“Era na água santa”

Por Andreia Sales, Marinalda Muniz e Genival Pascoal

Com o apoio de Miriã Bonifácio

Bem na beira da estrada e subindo um pouco, no meio da mata, havia duas lagoas. Uma menor, que a gente chamava de “poço”, e a outra, “lagoa santa”, que era formada pelas águas que vinham das nascentes. A gente chamava de lagoa santa por causa do que contam, que lá existia uma igreja que afundou. No meio dessa água, tinha umas plantas verdes, que boiavam, e, às vezes, escutávamos um barulho, do tipo quando você joga a pedra na água e ela desce para o fundo. Fascinante! Tinha gente que dizia que era mal assombrada. Nessas lendas da água santa, até contavam que ela fervia. Sabe quando a água ferve e dá bolhas? Quanto à questão da igreja, ninguém sabe se é verdade. Seu Filomeno e alguns amigos, quando estavam ajudando no trabalho do diagnóstico sobre o patrimônio das comunidades atingidas, disseram que nem os pais dele sabiam se isso de ter uma igreja ali era certeza mesmo. Mas, depois, nesse mesmo relatório, conseguiram descobrir que, pelo levantamento, estava faltando uma capela. Usávamos o poço para nadar, e as pessoas que moravam no cascalho (à beira rio)  também iam lavar roupa. Aos domingos, quando tinha futebol, o pessoal até ia beber daquela água. Se ela era santa, no sentido milagroso do termo, eu acho que era. Ela reunia as pessoas do Bento. De alguma forma, a água pura juntava a gente. Quem era de cima, quem era de baixo. E também tinha música lá, dos sons de carros, dos cantores e cantoras de beira de lagoa. Era um ritmo, da água, do som, era o nosso ritmo. Então é isso, a água santa é apenas um dos tantos lugares importantes, e com muita história para nós, que não vão poder ser reconstruídos por ninguém. Este texto é para deixar registrado que, em Bento Rodrigues, existiu um lugar chamado água santa, e que ele era útil para gente. Ao redor daquele mato que crescia alto nas pontas da lagoa, o nosso povo também crescia. Isso, nós nunca vamos esquecer.

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