“Não dá para confiar na Samarco”

Dique S4 alaga parte de comunidade já atingida pela lama. (Foto: Lucas De Godoy/Jornal A Sirene)

Por Janaína Paschoal

Com o apoio de Marcos Muniz e Miriã Bonifácio

Uma falsa lagoa de água transparente e pouca turbidez toma conta da paisagem de Bento Rodrigues desde outubro de 2016. O Dique S4 é uma obra de “contenção” de rejeitos de minério construída pela Samarco com a intenção de parar a lama que desce Rio Doce abaixo desde o crime do dia 5 de novembro. A proposta era de que o dique fosse eficaz nessa tarefa e que, depois de 36 meses, em 2019, se realizasse um processo de desalagamento. Entretanto, o que vemos acontecer nos últimos dias é o recomeço de obras na região, a ausência de respostas por parte da empresa e a falta de provas da efetividade desse dique – que fere os olhos e o sentimento de uma comunidade inteira, que perdeu até o direito de ver suas ruínas.

A Samarco alega, informalmente, que o prazo estabelecido até então pode ser prolongado, caso ela (a empresa causadora do dano) veja necessidade. Em contrapartida, as 55 propriedades atingidas diretamente pelo S4 seguem sendo submetidas a negociações desleais e sem acompanhamento técnico ou jurídico. No Hotel Muller, à portas fechadas, Seu Valadares, 74 anos, recebeu, no dia 20 de dezembro, a oferta de seis reais por metro quadrado das terras que roçou e cuidou durante a vida inteira. A angústia não é só pelo valor desigual entre os terrenos – calculado com base em imóveis das regiões mais baratas de Mariana -, ou pelos problemas que o dique vem causando, de discordância em cada família (negociante ou não); é por não saber, ou não confiar, que ele vai dar conta de resolver o problema.

 

Samarco, você quer uma segunda chance? Faça os atingidos confiarem em você de novo. 

Mauro da Silva, morador de Bento

 

Se você aluga uma casa por um valor, com contrato de um ano, vencendo esse prazo, o preço do aluguel é reajustado. Mas, para a Samarco, não é dessa forma. A empresa apresenta um contrato em que ela te paga um valor fixo por tempo indeterminado de uso das terras. Além disso, o processo de negociação como um todo é desrespeitoso, principalmente com os idosos, que se sentem forçados a aceitar uma proposta pelas propriedades que eles já perderam e que não têm segurança de reaver.

Quem acompanha sabe bem como é. Os representantes da mineradora avisam que 44 proprietários já assinaram e que, se você não concordar, não vai fazer diferença, pois eles vão judicializar. Então, o sentimento que se tem é o de que todos estão sendo obrigados a negociar seus pedacinhos de terra, e ainda sem garantias de que o dique vai ser desmontado. Queremos saber quais são os critérios, quais são as intenções da Samarco com as terras de Bento Rodrigues. Queremos satisfações do que é nosso. Queremos respeito!

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