As partilhas no Bento

O desejo de uma vida mais simples leva algumas pessoas a procurarem o interior. Fugir dos pequenos estresses cotidianos de uma cidade grande, dos trânsitos, da rotina corrida, da falta de tempo para partilhar a vida com a comunidade e os amigos são alguns dos motivos. Cleinice Rezende de Sá, que passou a vida toda em Belo Horizonte, sempre sonhou em morar no interior. Em 2012, conseguiu realizar esse grande desejo, mas foi só em 2014, ao se mudar para Bento Rodrigues, que experimentou uma curta, porém enriquecedora, etapa de sua vida. As lembranças e a saudade de Bento são grandes e o maior aprendizado que Cleinice carrega, em todos esses meses como integrante de uma grande família, é a fé e o cuidado que os moradores da comunidade têm com o outro.

Por Cleinice Rezende de Sá

Com o apoio de Júlia Militão

Foto: arquivo pessoal de Cleinice Rezende de Sá

Sempre sonhei em morar no interior e, em 2012, resolvi realizar esse sonho. Inicialmente, fui para Catas Altas, que eu já conhecia e onde já tinha algumas boas amizades. No início de 2014, conheci uma pessoa que residia em Bento Rodrigues e, com alguns poucos encontros, decidimos viver juntos. Foi então que conheci o lugar que seria inesquecível para mim, sob vários pontos de vista.

Não fui morar apenas em um distrito de uma cidade histórica, entrei no seio de uma grande e amorosa família. Todos eram irmãos, primos, filhos, pais, mães, tios, avós. Todos interagiam como uma família unida, encontros constantes, celebrados com alegria e amor. Problemas, como toda boa família, que rendiam alguns questionamentos por poucos dias, até que se reencontrassem num casamento, batizado, funeral, aniversário ou em qualquer outro evento que justificasse as reuniões da comunidade/família, em que todas as diferenças eram esquecidas e a alegria ou a dor novamente os unia. E, sem muita cerimônia, fui recebida assim, de braços abertos e sorrisos largos, como membra da família/comunidade. 

Os dias em Bento

Diferentemente de tudo o que eu tinha vivido até então, viver em Bento foi um retorno à infância que morava saudosa em minhas memórias. De repente, me vi num improvisado túnel do tempo, transportada para um tempo em que os vizinhos se conheciam, onde você pede emprestado uma xícara de chá de trigo para inteirar a receita do bolo, mas, na verdade, era mesmo para puxar “um dedin de prosa” com a vizinha e saber se estava tudo bem com as crianças, se a tosse do marido tinha amenizado com o xarope caseiro que Dona Maria fez pra ele. A xícara de trigo mesmo, se não tivesse em casa, podia buscar na venda do Barbosa, com ou sem dinheiro, ou na mercearia dos Sobreira. A gente pagava depois. 

As crianças brincavam nas ruas sem muitos cuidados, as mães não tinham motivos pra se preocupar. Não carecia ser a mãe de alguém pra chamar a atenção, caso tivesse se excedendo, ou pra prestar um socorro no caso de um se machucar. Sempre era da família mesmo. Os nascimentos eram celebrados com tanta alegria que a criança já vinha ao mundo se sentindo bem-vinda. As perdas eram sentidas profundamente. As emoções eram sempre intensas e comunitárias. Ninguém ficava feliz sozinho, ninguém chorava sozinho. Tudo era partilhado. E, nessas partilhas, fui conhecendo todos, me encantando com cada história de vida de cada um, com a fé em Deus, com a gratidão pelas coisas mais simples. Convivi com tanta riqueza de sentimentos que, para mim, tinha mais valor do que qualquer minério de ferro que pudesse gerar fortunas às mineradoras. Ouvia sons de pássaros desconhecidos, os via nos galhos das árvores no quintal. Conheci o sabor de frutas, verduras, legumes, tubérculos cultivados sem agrotóxico. Comi carne de frango sem gosto de hormônio. A pureza dos sabores, o sabor da água que a gente buscava nas minas.

Sinto falta de tudo. Sinto falta da vida que havia ali. Era bucólico, lúdico, sem pressa. O tempo passava mais devagar. Havia tempo para preparar um café da manhã farto, sentar à mesa pra tomá-lo enquanto programava os afazeres da casa; a visita à Maria que tinha dado à luz ao terceiro filho, o André Lucas, que era uma gracinha de neném; ou acompanhar o Sr. Elias na consulta em Mariana; no caminho, parava pra ver a mãe da Rosa, que tava sempre sentadinha no alpendre. Tinha tempo pra uma prosa com a dona Teresinha e o Sô Deco, eu gostava de ir à tarde, na hora da sopa de macarrão. O tempo se estendia, era maior. Aqui não acho tempo pra nada, a gente nem vive. É uma correria só, um trânsito infernal. Mal você acorda e se mete a sair pra trabalhar ou pra uma visita a algum parente, e lá se foi o dia. 

