ATÉ HOJE II: nada foi feito

Por Arlinda da Silva, Arnaldo Mariano Arcanjo, José de Félix, José Vicente Fortunato, Maria Geralda Oliveira da Silva, Odete Cassiano Martins, Vanusa Aparecida Pereira Cerceau e Wigsmar Ederson da Silva

Com o apoio de Joice Valverde, Júlia Militão, Juliana Carvalho e Wigde Arcangelo

Dentro desses cinco anos da tragédia, nada foi feito. A cada dia que passa, o que vejo é tristeza, sofrimento, angústia, doença, problema sério de saúde nas pessoas. Tudo isso está tomando conta das pessoas. Não temos mais liberdade. O meu pai tem 90 anos e chora de saudade de sua casa. Um homem que dedicou uma vida inteira trabalhando para ter tudo e, hoje, não temos nada.

Na nossa comunidade, Paracatu de Baixo, temos nossa igreja onde celebramos  nossas festas e tradições. Menino Jesus, Santo Antônio, Nossa Senhora Aparecida.  Hoje só podemos fazer uma simples  homenagem, não temos mais jeito de celebrar como era. Antes, tinha um grupo de jovens que participavam da igreja e, hoje, não existe mais. 

Maria Geralda Oliveira da Silva, moradora de Paracatu de Baixo

Foto: Wigde Arcangelo

Em primeiro lugar, o que me preocupa muito é a questão da saúde. Não tivemos resposta sobre a contaminação que a lama causa. E a Renova está deixando a desejar sobre a manutenção das estradas, ainda não recuperou os bens coletivos, assim como o campo de futebol, a arena de cavalgada, a cachoeira etc. Perdemos sinal de telefone após o rompimento e ainda nem tem a proposta de instalar torres nas comunidades atingidas, até hoje não fizeram nada em questão da telefonia. E sobre o dossiê, a Renova está tratando os atingidos de forma diferente um do outro, e não está concordando com a Matriz de Danos elaborada pela Cáritas. 

José de Félix, morador de Ponte do Gama

Foto: arquivo pessoal de José de Félix

No início de 2017, caí numa vala aberta pela Samarco, no quintal da minha irmã, do ladinho de minha casa. Tive fratura exposta no braço esquerdo. Como encheu de pó da lama tóxica, tive infecção no osso do braço e também na cirurgia. O que mais me incomoda é a sequela na mão esquerda. O defeito no braço me deixou com limitações. Além disso, a garagem da minha casa corre risco de desabar. Caso isso aconteça conosco em casa, será mais um crime. As criminosas sabem disso e não tomam as devidas providências.

Eu, que era responsável e cuidava do meu pai mais minha mãe, idosos e já com algum problema de saúde, quando me acidentei, o meu filho teve que vir. Ele veio cuidar de mim, do meu pai e da minha mãe. Eram dois doentes, depois eu acidentei, ficou todos os três aqui precisando de cuidados. Aí ele deixou tudo e veio cuidar de mim, do meu pai e da minha mãe, e ficou desempregado esse tempo todo. Aqui, ele tentou um trabalho, mas ele não conseguiu, porque eu faço parte da Comissão dos Atingidos e aí eles não deram emprego a ele. Por mais que ele batalhasse, ele não conseguiu, porque eu sou do movimento dos atingidos. E, nessa brincadeira aí, ele ficou quase dois anos aqui em casa, cuidando da gente, sem ter rendimento nenhum e eu tive que tirar do dinheiro do cartão da Samarco pra ele pagar a pensão dos meninos dele e é isso que deixa a gente bem chateado. Quer dizer, foi dois anos sem INSS, dois anos sem rendimento nenhum. É muito complicado. 

Odete Cassiano Martins, moradora de Barra Longa 

Foto: arquivo pessoal de Odete Cassiano Martins

Está fazendo cinco anos que perdemos tudo, muitos morreram e outros estão doentes. Penso que é até mentira isso o que está acontecendo, porque é muito sofrimento que não terá fim. 

A Fundação Renova deixou alguns atingidos com uma bomba armada nas mãos, que não tem como desarmar, muitos estão em situação de engolir propostas de aceitação sem interesse por goela abaixo. Muitos estão no prejuízo, mesmo comprovando os seus direitos estabelecidos por lei.

A nossa família tinha oito mil metros de terra e mais benfeitorias no Bento. Agora, no reassentamento do Novo Bento, tivemos perda das metragens e não ganhamos a mais, como temos direito. E, se quisermos recuperar o valor, temos que vender essa metragem perdida pra empresa, só que pelo valor que ela mesma dá para a venda imobiliária.

Arnaldo Mariano Arcanjo, morador de Bento Rodrigues

Foto: Wigde Arcangelo

Sinto tristeza e frustração com o tratamento disponibilizado tanto pela Renova quanto por suas contratadas. Não tive nenhum direito reconhecido e não acredito em reparação justa, pois o processo é todo ditado e feito por pessoas que não representam minha família e têm outros interesses. Minha família foi abandonada por cinco anos, tratada como se não existisse. Não sabemos como e nem a quem recorrer. Perdemos nossas raízes e dividiram nossa família. Falam que priorizam os atingidos, mas não nos dão oportunidade de emprego justo, de acordo com minha formação. Estou correndo atrás da sobrevivência, pois, se dependesse da Samarco, a gente tava enterrado e esquecido.

