Do quintal à nossa mesa

O alimento que chega à nossa mesa traz consigo muitas histórias, pois carrega um pedacinho do produtor que semeou a terra, plantou as sementes e esperou, atento, pelo tempo da colheita. Esse processo, muitas vezes com raízes na agricultura familiar, é passado de gerações em gerações e faz parte da cultura imaterial das comunidades atingidas. O fruto, por sua vez, vai muito além do consumo, está ligado às necessidades de subsistência e carrega um valor afetivo imensurável. Foi pensando nisso que os(as) estudantes e os(as) educadores(as) da E. E. Padre José Epifânio Gonçalves, em Barra Longa, foram até as comunidades atingidas para conhecer um pouco mais sobre os benefícios e os desafios da prática agrícola. O objetivo é estimular, nos(as) alunos(as), seu reconhecimento como sujeitos e o sentimento de pertencimento à terra e às riquezas que ela nos oferece.

Por Cilésia Maria de Oliveira Carvalho, Ilma Gomes, Joana D’arc Lemos Ferreira Gomes, João Paulo Costa Gomes e Luiz Miguel Lemos Barcelos de Castro

Com o apoio de Joice Valverde e Simone Silva

Ilustração inspirada na obra Retirantes (1944), de Cândido Portinari. – Créditos: Ciro Monteiro.

O projeto “Soberania e Segurança Alimentar na Padre Epifânio”, iniciou no ano de 2019, com o Plano de Ação da Juventude, que é uma proposta da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais(SEE/MG) que visa o protagonismo juvenil. Sendo assim, planejamos, com os estudantes representantes de turma, o projeto “Juventude da Padre Epifânio: Protagonismo em Ação”, que nasceu, basicamente, a partir da constatação de uma necessidade básica do ser humano: conhecer o local onde vive e convive, conhecer a si mesmo e a comunidade onde está inserido. A proposta interdisciplinar envolve estudantes, profissionais da escola, familiares e comunidades. Daí, constatamos outra necessidade: de alcançar, pelo menos, 30% dos recursos destinados à compra da agricultura familiar para a merenda escolar, bem como discutir e conhecer a alimentação em Barra Longa a partir da escola. O principal objetivo é identificar a base econômica do município e sua produção agrícola, bem como reconhecer as potencialidades dos sujeitos envolvidos na escola, de maneira a afirmar a própria identidade, autonomia e empoderamento dos participantes. 

Inicialmente, planejamos o desenvolvimento, de maneira presencial e interdisciplinar, distribuído em áreas de conhecimento. A primeira área foi a de Ciências Humanas, que recebeu o nome “Vista minha pele” e foi trabalhada na íntegra. O desenvolvimento se deu com a distribuição de tarefas entre todos os professores, que assumiram determinadas áreas, e estudantes indicados como referências nas comunidades. Juntos, se mobilizaram e contribuíram com a coleta fotos e depoimentos. A ideia foi justamente promover essa aproximação entre a escola e as comunidades, de maneira que um conheça o contexto do outro, e que os estudantes se reconheçam como parte de todo o processo e sejam reconhecidos como sujeitos do processo, ressaltando o valor de seus saberes, quereres e fazeres.

Com a pandemia, todo o projeto precisou ser repensado: tempo, espaço, metodologia. O principal desafio tem sido a questão do acesso. Nossos estudantes, foco do projeto – protagonismo -, são, na maioria, moradores da zona rural, e muitos não possuem nem um aparelho de celular. Além disso, a forma de trabalho remoto é totalmente nova para todos nós. Outro desafio foi o trabalho coletivo à distância, pois construir e praticar uma proposta a muitas mãos é desafiador. Estamos aprendendo.

O resultado apresentado na primeira fase foi muito importante para mostrar a realidade de nossa escola, os sujeitos que ela atende e como atende. Ainda ficou muito clara a falta de acesso aos meios eletrônicos pela maioria dos estudantes. Agora, a área da Matemática já assumiu e segue na mesma linha de trabalho. Já aconteceram algumas reuniões virtuais com os professores que dialogaram e definiram alguns passos: o nome “Nada do que foi será”; e os temas abordados, que são a economia, os quintais produtivos e o patrimônio cultural (entre o período de 2015 a 2020). 

A mensagem que fica é a de reconhecimento. Devemos nos reconhecer como gente e como sujeitos. Se almoçamos, jantamos, nos alimentamos é porque, no campo, tem gente cuidando de nós. E essa gente precisa ser conhecida e reconhecida.

Cilésia Maria de Oliveira Carvalho, diretora da escola E. E. Padre José Epifânio Gonçalves, em Barra Longa

Professora Ilma Gomes: Você produz o quê, João?

João Paulo Costa Gomes, morador de Gesteira: Sou produtor de cachaça, aguardente de cana.

