Comunidades tradicionais atingidas em quarentena

As comunidades indígenas e quilombolas são conhecidas pela relação mais harmoniosa e menos predatória com a natureza. Em 2015, sem que fosse do interesse dessas pessoas, essa forma de vida ao longo do rio Doce foi abalada. Isso se repetiu em 2019 para as comunidades que vivem no percurso do rio Paraopeba. Hoje, além dos problemas provenientes dos rompimentos das barragens, essas pessoas precisam mudar mais uma vez seus ritmos de vida devido à pandemia da Covid-19 e lidar com a negligência das mineradoras criminosas e o abandono do governo.

Por Cacique Antônio Carlos (Toninho), Cacique Arakuã Pataxó, Mônica Silva de Jesus, Sucupira e Terré Pataxó

Com o apoio de Júlia Militão, Sérgio Papagaio e  Wigde Arcangelo

Com a chegada da pandemia no nosso país, a gente teve que mudar toda a rotina do trabalho da comunidade, desmarcar eventos, reuniões… Na verdade, a gente não está tendo suporte nenhum do governo, nem municipal, nem federal. Eles não têm estrutura para fazer isso, então, temos nossa organização interna, nossa associação, a liderança, os caciques, essa é a nossa base. Nos organizamos para cobrar das empresas. Nós, da comunidade indígena, já estávamos em “pandemia” há muito tempo. No território de Comboios e Córrego do Ouro, nós já estávamos neste momento complicado, porque, a partir do momento que o indígena não pode caçar, pescar, usufruir do seu espaço cultural, que é o rio e o mar, já era uma prisão. Só que é uma prisão diferente, porque você podia ir e voltar; já essa é mais complicada, pois você pode enfraquecer e ser levado a óbito. Então a comunidade tem esses dois impactos. A gente já estava impactado na área social, econômica e espiritual, a pandemia é um segundo impacto. A gente já estava preso pelo poder do capitalismo. E o vírus também é uma situação do capitalismo.

Cacique Antônio Carlos (Toninho), morador da comunidade indígena de Comboios, Vera Cruz-ES

A rotina mudou, pois os moradores evitam ao máximo sair de suas casas, ir a Linhares ou, até mesmo, ao Pontal. Os tradicionais forrós de fim de semana estão suspensos e também as demais reuniões no território. As áreas de lazer eram ligadas às praias para pescaria. As conversas de bar, hoje, estão impedidas de acontecer. Não temos auxílio nenhum das mineradoras, a prefeitura de Linhares distribuiu máscaras para a comunidade.

Mônica Silva de Jesus, moradora de Degredo-ES

Em 2019, a comunidade indígena Nahô Xohã viu a sua rotina mudar devido ao rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, controlada pela Vale, em Brumadinho. Além das dificuldades que vinham enfrentando por serem atingidos(as), os(as) indígenas da comunidade agora enfrentam a pandemia de Covid-19.

Estamos passando por um momento muito delicado, assim como todo o Brasil está passando, só que estamos sendo esquecidos pelo governo. Sempre foi difícil, mas, hoje em dia, está mais difícil ainda. Estamos fazendo o máximo possível para não sair para cidade, só que, infelizmente, alguns guerreiros estão saindo para comprar alimento, para correr atrás de doação lá fora. Porque a gente, hoje, não tem o rio para pescar, para poder tirar o nosso alimento. Não temos a plantação para colher, porque o solo, aqui na beira do rio, também está contaminado, e estamos passando por muitas dificuldades.

Cacique Arakuã Pataxó, morador da comunidade indígena Nahô Xohã, Brumadinho-MG

Queremos colocar aqui a nossa preocupação com a nossa comunidade. Estamos passando por um momento muito crítico, porque temos o primeiro caso suspeito aqui, uma jovem de 15 anos de idade. Nosso povo está tendo que sair pra comprar o alimento.

Terré Pataxó, morador da comunidade indígena Nahô Xohã, Brumadinho-MG

Nós estamos aqui jogados, mesmo. Porque mataram nosso rio. A Vale tirou o nosso rio, tirou o nosso sustento também. Como vamos caçar pra nos alimentar? Como vamos pescar? Como a gente vai comer um peixe? Não tem como.

Sucupira, morador da comunidade indígena Nahô Xohã, Brumadinho-MG

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