Em Bento Rodrigues, o relógio era generoso. Corria mais devagar. A casa da Fatinha tava sempre limpa e arrumada, as roupas do varal exalavam o cheiro de roupa bem enxaguada, sem pressa, macia. E ela sempre tinha um tempo pra uma prosa boa ou pra ajudar a gente em alguma tarefa da casa. Tinha a Mina (Dona Hermínia), mulher de fibra, que, apesar da idade e das dores de coluna que a levavam de vez em quando à minha casa pra aplicar uma injeção intramuscular para que ela pudesse continuar trabalhando na limpeza da cidade, trazia, no rosto cansado, uma beleza que insistia em permanecer, resquícios de uma juventude que deve ter arrebatado corações. O bar do Seu Juca, onde os amigos se encontravam à tardinha pra “tomar uma”, enquanto jogavam conversa fora e estreitavam a amizade comendo “dobradinha à milanesa”. Tinha a casa do Senhor Antonio, essa família é festeira. Povo animado. Dona Maria tem gosto de receber uma visita. Aquela varanda cercada de bambu e pneus, colorida de flores, vibrava de alegria. Paula “da motinha”, como ficou conhecida nacionalmente depois do rompimento da barragem. Pensa numa energia sem fim: é ela. Um sorriso que conquista o coração da gente em segundos. Ser prestativo ali é genético. Cláudia, a menina do posto de saúde (tava mais pra assistente social)… Não tem nada na área da saúde que ela não se desdobre pra resolver. E ainda consegue cuidar das programações da igreja. Esse é um capítulo à parte. Talvez a melhor parte.

A fé e as celebrações religiosas na comunidade

Tantas coisas me marcaram ali… Mas creio que o fator determinante é, sem dúvida, a FÉ. Durante o período de convivência em Bento Rodrigues e, ainda hoje, graças a Deus, desfrutando das amizades feitas ali, posso constatar a fé em sua expressão mais pura. Não religiosidade, que nos leva a frequentar uma igreja nos dias marcados ou comemorar algum evento religioso, como cumprimento de um dever com a sociedade, mas a fé que é demonstrada no zelo por tudo o que diz respeito à igreja e ao exercício da gratidão a Deus como autor da vida, doador do tempo e submissão à Sua soberana vontade. A fé atuante, que não manda embora quem tem fome, mas lhe dá de comer. A fé que desconhece cansaço. Quando mencionei Cláudia, a nossa agente de saúde, é porque ela representa bem esse compromisso com a fé atuante. Quanto amor eu via nesse trabalho dedicado às atividades da igreja local. Não só ela, mas todos da comunidade. Catequistas, Lelena, tão dedicada no ensino às crianças, as preparando para o caminhar com Deus e com a igreja. O coral da igreja, Deco e Zezinho no violão, dona Irene animada no compasso do pandeiro, as vozes harmoniosas entoando os cânticos espirituais, as procissões, as festas e missas em comunidades vizinhas. Sr. Filomeno, patriarca cuidador da igreja, incansável no trabalho. 

Essa fé me inspirou a ser mais cristã. Foi nessa comunidade que aprendi o exercício da fé. Essa fé atuante fez toda diferença no dia do crime. Não foi “cada um por si”, nunca foi. Todos se ajudaram, foram avisados pela Paula, que saiu do serviço quando viu a lama descendo em direção à comunidade e, na sua moto, passou pelas ruas gritando pra que se salvassem. Foi o marido da diretora da escola que a alertou a tempo de evacuar a escola antes que a lama atingisse as dependências. Ninguém correu sozinho, todos se preocuparam em amparar um idoso ou carregar uma criança. A fé atuante, que se mostra no amor ao próximo, salvou quase todos os moradores de Bento Rodrigues. A fé que os mantém unidos e esperançosos quanto ao futuro. Que instrução, que exemplo recebi ali. Isso é minha lembrança mais forte e determinante.

Eu sou cristã, nascida e criada na Igreja Presbiteriana. Durante o tempo em que residi em Bento Rodrigues, bem como após o crime, como parte da comunidade, sempre frequentei e participei das festas, eventos e programações regulares da Igreja Católica. Nunca tive dificuldade em conviver com meus irmãos católicos, mas, em Bento Rodrigues, fiz parte dessa família que me acolheu como membra. 

Sempre participei, de forma bastante regular, de tudo o que representava a comunidade de Bento Rodrigues, a comunidade que me recebeu, acolheu e até hoje, embora tenha regressado a Belo Horizonte, minha terra natal, me considera, como eu a eles, parte da família, irmanados e unidos no amor de Cristo.

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