Professora Ilma: Qual é o local onde você produz?

João Paulo: Meu local é onde tritura cana, extraindo caldo.

Professora Ilma: E essa produção tem destino?

João Paulo: Essa produção tem. A gente fornece para as cidades vizinhas e distritos.

Professora Ilma: Você foi também atingido pelo rejeito da barragem de Fundão? 

João Paulo: Sim, na época em que teve o rompimento da barragem, a gente tava em produção, em atividade. Foi rompida a atividade de produção de cachaça e, na verdade, até hoje, a gente nem foi reconhecido com a fábrica que é registrada, né? Eu sou a quinta geração dessa fábrica e nós pagamos imposto, temos o CNPJ, temos tudo direitinho e a gente não foi reconhecido, até hoje, pelo fato de ter sido atingido pela lama, entendeu?

Professora Simone Silva: E sobre os valores que eles estão oferecendo?

João Paulo: É um absurdo, né? Porque nós temos a mão de obra cara, né? A roça, hoje, não produz o que eles pensam que produz. E a matéria que a gente tem, que é a matéria-prima, não tem valor, porque eles queriam pagar centavos em uma moita de cana, na época que tava com aquele PIM [Programa de Indenização Mediada] em Barra Longa. É um absurdo isso. Hoje, eu compro a cana por 225 reais a tonelada. Agora imagina uma roça de cana em que você paga a centavos…

Luiz Miguel Lemos Barcelos de Castro, aluno do 6° ano: Na sua família, você tem a prática de cultivo de agrícola?

Joana D’arc Lemos Ferreira Gomes, moradora de Barra Longa (tia de Luiz Miguel): Bom, aqui na nossa família, a prática sempre foi de cultivo, mas para consumo familiar mesmo.

Luiz Miguel: O que vocês costumam cultivar?

Joana D’arc: O que sempre costumo cultivar, aqui no terreiro, no quintal, sempre foi hortaliças, verduras, mandioca, inhame, feijão, milho. Frutas, verdura de folhas em geral e alguns legumes. Mas era para o consumo da própria família.

Luiz Miguel: Há um período de uma estação própria para o cultivo desses produtos?

Joana D’arc: Com certeza. Eu não plantava diretamente, mas eu sei que tem o período exato para cada tipo de planta, né? Tem a época de dar cada fruta, a época certa de plantar e colher o feijão, tem o preparo do solo. Não sou eu que faço, mas isso sempre aconteceu aqui no nosso terreno.

Luiz Miguel: Há incentivo de alguma entidade, governo ou ONGs?

Joana D’arc: Não, no nosso caso, porque não é cultivo para ser usado como renda familiar. Não é para comercializar. É só para ser consumido mesmo na própria família. Então, não. Isso sempre foi do gosto que meu pai sempre teve para poder plantar e que meus irmãos continuam tendo também.

Luiz Miguel: Para você, a prática da agrícola familiar tem um impacto positivo ou negativo para o meio ambiente? 

Joana D’arc: Positivo, com certeza. Porque o cultivo familiar, os produtos usados pro preparo da terra, para adubação da terra, são produtos naturais. Não usam produtos agrotóxicos que podem interferir na natureza.

Luiz Miguel: Você e sua família foram atingidos diretos ou indiretamente pelo rompimento da barragem do Fundão?

Joana D’arc: Bom, diretamente e indiretamente. Indiretamente, a cidade inteira foi atingida, uma vez que causou um transtorno muito grande, a poeira, como todos os resíduos que vieram com a lama, isso fez mal para a saúde de todo mundo. E de forma direta também. Por quê? Porque as coisas que plantavam no quintal serviam pro nosso consumo, coisas que, hoje, a gente precisa comprar. Então eu digo que atingiu de forma direta e indireta.

Luiz Miguel: Neste contexto da pandemia, teve alguma mudança na sua prática agrícola? Qual e como?

Joana D’arc: Nem é no período de pandemia que eu vou dizer que houve uma mudança. A questão é que, no terreno que foi atingido, aqui na nossa casa, da nossa família, hoje não nasce nada. Nada que planta cresce, nem pé de banana que, toda vida, não precisava nem plantar que já nascia. Hoje, planta, ele cresce um pouquinho, mas não chega nem a dar fruto. Então, não é questão nem de pandemia. É questão do pós-lama, o solo ficou infértil. 

Luiz Miguel: Refletindo sobre a pandemia, você acredita que a prática da agrícola pode ajudar de alguma forma a superar o momento?

Joana D’arc: Com certeza, né? Porque tá faltando muitos alimentos, o preço de tudo subiu muito com essa pandemia. Teve uma inflação muito grande. Então, quem puder cultivar em casa, além de ter uma alimentação mais saudável, vai ter uma forma também de economizar. 

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