Uma vida imposta

Desde 2015, os dias dos(as) atingidos(as) são marcados por medo e insegurança, tanto na vida daqueles que perderam seus lares e tiveram de se adaptar a uma nova rotina, como na vida dos que permaneceram nos territórios atingidos. A Renova/Samarco/Vale/BHP Billiton divulga uma ideia de que muito dinheiro já foi e está sendo gasto na reparação do crime e, infelizmente, muitos olhares maldosos são direcionados aos(às) atingidos(as) e às obras dos reassentamentos. Alguns dos anseios dos(as) atingidos(as) foram comentados em uma reunião com a Polícia Militar (PM) e com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), como o fato da Renova/Samarco/Vale/BHP Billiton indicar, por meio de placas, as casas que serão destinadas aos(às) atingidos(as) que optaram por reassentamento familiar, o crescente número de roubos e assaltos nas regiões rurais e o programa Reencontre, que abre os terrenos de reassentamento para visitação.

Por Maria do Carmo D’Angelo, Marino D’Angelo, Marquinhos Muniz e Mirella Lino

Com o apoio de Joice Valverde, Júlia Militão e Juliana Carvalho

O que vem acontecendo é tudo em função do rompimento da barragem de Fundão. Depois que isso aconteceu, nós somos vistos com outros olhos. “Ah, o pessoal recebeu indenização, tá cheio de dinheiro.” Nós somos julgados e, na verdade, não é bem assim, né? E isso preocupa muito. É uma coisa que, até mesmo no reassentamento, quando eu fui fazer a visita da minha área, questionei a eles: “ah como que vai ser o fechamento?”. Lá no Bento, janela ficava aberta até tarde, portão destrancado, e isso é uma preocupação que nós temos que ter. Até mesmo com problema de assalto, sequestrar um familiar, a gente tem que pensar muito nesse sentido, sim, a partir do momento em que a gente é julgado. 

Marquinhos Muniz, morador de Bento Rodrigues

Depois do rompimento da barragem, assalto é uma coisa constante aqui, agora. Então, parece que o pior é que eles assaltam mais é os atingidos. Difícil você ver assaltar uma pessoa que não é atingida. Eu, quando fui tirado da minha casa, que não existia Fundação Renova ainda, a Samarco falou que a gente tava por conta e risco deles. Tudo que acontecesse, inclusive o que ficasse dentro da minha casa, se sumisse, eles iam repor. Agora, todo prejuízo que eu tenho aqui, eu acho que eu tenho que ser indenizado por ele. Por quê? Porque a gente vive, hoje, uma vida imposta. Eu tô morando em um lugar que não é meu. Não tem previsão de quando isso vai terminar. Não posso me organizar aqui. 

Marino D’Angelo, morador de Paracatu de Cima

Desde que a gente chegou aqui em Mariana, a gente se deparou com um julgamento errado da população sobre a nossa condição. Isso foi e ainda é um motivo de muita insegurança pra gente, porque tem-se a ideia de que tá todo mundo rico e não é assim. E a gente não tem tantas oportunidades de mostrar pra cidade que não é assim, visto o poder das empresas e da Fundação Renova também para disseminar uma imagem contrária ao que a gente diz.

Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

Pra que a empresa precisa ficar divulgando? Isso é ruim. Vejo que é o seguinte: o papel dela é refazer e devolver aquilo para o atingido, mas o que eles gostam é de estar divulgando. Com relação a levar o pessoal das outras comunidades no lugar, isso tudo aí só vai aumentar a maneira das pessoas julgarem o atingido. A gente mesmo foi contra levar, mas, muita das vezes, a empresa faz esse tipo de coisa, justamente pra tá divulgando. Isso acaba que é ruim pra nós, atingidos. 

Marquinhos Muniz, morador de Bento Rodrigues

A gente tá num território que, primeiro, não é o nosso e, segundo, que tem uma imagem distorcida de nós e isso pode representar muito perigo. Principalmente, as pessoas que estão no reassentamento familiar, que escolheram uma propriedade aqui na sede de Mariana, eu fico muito incomodada com o fato da Renova colocar uma placa dizendo que aquela casa ou aquele lote é do reassentamento familiar, porque isso acaba dando muita visibilidade e causando uma situação muito vulnerável, né? Porque a família vai morar ali e, certamente, vai morar em locais distantes de familiares e amigos e vai estar, basicamente, sozinha. Eu acho muito perigoso sinalizar demais que aquilo faz parte desse atendimento, porque as pessoas não veem isso como uma reparação por algo que foi tomado, como uma reparação por uma injustiça que aconteceu, elas veem isso como um presente, como uma caridade da empresa pra nós. Eu, sinceramente, estou me sentindo muito insegura com essa situação.

Mirella Lino, moradora de Ponte do Gama

Na zona rural, estava tendo muito roubo de criação, de boi, de gado, vaca, porco e cavalos também. E teve um vizinho nosso que teve a casa arrombada. O Marino também teve roubo de animais, cavalo. Foram cinco que eles levaram na carreta. Foi no ano passado, 2019, que roubaram. Cinco de uma vez. 

Maria do Carmo D’Angelo, moradora de Paracatu de Cima

A gente não tinha esse tanto de roubo igual a gente tá sofrendo aqui, não. Agora roubam um animal da gente, lá na frente, eles falam: “qualquer coisa a gente paga”, mas e a estima que a gente tem no animal? E se não for um animal de vender?

Marino D’Angelo, morador de Paracatu de Cima


Em uma reunião com a comunidade, a Polícia Militar (PM) deu algumas dicas de proteção e de novos hábitos que as comunidades podem adquirir para se proteger de furtos, roubos e estelionatos. Com o pagamento das indenizações, a PM alerta:

  • Não forneça dados pessoais para estranhos(as);
  • Fique atento a objetos de grande valor sendo vendidos por valores muito menores na internet;
  • Em caso de ligações suspeitas, tais como de anúncio de sequestro, pedido de informações de dados pessoais e bancários, ligue imediatamente para a polícia;
  • Não ande na rua com grandes quantidades de dinheiro, bem como não guarde dinheiro em casa;
  • Quando for ao banco, certifique-se de que não está sendo seguido.
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