A saudade dos animais

Os(As) atingidos(as) de todas as regiões devastadas pela lama tóxica das mineradoras Samarco/Vale/BHP Billiton foram prejudicados(as) de várias maneiras. Uma delas foi a perda de seus animais. Alguns(mas) perderam para o rejeito, outros(as) perderam a oportunidade de conviver com seus animais diariamente, em seu território. Quando a barragem de Fundão se rompeu, os animais sobreviventes foram transferidos para uma fazenda, em Diogo de Vasconcelos. Hoje, eles se encontram na Fazenda de Castro, em Acaiaca. Se os(as) atingidos(as) já sofriam com as restrições determinadas que os(as) separavam de seus animais, com as medidas de distanciamento social impostas pelo novo coronavírus, a situação está mais difícil. 

Por Arnaldo Mariano Arcanjo, Marcos Muniz e Zilda Ferreira

Com o apoio de Júlia Militão e Juliana Carvalho

Fotos tiradas para a edição 14, de maio de 2017, na fazenda em que os animais estavam sob os cuidados da mineradora Samarco.

Temos em torno de 10 animais equinos. Tinha mais, só que morreram na fazenda, em Diogo de Vasconcelos. A situação deles hoje está ruim. A relação da Fundação Renova com nós, atingidos diretos pela barragem de rejeito, é ruim por não ter organização de visitas aos animais. Nós não conseguimos ver os animais, não sabemos se estão bem cuidados. A coordenação da Fundação Renova disse que não podemos visitar os animais na fazenda. Mas eles não proibiram os funcionários da Samarco de trabalhar para preparar outra barragem.

Arnaldo Mariano Arcanjo, morador de Bento Rodrigues

Nessa quarentena, em meados de março, as visitas foram canceladas. Antes, elas aconteciam uma vez por semana, no local para animais de grande porte, na Fazenda Castro, e outros, de pequeno porte, na Fazenda Asa Branca. Hoje não acontece e a gente vê que, por precaução, a maneira adotada faz sentido, é necessária. Mas, por outro lado, a gente vê que isso faz falta para o atingido, né? As pessoas iam ver seu animal, encontravam com o atingido, com outras pessoas, conversavam… Isso era um meio de até ajudar em relação à saúde, um meio de ocupar o tempo. Precisa da gente ver com a Renova um meio seguro de ir visitar os animais. Um meio que o atingido possa ver seu animal, mantendo o distanciamento. Lógico, serão menos vezes. Teria que bolar alguma coisa nesse sentido, para não ter aglomeração, porque também temos que estar muito atentos: não adianta a pessoa ver o animal e levar o vírus pra contaminar outras pessoas. Seria, também, um meio de ocupar o tempo, ainda mais pelo que estamos atravessando hoje. A gente percebe que isso faz falta para o atingido. 

Marcos Muniz, morador de Bento Rodrigues

Antonio Amado, morador de Bento Rodrigues, em maio de 2017.

Uma vida dedicada aos bichinhos

O amor pelos animais é uma potência de cura e aconchego para muitas pessoas. Infelizmente, nem todas direcionam sua humanidade e apoio àqueles seres indefesos, constantemente maltratados e abandonados, tanto por seus tutores, como pelo poder público. Zilda, moradora de Barra Longa, é uma dessas pessoas que, ao se deparar com animais domésticos que precisam de cuidado e atenção, não hesita em estender a mão e abrir as portas de sua casa. 

Eu cuido dos cachorrinhos de rua, tem muitos e muitos anos. Durante toda vida, eu tive, na minha casa, gatinho. Já tive 20, hoje só tenho três, depois tive cachorro. Uma vez, eu fui operada de vesícula e, por mera coincidência, entrou um cachorro pra casa adentro. Aí eu falei com a minha prima, que estava cuidando de mim: “põe um almoço pro cachorrinho também porque, coitadinho, ele também é visita, chegou na hora do almoço”. A casa estava cheia de visita e o cachorrinho entrou e demos uma comidinha pra ele, né? Aí falaram pra mim: “mas você não pode pegar ele, não, que ele tem dono”. Aí eu falei: “não, eu não vou pegar, não. Só tô fazendo um agrado, porque ele veio me visitar”, então eu dei o almoço, mas não era que eu ia ficar com ele. Aí, na hora da janta, ele voltou pra jantar, jantou e foi embora. Quando foi no outro dia, ele não voltou pro almoço e eu falei com a minha prima: “olha, o cachorrinho ontem não gostou da janta, porque ele não voltou pro almoço hoje”. Quando foi na hora da janta, por volta das 16 horas, ele chegou. Nunca mais foi embora. Quando ele via o dono dele, ele saía daqui e ia lá. Cumprimentava, brincava, voltava… Aí, ele ficou morando comigo muitos anos.

Depois trouxeram um irmão dele, a filha do dono desse outro cachorro me ofereceu outro cachorrinho. Ele ficou anos comigo também, 17 anos, depois morreu. 

Eu continuo com essa vida, quando eu vejo cachorrinho na rua, o povo joga veneno pra um, aí vem aqui: “ô, tia Zilda, vai lá socorrer, porque você sabe mexer com isso, tá envenenado”. Nossa Senhora, me ligam e perguntam: “Zilda, o que que eu dou pro meu bicho? Ele tá assim, tá assado…”. Eu não sou veterinária, não, eu sei só o “basiquinho”. Costuma dar certo, né? Mas eu sempre falo: “vai pro veterinário, liga pra ele”.

Eu caminho às cinco horas da manhã, vou rezando e volto rezando, vai eu e Deus, sozinha. Aí eu peço a São Lázaro, protetor dos animais, a proteção divina pros gatinhos, cachorrinhos, cavalinhos, pros bichinhos do mundo inteiro. E peço pra nós, seres humanos, minha família, meus amigos todos. 

Em janeiro, eu faço 65 anos e é cansativo, viu? Essa semana eu fiquei de dar banho nos bichos que eu tenho aqui dentro, adotei uma de rua de novo. Hoje eu tô aqui cuidando deles e amanhã eu posso precisar. Então eu cuido dos meus bichinhos, que eles também são seres vivos, né? 

Eu cuido dos bichinhos desde que eu tinha 16, 17 anos. E isso é coisa da família, viu? Minhas irmãs que moram em São Paulo também mexem com bichinhos, cuidam de tudo, gato, cachorro, pegam os filhotinhos da rua… Outro dia, minha irmã estava em Belo Horizonte com uma cachorra de rua que tinha acabado de ganhar os filhotinhos no meio da rua, ela colocou a cachorra na garagem pra amamentar os filhos… Acredita que ela trouxe os cachorrinhos pra Barra Longa? 

Hoje eu tô cuidando, aqui em casa, de três gatos e dois cachorros, fora os de rua, que eu dou remédio de verme, né? É o que eu posso fazer. Uma vez, teve reunião aqui com o prefeito pra ver se eles faziam um canil pros bichinhos, mas a reunião não saiu do lugar, não… Então a gente ajuda como pode. Eu gasto mais com ração pros meus bichos do que com comida. Mas tá bom demais, graças a Deus, o importante é estar vendo eles felizes. Nossa Senhora, eles me dão muita alegria. Tem uma aqui que eu chamo de Pretinha, que fica na rua, ela estava com nove filhotinhos. A menina do restaurante aqui perto trouxe pra casa dela, cuidou dos cachorrinhos e a gente fica cuidando. E aí eu peço proteção pra ela e pra todo mundo. Enquanto eu estiver dando conta, eu vou cuidando. 

Zilda Ferreira, moradora de Barra Longa

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