Juntos pelo Rio Doce

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Wandeir Campos

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Silmara Filgueiras

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Juntos pelo Rio Doce
Daniels Ebner

Juntos pelo Rio Doce
Daniels Ebner

Por Flávia Ramos, Hauley Valim, Hudson Coutinho (Aba’tã), Narcelina Carlos e Rômulo de Barcelos.
Com o apoio de Daniela Ebner, Juçara Brittes, Silmara Filgueiras, Thamira Bastos e Wandeir Campos

O Jornal A SIRENE participou, nos dias 15 a 18 de novembro, do III Encontro Ancestral do Rio Doce. O evento aconteceu em Areal-ES e reuniu representantes de povos quilombolas, indígenas, pescadores e moradores dos manguezais, além de diversos coletivos parceiros, como a Aliança Rio Doce e a Rede Regenera Rio Doce. Durante o encontro, conversamos com os participantes sobre as consequências do crime para o Rio Doce e as possibilidades de resistência diante da perda dos modos de vida que eram sustentados pelas águas.

Encontro de culturas

A nossa aldeia teve uma perda grande da cultura. A gente, do grupo de guerreiros, tenta resgatá-la com a dança, e os meus antigos professores tentam resgatar a língua tradicional guarani. Eu acho que o encontro é importante pela troca de experiências. Há uma diversidade cultural aqui [em Areal], porque são povos de diferentes lugares, né? Esse encontro pode auxiliar as pessoas a serem mais tolerantes, porque, a partir do momento em que você conhece uma coisa, você tem uma visão acerca daquela coisa. Por exemplo, você não pode comentar sobre uma coisa que você não conhece. Depois que conhece, isso é um benefício, ao meu ver. É por isso que eu sempre estou à disposição. Se o cacique me chamar, eu vou levar a cultura da nossa aldeia aonde for.

Hudson Coutinho (Aba’tã) – Aldeia de Comboios-ES

O encontro proporciona mais visibilidade da comunidade, da nossa luta, da nossa causa, que é a busca do registro territorial. A gente sonha em voltar para o território ocupado pelos nossos antepassados e, hoje, a gente está lutando cada vez mais para isso virar uma realidade, como era antigamente. Além disso, o encontro aqui é essencial para ter um resgate cultural que foi perdido durante esses três anos. São várias culturas e etnias que permanecem aqui. Com ele, há o resgate espiritual, da medicina tradicional e das comidas que eram naturalmente consumidas pelas pessoas daqui. É muito bacana isso. A gente se mobiliza mesmo para poder fazer acontecer e a comunidade toda abraça. São várias casas recebendo as pessoas, acampando, e as pessoas da comunidade ficam muito felizes acolhendo.

Rômulo de Barcelos, diretor da Escola de Areal-ES

Perda do rio

Eu estava na beira do Rio Doce quando o rejeito da barragem de minério chegou. Chorei lá, por ver ele morto. Eu fico sentida até hoje. Dói no coração. Eu criei meus filhos pescando na beira do rio. Não tenho carteira de pesca, mas eu pescava por aqui, botava a rede, pescava aqueles peixes bons. Pegava bagre de anzol. Vinha uns três ou quatro de uma vez só. Nunca mais eu comi um peixe maravilhoso do Rio Doce. Agora não tem mais lugar para pescar. Não recebi meu cartão, nem indenização. Já falei com a Renova para me reconhecer e eles falam que está em análise. Ligo direto para lá e eles dizem que o cartão vai vir, mas, até hoje, nada. O que é isso que esse cartão nunca chega?

Narcelina Carlos, moradora de Areal-E

Das nossas águas para nossas vidas

A água é a minha guia. Sinto que o meu aprendizado é o próprio rio que traz. Cada gotinha que cai lá em cima, vai chegar e virar mar. E cada um de nós pode ir se somando a outras gotinhas e formando um rio caudaloso, que logo encontra o mar e nos recebe. A gente vai se somando e fluindo junto. A água tem uma força de limpeza, de fluidez, da gente se deixar ser guiado pelo rio. Logo antes do encontro, nós tivemos 10 dias de muita chuva e foi um preparo para conseguirmos ter um solo fértil e florescer. Cozinhamos no Encontro Ancestral com água da chuva, porque conseguimos mobilizar a instalação de algumas cisternas de captação de chuva em Areal no ano passado. Isso é fruto de um protótipo de regeneração. O que a gente pode fazer é isso: promover exemplos de regeneração que trazem prosperidade, segurança alimentar e saúde para a comunidade. Graças a isso, cozinhamos para umas 300 pessoas que vieram ao Encontro.

Flávia Ramos, Coletivo Aliança Rio Doce e Movimento Regenera Rio Doce

O chumbo não tem culpa, o manganês não tem culpa, o cromo não tem culpa, o arsênio não tem culpa. Todos eles estavam estabilizados dentro da montanha. E aí, o ser humano, com essa relação de violência com a natureza, desestabilizou os minerais que chegaram aqui através da água. A contaminação dessas águas externas, que estão fora de nós, nos rios, é reflexo da contaminação das nossas águas internas. Essa condição de intoxicação, a partir dos agrotóxicos, da contaminação das águas, dos alimentos, nos deixa numa situação de fragilidade e de insensibilidade que faz com que nós não sintamos pesar em agredir a mãe natureza, a Mãe Terra. Então, esses encontros permitem promover os cuidados das nossas águas internas, para que nós olhemos para aquilo que está dentro de nós, para toda aquela tristeza, angústia da vida cotidiana, inclusive do rompimento da barragem, para que nós tenhamos condições de nos cuidar, nos regenerar e de nos fortalecer como indivíduos.

Hauley Valim, morador de Regência

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