Tradição em risco

Por Anna Benedita Coelho, Antônio Maria Claret do Prado, José Lazarini Filho e José Márcio Lazarini
Com o apoio de Francielle de Souza e Rafael Francisco

Fotos: Larissa Pinto e Francielle de Souza

Muitos(as) moradores(as) de Rio Doce aprenderam a garimpar e a pescar ainda jovens. Era ali, na beira do rio, que os(as) garimpeiros(as) e pescadores(as) mais velhos(as) ensinavam o ofício e perpetuavam o seu legado. Hoje, o costume que era naturalmente passado de geração a geração corre o perigo de ser extinto, já que a contaminação das águas fez com que os(as) atingidos(as) buscassem outras alternativas de trabalho e abandonassem as idas ao rio.

Eu pesco desde os 12 anos. Aprendi com meus pais. Antes, a pesca servia para complementar a minha renda. Eu trabalhava, chegava em casa lá pelas duas, três horas da tarde e ia para o rio. Quando faltava um açúcar, um óleo, um arroz, eu pegava um pouco [dos peixes] pra comer e vendia o resto. Agora não pode mais, porque as águas estão sujas e os peixes estão contaminados. Ainda pesco em outros lugares, mas só para comer. Não dá para vender mais.

Anna Benedita Coelho, pescadora de Rio Doce

Comecei com 17 anos, por curiosidade, em um tempo em que o ouro tinha valor. Em um dia de garimpo, você tirava quase um mês de serviço. Depois do rompimento da barragem, fui fazer curso para trabalhar de segurança. Trabalhei um ano e meio, mais ou menos, e me dispensaram. Agora faço umas hortas aí pra ver o que dá, né? Não pode parar. Mas nunca mais voltei na beira do rio. Vou fazer o quê lá?

Antônio Claret, garimpeiro e pescador de Rio Doce

Toda vida morei em beira-rio. Antes, morava em um município na divisa de Barra Longa com Ponte Nova. E aí tinha uns colegas que moravam lá na roça e já tiravam ouro. Eles ficavam mostrando pra gente. Eu era menino. Depois que vim pra Rio Doce, eu ia para o rio em todas as minhas férias pra tirar ouro. A gente ganhava pouco: um salário mínimo pra tratar de três, quatro meninos não dá não. Então, tem que pular no rio mesmo. Eram 30 dias dentro d’água. Aos poucos, fui ensinando meus filhos a trabalharem com isso também, porque serviço era difícil aqui, né?!

José Lazarini Filho, garimpeiro e pescador de Rio Doce

Como os netos vão garimpar se não aprenderam? Enquanto a própria natureza não limpar o rio, não tem jeito de ensinar. E só olhando não aprende, tem que ensinar mesmo. Eu, quando aprendi, nem sabia o que era ouro. Era pequeno, saí com meu pai e Zé de Cocota pra garimpar. Ficamos 30 dias no rio e eu vi como é que era. Foi aí que eu aprendi.

José Márcio Lazarini, garimpeiro de Rio Doce

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