Pandemia afeta produtores da Feira Noturna

A Feira Noturna acontecia em todas as quintas-feiras, na Praça dos Ferroviários, em Mariana. Nela, atingidos(as) e moradores(as) da região, produtores(as) de frutas, verduras, legumes e outros alimentos, podiam comercializar o que sabiam fazer de melhor. A ideia de possibilitar esse encontro veio dos(as) atingidos(as) pela barragem de Fundão e foi firmada por meio do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Comerciantes locais também participavam da Feira Noturna, como uma forma de fomentar a economia regional e a atuação de todos(as) os(as) pequenos(as) produtores(as). Para os(as) atingidos(as), era também uma forma de rever os(as) amigos(as) e reviver memórias de Bento e Paracatu, a partir dos encontros, dos sabores e da música. Mais do que isso, a Feira Noturna significava uma fonte de renda para a manutenção de diversas famílias. Agora, com a pandemia, os(as) atingidos(as) se vêem novamente desassistidos pelo poder público e pelas empresas. Sem a feira, muitas famílias foram prejudicadas financeiramente e lutam pela sobrevivência.

Por Luiz Carlos de Freitas, Roseli Carneiro da Silva, Silvânia Aparecida de Paula Gonçalves e Waldir Pollack

Com o apoio de Joice Valverde e Juliana Carvalho

Inauguração da Feira Noturna, em 2017.

Com essa pandemia, ficou muito difícil, para todos nós, produtores da Feira Noturna. Antes tínhamos o apoio da prefeitura, agora não temos nenhuma renda para nos sustentarmos, alguns têm possibilidade de vender on-line, já outros não. A Feira Noturna era o nosso ganha-pão de toda quinta, tínhamos nossos clientes, nossos amigos e os nossos apoiadores. Trabalhávamos toda quinta-feira, faça chuva ou faça sol, a gente estava lá. Essa pandemia, além de afastar todos os amigos, afastou também os nossos clientes e tirou o nosso dia de trabalho. Estamos isolados, contando com a fé de Deus para que tudo isso acabe e voltarmos a trabalhar para que todos os feirantes da Feira Noturna possam vender o seu produto. Assim, eu conto com Deus.

Silvânia Aparecida de Paula Gonçalves, Presidente da Associação da Feira Noturna de Mariana

Participo da feira noturna desde o princípio. Eu trabalhava com pastel feito na hora, né? Tinha um bom rendimento, todas as quintas-feiras. Com o isolamento da pandemia, nós tivemos que parar com todas as atividades e, pra mim, foi muito difícil, porque eu sou a pessoa pensionista, mas a pensão, hoje, não dá pra uma pessoa sobreviver. Então, era mais uma renda que eu tinha para os meus negócios. Agora, tô me virando de outras maneiras, costurando, fazendo outros tipos de coisas pra inteirar o meu dinheiro. Não tive apoio nenhum. A minha filha, Viviane, que me ajudava, ainda conseguiu o pagamento [auxílio emergencial] de 600 reais, que, graças a Deus, ajudou a gente bastante. Mas é isso aí, a gente sabe que tá sendo difícil pra todo mundo, não tá fácil, a gente vai lutando, né? E espero que tudo isso passe pra gente voltar nas nossas atividades. Além de tudo, era um ponto de encontro. A gente encontrava todos os amigos e todos os feirantes, e, depois disso, cada um tá guardadinho no seu canto, não dá nem pra ver as pessoas que a gente tinha costume, os nossos companheiros de barraca. Mas vamos pegar com Deus que tudo isso passe e a gente possa voltar no ano que vem, com outro formato de feira, sei lá como que vai ser… É só Deus mesmo pra dar uma luz pra nós, mas, por enquanto, vamos levando.

Roseli Carneiro da Silva, moradora de Camargos

Aqui, a situação da pandemia foi pior que o rompimento da barragem. Porque  estão me repondo o que eu perdi na barragem. Agora, na pandemia, ninguém está me repondo nada, então o prejuízo foi maior na pandemia. As feiras fecharam tudo, eu tô fazendo algumas entregas na cidade, mas é um pequeno grupo que está me atendendo. Inclusive, o município não quer que eu fique na rua vendendo, estacionado em algum ponto. Eu recebi até uma advertência do município nesse sentido, da Guarda Municipal. Mas não tô obedecendo muito isso e estou vindo, porque tem muito produto lá que tá perdendo e eu preciso vendê-lo. Eu estou vendendo o que é possível. Nós estamos sobrevivendo, estamos lutando. Mas é uma situação bem complexa, a gente tá tendo muita dificuldade pra sobreviver.

Waldir Pollack, morador de Paracatu de Baixo

A barraca, na realidade, é da minha esposa e a gente trabalha juntos. Então, o que afetou foi o seguinte: financeiramente, hoje, ela não tem renda mais. A gente tá tentando se virar da maneira que pode. Felizmente, eu sou aposentado, eu tenho o meu salário, mas ela não, ela tem que trabalhar. E mulher hoje quer ser independente, não quer ser mais totalmente dependente do marido. Eu acho muito bom isso. Ela tentou o benefício [do Governo], depositaram só uma parcela e, depois, não depositaram mais. Estamos presos dentro de casa sem poder trabalhar, sem poder sair. Nós temos que aguardar. Realmente essa pandemia está afetando várias pessoas e, infelizmente, a gente tem que concordar: enquanto não aparecer essa vacina aí, a gente não vai ter como trabalhar realmente, porque os riscos são muito grandes. 

Luiz Carlos de Freitas, morador de Mariana

Até que a outra feira, do Centro de Convenções, a prefeitura liberou pra gente começar com poucos feirantes. Nós vamos começar amanhã (1o/08), só com 15 barracas – nós somos 33 barraqueiros -, e com toda segurança pra ver se vai dar pra gente tá continuando. E, se não for, a gente vai quebrar o galho da maneira que tá dando. Um pouco das coisas que tá me salvando também é que, como teve a obrigatoriedade de usar máscara e eu sei costurar, tenho feito bastante máscara e vendido pra ajudar nas minhas despesas.

Roseli Carneiro da Silva, moradora de Camargos

Registro da Praça dos Ferroviários vazia, em uma quinta-feira, durante a pandemia.
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