Mais um prazo

Desde o dia 5 de novembro de 2015, os(as) atingidos(as) aguardam suas vidas de volta, mesmo sabendo que nada será exatamente igual ao passado vivido em suas casas, seus distritos, seus territórios. Locais onde suas histórias estavam escritas em qualquer parte em que pisassem: nas casas, nas igrejas, nas árvores, nos bares, nas cachoeiras, nas escolas, em todo canto. O primeiro prazo fixado para a entrega dos reassentamentos foi março de 2019. Depois, o prazo passou a ser agosto de 2020. Agora, está fixado em fevereiro de 2021, sob multa diária de 1 milhão de reais em caso de mais atrasos.  Até lá, caso esse novo prazo seja, de fato, cumprido, serão cinco anos distantes de suas realidades, que lhes foram tomadas pelo rejeito das mineradoras. Quanto tempo até a angústia da espera passar? 

Por Antônio Pereira Gonçalves (Dalua), Caromi Oseas, Claudinei Marques da Silva, Marquinhos Muniz, Mirella Lino, Simária Quintão

Com o apoio de Joice Valverde, Júlia Militão, Juliana Carvalho e Wigde Arcangelo

Enquanto o recurso sobre o prazo de entrega dos reassentamentos não é julgado, a data final continua sendo fevereiro de 2021. Sobre o prazo, as empresas Samarco, Vale e BHP Billiton acusam as famílias, a Assessoria Técnica e o Ministério Público pelo atraso das obras. Contraditoriamente, muitas famílias estão sem atendimento ou com o processo de reassentamento parado, porque a Fundação Renova alega que está aguardando a juíza tomar decisões. No meio dessa disputa estão as famílias atingidas, aguardando providências tanto do judiciário quanto das empresas.  

Caromi Oseas, assessora técnica da Cáritas

Com relação ao prazo, foi falado março de 2019. Mas, antes disso, numa reunião que aconteceu com a gente, não lembro quem falou que, de repente, poderia sair até em 2018, mas março de 2019 não aconteceu. Agosto de 2020 também não vai acontecer. Depois, em reuniões com a comissão, em uma visita no reassentamento de Bento, um dos funcionários da Renova falou que, no Natal e no Ano Novo de 2020, nós já estaríamos em nossas casas. Basta eles falarem e a gente até pensa: “é, vamos acreditar”, mas a gente vê que é impossível. Aí agora, de último, a juíza fala em fevereiro de 2021. Deu mais esse prazo, né, mas a gente vê também que não vai cumprir. E agora, com essa paralisação do coronavírus, por quanto tempo vai ficar parado? A gente vê que já tava atrasado, se parou, vai atrasar mais ainda. Mas também não podemos pensar assim, por outro lado, é importante e necessário ter essa paralisação? A gente vê que sim, é necessário preservar vidas. É o que eles deveriam ter feito. Se é que eles já sabiam que a barragem ia romper, eles tinham que preservar vidas naquela época do rompimento. 

Marquinhos Muniz, morador de Bento Rodrigues

O prazo para a entrega é o mesmo, tanto para o reassentamento coletivo quanto para o reassentamento familiar. Não era o que a gente queria, né? Porque, alterando o prazo, é mais tempo que a gente continua nessa luta, que já tá bastante desgastada. São quatro anos e pouco que a gente tá nessa batalha e, cada dia mais, mais um sofrimento pra gente, né? É mais uma carga, é mais um desgaste emocional, físico também, então não era a melhor decisão pra gente. Fica essa sensação de desgaste mesmo. 

Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

Em fevereiro, o que eles vão entregar? Meia dúzia de casas? Duas? Isso aí, pra mim, também não é entregar reassentamento, com um reassentamento que tem mais de 200 casas para serem construídas, vão lá entregar seis, sete casas? Isso, pra mim, não é entregar reassentamento a atingido, não. Já vai pra cinco anos, não tem uma moradia pronta. E te falo mais, eu duvido, quem está falando sou eu, Claudinei, não é ninguém não, eu duvido que, até 2025, aquele reassentamento está entregue. Não acredito. 

Claudinei Marques da Silva, morador de Bento Rodrigues

Nós não temos que aceitar lotes de casa, 10 ou 20, temos que aceitar todas. Saímos de nossas comunidades juntos, temos que voltar juntos. Já vão entregar as casas, mas não vão entregar as igrejas. Pois as igrejas não são fáceis, é um outro processo. Então vamos ter comunidades sem as suas igrejas.

Antônio Pereira Gonçalves (Dalua), morador de Bento Rodrigues

Eles adiaram para fevereiro de 2021 e eu acho que eles não dão conta de entregar. Eu acho que vai ser mais uns dois ou três anos pra frente. Eu espero realmente que eles entreguem até fevereiro de 2021. Eu tô com a esperança de que eles entreguem, mas, do jeito que estão andando as obras lá, acho que não entregam não, está muito devagar. Eu vejo que as empresas estão fazendo o que elas querem. Então é desse jeito que vai continuar caminhando. 

Simária Quintão, moradora de Bento Rodrigues

Em relação a meus pais, eles não gostaram da situação não, né? Mas, como sempre, nem tudo que a Renova faz a gente agrada. Então essa prorrogação desse prazo aí, minha mãe falou: “ah, esse trem não vai ficar pronto é nunca”.

