Encontro Ancestral: resistência, cultura e regeneração do rio Doce

Nos dias 1º, 2 e 3 de novembro, aconteceu o Quarto Encontro de Cultura Ancestral de Areal, comunidade indígena Tupiniquim em Linhares, no Espírito Santo. O evento reuniu povos dos manguezais, comunidades quilombolas, indígenas, pescadores(as), ribeirinhos(as) e representante de comunidades tradicionais do alto rio Doce e atingidos(as) ao longo do rio Doce. Por meio do afeto e da cultura, a partir de oficinas, rodas de conversa e celebrações, os(as) atingidos(as) se articularam em prol da regeneração das vidas atingidas pelo crime. Nos três dias, houve intercâmbio cultural e trocas de saberes. O encontro também foi de união de forças e de luta, em que os(as) atingidos(as) levaram suas pautas.

Por Adecir de Sena, Antônio Matias Celestino (Mestre Boi), Creuza da Silva, José Carlos dos Santos (Coruja), Leonardo Osorio dos Santos, Mainon Cunha da Silva (Ewera), Mônica Dantas dos Santos, Rômulo de Barcelos Rosa e Wiler Araújo Barbosa

Com o apoio de Júlia Militão, Sérgio Papagaio e Wigde Arcangelo

A gente gosta muito que aconteça esse evento todo ano, porque ajuda a ter visibilidade, principalmente para nós, que estamos em processo de reconhecimento indígena, isso fortalece mais ainda. Ajuda, também, a ter ideias para termos uma boa regeneração dos nossos rios e lagos. Nós, que moramos na foz, tivemos nossa biodiversidade muito atingida, então, esse evento ajuda a fazer essa ligação. 

Rômulo de Barcelos Rosa, morador de Areal-ES

Na minha concepção, cada pessoa que está aqui vem trazendo uma experiência diferente do seu lugar. Eu entendo que cada um, em seu determinado espaço, lida com esse problema da regeneração do rio Doce de uma forma diferente. E, quando a gente faz um encontro que vai agregar diversas comunidades, eu acho que são vários pontos de vista e várias metodologias de conseguir trabalhar com essa regeneração do rio Doce.

Mainon Cunha da Silva (Ewera), morador da aldeia Nova Esperança, Aracruz-ES

 

A gente quer dar força a essa tão bonita festa que quer resgatar o rio Doce, para trazer a natureza principal dele, e não essa destruição que aconteceu e permanece… As autoridades permanecem de braços cruzados e olhos fechados, e muita gente não está preocupada com isso. 

José Carlos dos Santos (Coruja), morador de Serra-ES

Depois do crime da Samarco/Vale/BHP, acabou com o Rio Doce, com tudo. Então, esperamos eles tomarem atitude e agirem por nós. Eles estão de olhos fechados para nos ajudar. Esperamos que a empresa arque também com todo o prejuízo porque nós, pescadores, catadores, povos tradicionais, estamos passando uma situação muito precária, muito difícil, porque eles acabaram com nosso caranguejo, com tudo. Esperamos que a empresa tome atitude, porque nós não estamos sendo reconhecidos. Nós, mulheres dos povos tradicionais, queremos ser reconhecidas e a empresa não quer pagar a nós, mulheres pescadoras, principalmente as que não têm o RGP ou o protocolo de 2015 para cá. E quem não tem, eles não querem pagar. Eles têm que pagar, porque todos os pescadores e catadores estão passando uma situação muito difícil, muito precária. As mulheres não estão tendo o mesmo reconhecimento que os homens, eles não estão reconhecendo os direitos das mulheres. Queremos ser reconhecidas.

Creuza da Silva, Campo Grande, São Mateus-ES

Para mim e para as comunidades que vivem da bacia do rio Doce, principalmente eu, que represento os povos tradicionais dos manguezais, esse encontro – que é uma força que a gente busca da natureza, é uma vida que sai da água e ela vem para prática aqui com a vida humana, para nos ensinar a cuidar, a zelar – é o que o capitalismo não faz. Nós tentamos mostrar para eles que, sem o meio ambiente e sem essa riqueza que Deus nos oferece, nós não conseguimos viver.

Adecir de Sena, morador de São Mateus-ES

 

A gente percebeu, aqui, que há essa questão de trazer a consciência de cada um, esse respeito com a natureza, com toda a energia que nos cerca. Vimos, aqui, uma mobilização de vários grupos de diversas regiões. 

Mônica Dantas dos Santos, moradora de Vila Velha-ES

 

Essa consciência tem que ser dada quanto ao meio ambiente, ao fortalecimento da margem do rio, ao plantio das árvores, para poder ter uma qualidade de água maior. 

Leonardo Osorio dos Santos, Mestre Naé, Vila Velha-ES

Esse encontro é uma maravilha, pessoas estão querendo entender a regeneração do rio, cada nascente que joga água para o rio Doce precisa ser realimentada e, aqui, se compreende que a tarefa é fazer com que a água das nascentes corra novamente na foz do rio Doce, na entrada aqui no mar. Então, eu vejo que esse encontro é um realimento para que as pessoas cuidem uma das outras, porque, se a gente for olhar a gravidade, o absurdo, o ridículo da ignorância que foi essa lama horrenda correndo na veia principal do rio, a gente vê que é um motivo de adoecimento, de degeneração.  Aqui no encontro, é um tratamento, uma regeneração, aqui é o entendimento, a experiência e o sentimento de que nós vamos avançar, independentemente do tempo. Aqui, nós estamos criando uma nova sociedade, um novo mundo, um rio limpo.

Wiler Araújo Barbosa, professor da Universidade Federal de Viçosa

Nós que somos pequenos, agora, precisamos nos unir. Nós temos que fazer o trabalho de formiga, que é pequena, mas se, juntas, subirem no pé do elefante, ele vai se incomodar. Assim somos nós, devemos nos unir. Tem uma cartilha por aí, que eu não li, porque sou analfabeto, mas nela está escrito: “ninguém solta a mão de ninguém”. Nesse 2019, com esse governo que está aí, nós devemos prestar muita atenção. Nesse encontro, que fala das barragens, aprendi muita coisa. Nós precisamos ir à luta. Se nós não unirmos, já somos pequenos, vamos nos tornar piores. Se nós unirmos, ficamos grande, ninguém deve soltar as mãos.

Antônio Matias Celestino (Mestre Boi), morador da Comunidade Quilombola Córrego do Meio, Paula Cândido-MG

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