Ficam as memórias

Entre as muitas mudanças na vida e no cotidiano dos(as) atingidos(as), algumas certamente são difíceis de entender e não podem ser reparadas, principalmente quando se fala sobre perdas e adoecimento nas famílias. Além de guardar, com carinho, a lembrança dessas pessoas, também é necessário fazer das memórias uma motivação para continuar firme na luta pela reparação.

Por Aloísio Martins, Antônio Eloi (Antônio Sininha) e Eva Cristina da Silva (Tina)
Com o apoio da Equipe Conviver, Larissa Pinto, Simone Silva e Tainara Torres
Fotos Tainara Torres e Larissa Pinto

Perdi meu irmão há três meses. Faz um mês que minha mãe faleceu e tudo graças ao rompimento. Eu acho que todo mundo tem o seu determinado tempo pra viver na Terra, mas o deles foi apressado. Se eles tivessem a vida que eles tinham lá em Gesteira, se não tivessem passado por isso… Minha mãe era muito forte, mas ela não suportou a tristeza, a morte do meu irmão.
Eva Cristina da Silva (Tina), atingida de Barra Longa

Por meio da fotografia Tina mantém viva a memória de sua mãe. 

Minha mãe, Iracema, faleceu no dia 24 de dezembro de 2017. Depois, faleceu meu cunhado, Levi, e agora, dia 13 de março, meu tio Mauro. Deu uma depressão tão grande em Mauro… Ele era o caçula da família e nunca tinha saído daqui do Morro Vermelho. Foi morar lá na saída da cidade e não gostava. Aqui não, ele caminhava sempre, ficava no quintal, mas, depois disso, só foi caindo e depois faleceu. Eu tô batalhando pra não ter depressão, porque é muito problema que veio.
Aloísio Martins, atingido de Barra Longa

Aloísio também perdeu a sobrinha de 14 anos, além da mãe, do cunhado e do tio  após o rompimento.

Todo mundo chamava minha mãe de Sininha, eu sou conhecido aqui como Antônio Sininha, o nome dela era Alcina. Ela vinha aqui direto antes da lama, depois não pôde vir mais. Antes, eu tinha uma casa boa, mais confortável, com tudo direitinho, banheiro bom, e uma senhora idosa precisa disso. Minha mãe morreu no dia 2 de outubro de 2018, ela tinha 88 anos, já estava bem idosa. Deixou saudade demais, foram muitos anos em que convivi com ela, não é fácil. Eu não sabia que fazia tanta falta assim, parece que tô em débito com ela, que devia ter abraçado muito mais, ter beijado muito mais, sabe como é?
Antônio Eloi (Antônio Sininha), atingido de Paracatu de Baixo
Eu tinha a minha vida em Gesteira, larguei pra viver aqui, com minha mãe. Graças a Deus, não reclamo de ter cuidado dela e do meu irmão, mas, para a empresa, tanto faz. A gente passa por tudo isso e a Renova diz que você não tem direito a nada, que você não é atingido. Fomos atingidos em tudo. Tem que ter muita fé em Deus porque, se for olhar a cabeça, o sentimento da gente, a gente faz besteira. A pessoa vem e te humilha, te maltrata e você tem que provar que você não é nada daquilo. Hoje somos humilhados, mas amanhã seremos exaltados. Só queremos lutar pelo direito da gente, ter um pouco da nossa vida de volta.
Eva Cristina da Silva (Tina), atingida de Barra Longa
A gente tem que ocupar a mente com alguma coisa. Eu só tenho foto dela agora, velhinha, mas tinha uma foto dela e do meu pai quando eles casaram. Essa foto tá lá, enterrada debaixo da lama. Hoje não tenho mais nada. Eu nem vou em reunião mais. Estou muito desanimado de sair daqui… Às vezes, eu vou pra Mariana porque sou obrigado, mas já fico doido pra voltar pra cá.
Antônio Eloi (Antônio Sininha), atingido de Paracatu de Baixo

Uma das lembranças de Antônio era a de pescar com sua mãe quado criança. 

Nosso problema são eles, a Renova, a Samarco. Faz três anos que estão reformando nossa casa, não falam o que estão fazendo, e ainda proibiram minha entrada. Minha mãe não sabia que ia demorar, ela queria vir embora pra casa dela, mas não tinha condição porque a Renova está reformando. Ela foi morar com minha irmã, no Morro do Cemitério, mas não gostava de lá. Minha irmã vivia sempre correndo atrás dela porque, qualquer chance que dava, ela fugia, queria vir embora pra cá. Eu tenho orgulho de lutar por essa casa porque ela gostava daqui.
Aloísio Martins, atingido de Barra Longa

Depois de tudo, precisamos nos cuidar

A memória do rompimento segue viva como uma ferida aberta, assim como os danos na vida e na saúde da população atingida, que continua sendo afetada em toda região da bacia do Rio Doce. Os costumes foram alterados, o trabalho suspenso, a convivência em comunidade perdida. Surge o desconhecido, o medo, o preconceito e o processo se torna cada dia mais doloroso. Não é possível eliminar o sofrimento psíquico diante de tanta insegurança.
Diante disso, em janeiro deste ano, os(as) atingidos(as) pelo crime da Samarco escreveram uma carta em solidariedade à comunidade de Brumadinho e região, atingida pelo crime da mineradora Vale, e nela escreveram:
“No limite, a dor é individual, de cada um, indizível, incompartilhável. O sofrimento muda, mas não passa.”
A diminuição do sofrimento pode ser alcançada por meio do suporte de profissionais da saúde mental, que auxiliam no cuidado e no acolhimento da população. Porém, também é importante que o processo de reparação não se prolongue ainda mais. Para isso, são necessárias ações concretas por parte das empresas.
Os(As) atingidos(as) de Mariana podem procurar apoio psíquico social no projeto Conviver, no endereço: Rua Wenceslau Braz, nº. 451, Centro. A comunidade de Barra Longa pode buscar apoio na Policlínica da cidade, situada na Rua Pedro José Pimenta, nº. 69; ou no CRAS, na Rua Getúlio Etrusco, nº. 50.
Em memória de todos(as) os(as) atingidos(as) que não puderam presenciar, em vida, a reparação pelos danos causados.

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