Claudinei Marques da Silva, morador de Bento Rodrigues

A gente tenta traçar planos de vida, mas é muito difícil, porque esses planos acabam tendo que ser deixados de lado por causa dessa situação. Eu tô muito triste agora, com a minha situação acadêmica mesmo. Eu gosto de dizer que me tornei mulher no meio dessa confusão toda. Eu fiz 18 anos e, em 2016, eu entrei na Ufop e comecei o curso de graduação, eu, como uma mulher negra, numa universidade pública, fazendo curso superior, era uma conquista muito grande pra minha família e era motivo de muito orgulho para os meus pais. Levar esse curso em conjunto com a nossa luta me atrapalhou muito. Ainda tendo que amadurecer no meio disso tudo… Eu tô quase sendo jubilada da Ufop agora e isso tá me corroendo muito, porque, no meio de tanta coisa ruim, no meio de tanta luta pra sobreviver, conseguir isso era um motivo de muito orgulho pra mim e eu tô vendo isso sumir das minhas mãos, porque eu tô presa nessa situação e todos nós estamos… E isso também é um dano muito grande, essa tomada do direito de traçar planos, porque a gente tá preso àquela data de 2015. Parece que o tempo anda, mas, pra nós, não, porque a gente não consegue fazer nada mais, porque o jeito como a Renova e as empresas levam isso toma tudo da gente. Toma saúde, toma conquistas e vai tomando, tomando… A gente tá tão preso nisso que a gente não consegue nem traçar planos de vida mais, não ter nenhum projeto de vida, porque a gente depende disso pra qualquer outra coisa. 

Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

Em fevereiro de 2020, a Cáritas apresentou ao Ministério Público um relatório denunciando a Fundação Renova pelo descumprimento dos acordos, ausência de atendimento e atuação arbitrária. Para a Assessoria Técnica, além da entrega do reassentamento acontecer o mais rápido possível, é preciso que, antes disso, as famílias sejam devidamente ouvidas e tratadas com respeito e isonomia. Além disso, o reassentamento deve ter qualidade e condições suficientes para a retomada dos modos de vida. As famílias precisam estar satisfeitas quanto aos lotes onde suas casas serão construídas. O papel da Assessoria Técnica continua sendo de alertar sobre os problemas e ajudar a propor soluções.

Caromi Oseas, assessora técnica da Cáritas

Troca dos arquitetos

Existia uma insatisfação dos(as) atingidos(as) com a troca da empresa J+T, responsável pelos arquitetos que cuidavam dos projetos das casas dos reassentamentos. Temia-se que a relação de confiança e o trabalho desenvolvido pelos profissionais da terceirizada não tivessem continuidade. Algumas dessas inseguranças tornaram-se reais. 

A informação que eu tive de pessoas que foram procuradas pelos novos arquitetos é que os profissionais pediam para refazer o projeto. Tinha pessoas que não tinham feito o projeto e estão, claro, iniciando ele do primeiro trabalho. Outras pessoas já tinham iniciado, mas não acabado e eles queriam que eles refizessem o projeto de novo. Quem tem que refazer é a Renova com os arquitetos, para dar continuidade aos projetos que já tinha, porque é uma perda muito grande que a pessoa tem de fazer o projeto e depois refazer. Outras pessoas foram lá ser atendidas e eles perguntam se elas lembram de alguma coisa, a pessoa não é obrigada a lembrar da coisa que fez, a Renova e o arquiteto têm que trazer o que eles já tinham. Até porque é um meio da gente entrar em contradição porque nunca que você consegue lembrar das coisas todas, 100%. Os projetos que já foram finalizados e aprovados pela prefeitura não tiveram erro. Por que, agora, com a troca dos arquitetos, estão dizendo que os projetos que não foram finalizados apresentam erros?

Antônio Pereira Gonçalves (Dalua), morador de Bento Rodrigues

Eles estão tentando refazer, né? Eles deram sorte que eu terminei o meu e com o meu arquiteto mesmo, o mesmo que começou comigo, a gente terminou. E espero continuar com ele até o final, que ele não saiu ainda não. Ele era da  J+T. Falaram que eles ficaram, porque tinha muita demanda e não tinham terminado. E, agora, eles estão vindo com essa onda de trazer outros arquitetos de outras empresas e querendo refazer os projetos de todo mundo. Isso aí eu não faria não. Eles iam ter trabalho comigo, porque eu não ia refazer. Os outros arquitetos, a gente já tava acostumado, já tava confiando, né? Então isso aí é uma jogada deles pra poder diminuir mais ainda os projetos das pessoas. Os arquitetos são bons de serviço, fizeram direitinho, quando eles trazem pra gente, já trazem o que a gente falou. Então eu não vejo necessidade nenhuma, é mais uma jogada pra atrasar. Aí, depois, eles vão virar e vão falar que nós é que estamos atrasando a obra, refazendo o projeto, sendo que são eles que estão querendo refazer. E vai falar que a comunidade quis e atrasou, porque tudo deles é “a comunidade que está atrasando”. 

Simária Quintão, moradora de Bento Rodrigues

Os arquitetos anteriores já tinham um vínculo com as pessoas, havia uma troca de ideias do que podia e o que não podia ser feito no projeto. Talvez, se os projetos, lá atrás, tivessem sido iniciados por esses novos arquitetos, tivéssemos o mesmo vínculo que temos com os antigos. A questão é que não estamos falando de empresas, estamos falando de pessoas. Você cria vínculos com a pessoa que está fazendo o seu projeto, cria confiança, entendeu? É a mesma coisa que você trocar de motorista com o carro ainda rodando em alta velocidade, você não consegue. A gente percebe que as coisas que estariam andando, na troca da empresa, elas pararam. Estamos há tanto tempo e tem gente que nem fez projeto ainda, enquanto tem outras que iniciaram o projeto, mas ele está parado e agora vão reiniciar. Eu posso saber o que eu fiz no projeto, mas não sou obrigado a fazer ele de novo, a comunidade tem que estar ciente. 

Antônio Pereira Gonçalves (Dalua), morador de Bento Rodrigues

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