Minha família parece que não existiu em Bento Rodrigues. Em tudo o que precisamos, temos que mendigar nossos direitos e nem todos são atendidos. Ouvi advogada da Renova dizer que minha mãe não era deficiente pelos critérios da Renova. Isso magoa e fere muito. A gente estava construindo uma casa e eles não querem reconhecer minha mãe como proprietária. 

Tem muita gente lucrando com a nossa tragédia e não temos nada. Gasta-se milhões com empresas que dizem estar prestando ajuda, quando, na verdade, estão só se ajudando. Tem hora que, como minha mãe diz, era melhor ter morrido na lama do que ficar vivo aguentando esse tipo de humilhação e ver gente ganhando pra humilhar a gente ainda mais. 

Estou trabalhando fora de Mariana, pois, dentro da cidade, não tem vaga com remuneração justa. Trabalhei em três contratadas da Samarco e Renova, é frustrante ver essas empresas pagando altos salários e regalias para profissionais menos capacitados. Aos atingidos e suas famílias resta a dor da perda e a sensação de que somos roubados a cada dia. São cinco anos de enrolação e prejuízos.

Wigsmar Ederson da Silva, morador de Bento Rodrigues

Uma coisa que tenho grande saudade de Campinas, onde minha casa foi interditada, é que nós somos em 11 irmãos e, todo fim e meio do ano, vinha a maior parte e lá nós nos reuníamos todos, né? E uma das coisas que eu me sinto triste é porque eu cansei de pedir a eles pra arrumar lá o rio, onde nós tomavámos banho. E acho, de que 100% dos meus pedidos, nenhum foi atendido. Então, Campinas, pra mim, hoje, quando eu paro e penso, me dá uma tristeza muito grande, porque é um lugar em que eu nasci e me criei, só vim para cá por uma enfermidade, sabe? Mas, quando melhorei um pouco, eu voltei. Eu plantava na roça, plantava feijão, tinha pomar, tinha criação, tinha casa e cuidava de lá. Essa lama fez com que abandonasse tudo. Lá era um encontro da família. Hoje eu tô aqui em Mariana, mas o negócio da minha família é lá na casa da roça. Toda vida foi. E não adianta, porque a turma não quer reunir aqui em Mariana, a turma quer ir pra roça, né? É onde eles foram criados, é onde eles se sentem bem, onde que eles gostam. Então essa é a minha tristeza. Agora é um ponto que tirou da minha vida. Às vezes, eu até costumo falar que não tem dinheiro que pague, né? Hoje eu me sinto preso aqui. 

José Vicente Fortunato, morador de Campinas

Tirou meu sonho de estudar

Naquele dia cinco, em que a barragem estourou, eu estava realizando um sonho de visitar Ouro Preto. Nasci, vivi, fui criada aqui em Minas, mas eu não conhecia a maravilha que tem em Ouro Preto. Eu, estudando em Águas Claras, fui com a minha turma de sala de aula passear em Ouro Preto. A gente passeou, foi muito bom. Na saída, quando a gente estava vindo embora, foi que a gente recebeu a notícia dizendo que a barragem tinha estourado. Foi muita informação, cada um falava uma coisa.

Eu voltei para roça, no ônibus escolar, vim pra minha residência, cheguei e meu esposo também estava em casa. Fomos resgatar outras pessoas que estavam em área de risco, acabamos ficando também em área de risco. Eu fui levada de helicóptero do mato onde eu estava para o hospital em Mariana. Acabei ficando um ano em Mariana. Os meus amigos, a minha família de Paracatu, cada um foi para um lado. 

Eu não pude retornar realmente para terminar o ano letivo em Águas Claras, acabei concluindo o ano em Mariana, com outra turma completamente diferente. Até hoje, eu sinto saudade dos meus amigos, dos meus professores, com que eu tinha muita intimidade, assim, um carinho muito especial com eles. A gente tinha um sonho de se formar juntos, acabou que esse sonho sendo interrompido e não tive formatura, que era o meu sonho.

Eu pedi a uma senhora que deixasse eu morar na construção da casa dela, pois a Renova pagou aluguel pra nós por um tempo só, depois falaram que a gente tinha que retornar pra casa, porque, na minha casa, não tinha ido lama. Mas, se eu fosse, não podia continuar meus estudos. Nesse tempo, eu falei: “não, eu não posso ter meus estudos interrompidos, a única chance que eu tenho é agora”. Acabei completando o restante do tempo que faltava para eu me formar lá em Mariana. A Renova não me ajudou em nada. Eu tenho muito problema com minha família por isso, por eu ter uma idade, assim, avançada, aí por volta dos 40 anos. Para eles, eu era velha, muitas pessoas falaram: “pra que estudar mais? Está na hora de morrer”.

