Como vivem as garimpeiras atingidas pela lama no Rio Doce

Por Djanira Rocha, Teresinha Severina e Maria Helena

Com o apoio e fotos de Daniela Felix

Para as moradoras de Rio Doce e de Nova Soberbo, distrito de Santa Cruz do Escalvado, o garimpo era fonte de renda, espaço de convivência e troca de saberes. Por causa da contaminação do rio após o rompimento de Fundão, elas tiveram que parar de exercer a atividade. Desde 2015, lutam pelo reconhecimento como atingidas e pela garantia de seus direitos.

Mudei para a cidade de Rio Doce com 10 anos. Nunca quis sair daqui porque era um lugar tranquilo, onde ninguém te amola, mas depois dessa lama nossa vida mudou demais. No dia que ela veio, tinha deixado meus equipamentos do garimpo escondidos no meio do mato, porque ia voltar pra garimpar no outro dia. Minha bateia e minha banca foram levadas embora. Fui pra perto da ponte e vi a lama trazer árvores, móveis, bichos e corpos junto com ela. Depois desse dia acabou o rio, a pesca e o ouro. Quando a gente descobriu que o azougue matava os peixes, paramos de apurar o ouro no rio. Agora essa lama acabou com tudo e ninguém faz nada.

Djanira Rocha, 74 anos, atingida de Rio Doce

Garimpeira atingida no Rio Doce
Djanira Rocha, 74 anos

Meu marido morreu novo, tive que me virar sozinha com meus meninos. A gente vivia do ouro. No rio sempre tinha gente garimpando. É muito gostoso ficar na água, distrair a cabeça, cantar. O melhor era a alegria de saber que a tarde a gente teria aquele ouro pra vender. Mas depois que a lama veio acabou tudo. Até mandei fazer uma banca nova porque achei que o rio fosse limpar rápido, mas ainda está tudo contaminado. Não dá pra pescar, nem garimpar. Sou aposentada, mas com esse dinheiro também ajudava minha família. Dia desses recebi uma cesta básica, mas fico com vergonha porque toda vida trabalhei muito pra criar meus filhos. Nunca pedi nada pra ninguém.

Teresinha Severina, 70 anos, atingida de Rio Doce

Atingida do Rio Doce
Terezinha Severino, 70 anos

Deixei a escola aos 12 anos pra trabalhar e ajudar minha mãe. Plantava na roça, pescava e garimpava, até que tivemos que sair de nossas casas em Soberbo pra construção da barragem de Candonga. Reassentaram nossa comunidade, mas a vida na antiga Soberbo era melhor. O terreno era maior, dava pra plantar, criar galinhas soltas no quintal. A gente morava praticamente dentro do rio, de tão perto que era. Por isso falo que já estou escaldada de barragem.  Já tive que lutar muito na época de Candonga, agora veio essa lama e acabou com tudo outra vez. Não pode mexer com ouro, nem pescar. Tem gente passando fome aqui. Eles (Renova/Samarco) falam que vão nos indenizar, mas até agora não vimos dinheiro nenhum.

Maria Helena, atingida de Nova Soberbo

Djanira, Teresinha e Maria Helena foram procuradas pela Fundação Renova/Samarco para preenchimento do Cadastro Integrado  apenas no início de 2017. Até o fechamento da reportagem não haviam recebido nenhum tipo de indenização, reparação ou auxílio além das cestas básicas.

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