexerica, mandioca, batata, tudo plantado pelo quintal e matou tudo. Tinha minha horta, o pessoal vinha buscar verdura direto aqui. Alface, couve, ali embaixo era cheio de coisa. E como a lama veio, não deu pra fazer mais nada, aí meu irmão veio e plantou capim, isso aí agora é capim. Não adianta plantar não. Você pode ver que tem uma muda de laranja que eu plantei aí, mas não sai de jeito nenhum. Por causa do rejeito, entendeu? 

Luís Carlos, morador de Bonsucesso

Isso aqui tava lotado de peixe, na época, eu tinha colocado os peixes. Mas a água veio até aqui e eu ficava: “se subir mais um tiquinho, vai entrar dentro de casa”. Ainda bem que esse barranco aqui nos salvou, mas isso aqui foi lama pura, tampou tudo. Você não via poço aqui não, virou um mar. Encheu foi tudo, foi tudo embora, peixe por aí afora. Sobrou mais nada. Até hoje, não tivemos nem condições de arrumar o poço. O dinheiro é curto pra colocar mais peixes, então… Mas vamos colocar, se Deus quiser. Aqui era bonitinho demais.

Imaculada Rosária Vicente, moradora de Bonsucesso

 

Deu até dó ver meus peixes morrendo aí, aquela lama, aquele “trem” vermelho, meus peixes morreram. Eu falei com a Imaculada: “bens materiais, a gente consegue outros, o problema é a vida da gente”. Até hoje, eu não arrumei, porque eu fico com medo de colocar, sabe? E chover de novo, vir esse rejeito que tá na estrada. Enquanto não arrumarem direitinho e acabar com esse rejeito, não adianta colocar peixe, não. Eles invadem aí, vêm cá e matam meus peixes tudo de novo. Galinha, minhas galinhas, levou tudo embora. E como você salva? Não tem jeito não.

Esse barraco meu aqui era cheio de gente. Quando o boteco tava fechado, o pessoal tava aqui. Nós íamos no poço, pegávamos umas três tilápias, limpava rapidinho, rapidinho a Imaculada jogava na mesa aqui, e nós tomávamos nossa cachacinha, e o pessoal alegre, sem problema. Mas hoje acabou. O peixe era pra muita gente, e eu não vendia não.  Era um prazer que eu tinha, sabe, que eu tenho. É um prazer que eu tenho, de voltar ao que era antes. Mas só que depende deles, né? Porque eu não posso fazer nada. Condições agora eu não tenho, então depende deles. Eu quero voltar ao que era antes, sabe?

Luís Carlos, morador de Bonsucesso

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