Mas eu estava estudando, não era pra eu ir para uma faculdade, ou ter um um cargo alto, é simplesmente pra eu pegar uma bula de um remédio e saber ler. A Renova roubou o meu sonho. Eu choro todas as vezes quando eu lembro, porque a minha vontade sempre foi ser veterinária. Eles arrancaram muitos sonhos meus. 

Arlinda (sentada), ao lado de Cleonice Gonçalves e Edilene Vitória de Souza, participando de um protesto em Pedras. | Foto: Joice Valverde

Eu não tenho nada de bom pra dizer que consegui por meio dessa barragem que estourou. Eu não perdi ninguém da minha família, mas só da gente saber que faleceram tantas pessoas com essa barragem, que muita gente perdeu casa, que muita gente perdeu criação… Eu mesma perdi criação, minha casa ficou toda destruída. Nesse tempo em que eu fiquei fora, muitas rachaduras na parede, manchas, o forro da minha casa caiu e, até hoje, eu não pude arrumar. Minhas plantas acabaram praticamente quase tudo, os fregueses que compravam na minha mão não existem mais. Eu tinha minhas criações de estimação, morreram. A Renova falava que ia cuidar, mas não cuidou direito, morreu. Fiquei muito doente, estou doente, meu esposo já não tem mais saúde.

Vou te falar, dá vontade de virar às avessas só pra ver se a dor passa, mas não passa, não. Está doendo muito, muito. Porque você relembrar o que passou, o que tá acontecendo até hoje, tá doendo muito. O meu lugar não é mais o que era antes. A gente não tem mais transporte, a gente não tem uma estrada que presta, eu não tenho uma casa mais que presta, eu não tenho trabalho, meu marido está desempregado, tá sendo muito ruim.

É muita coisa, nossa, dá pra gente escrever um livro de umas 200 páginas e ainda não cabe tudo. A gente olha pro rio, todo sujo, ele tá morto. Era o lugar que a gente pescava, andava, olhava a água transparente, via animais, atravessava e ia para a casa de um outro parente. Hoje você não pode mais ter contato nem com a água. Ela está suja, triste, escura, tem tudo de ruim. Eu tenho saudade até de uma árvore que tinha na beira do rio, que eu sabia que ela tava lá, hoje já nem existe mais. Eu ia trabalhar, eu passava perto do rio, eu via animais comendo fruta. Aquilo era uma felicidade. Não ver isso hoje é muito triste.

Arlinda da Silva, moradora de Pedras

As comunidades rurais atingidas lutam constantemente contra o apagamento de seus problemas promovido pela Renova. Pautas básicas, como obras em áreas de lazer ou limpezas das estradas, são ignoradas, enquanto grandes obras são realizadas no centro de Mariana.

Na época do rompimento, eu era diretora de uma escola, em Campinas. Devido ao rompimento da barragem, os alunos ficaram muito prejudicados, porque perdemos o acesso e tínhamos que fechar um ano letivo, porque Paracatu foi isento de cumprir por questões da barragem, mas Campinas não, tinha que cumprir. Eu fui, então, de casa em casa, em Campinas, Pedras, Borba, Barreto – a comunidade do Barreto pertence à Barra Longa, mas os alunos são assistidos na escola de Campinas. Fui de casa em casa, pois os pais falaram o seguinte: “Vanuza, eu deixo sair de casa se for com você”. Então, eu passei a buscá-los com uma van, de casa em casa. E a formatura, que sempre ocorre, não aconteceu aquele ano. Nós transferimos pra março, no início de 2016, e quando solicitei uma ajuda da Renova, o que eu tive de resposta foi que a minha escola não tinha sido diretamente atingida. Então, eu não tinha direito a nada.

Aí uma outra coisa. Houve esse transtorno, nessas idas e vindas, porque, uns 15 dias após eu estar buscando essas crianças, eu tive uma infecção renal devido ao que eu estava passando. E eles não levaram isso a sério também, porque, naquele corre corre, eu fui ao médico, ele me deu atestado, me deu remédio, mas eu não entrei com atestado, continuei realmente trabalhando, porque os meninos dependiam de mim. 

Porque, pra vocês terem ideia, o que foi feito em Pedras, no Borba, em Campinas, com relação ao lazer das crianças, né? Então, assim, qual o lazer que, até hoje, cinco anos após o rompimento, a Renova fez pra Pedras? O campo tá lá destruído, não foi feito o outro, né? O que foi feito no Borba pela Renova em relação a lazer? Nada. Em Campinas, nada, né? Então, assim, deixaram mesmo abandonados. Então, eles focam aqui em Mariana, né? Igual investem lá no jardim, investem em Natal de Luzes, igual foi ano passado. Eu acho uma injustiça com as pequenas comunidades. Então, eu vejo um descaso, um descaso.

Vanusa Aparecida Pereira Cerceau, moradora de Borba

Foto: arquivo pessoal de Vanusa Aparecida Pereira Cerceau

Continue a leitura: ATÉ HOJE III: presos(as) dentro de casa

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