Ser atingida não foi uma opção

A família de Dona Geralda. Da esq. p/ dir.: Maria Martir, Maria Silvestre, Aparecida Aurélio, Geralda Bartolomeu, José Ignácio e Alcídes Graça. (Foto: Flávio Ribeiro/Jornal A Sirene)

Por Alcídes Graça, Aparecida Aurélio, Geralda Bartolomeu (Dona Geralda), José Ignácio, Maria Martir e Marlene Agostino

Com o apoio de Flávio Ribeiro e Letícia Aleixo

2015 foi um ano bem difícil para a Dona Geralda, se é que não foi o mais difícil desses 97 anos que já se passaram em sua vida. Foi naquele ano, por exemplo, em meados de agosto, que sua saúde ficou mais frágil ao sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), uma doença que, às vezes, prejudica a sua fala, a compreensão que tem das coisas e seu próprio andar.

Foi também em 2015 que, por conta da saúde dela e da filha, Maria Silvestre, 71 anos, Dona Geralda teve que se mudar da comunidade de Campinas, em Mariana, para uma moradia alugada na sede da cidade. Deixou para trás a casa e cada canto que construiu com a família, mas as lembranças continuaran firmes e fortes. Tão fortes que, ainda hoje, após dois anos de tantas mudanças, pediu, algumas vezes, para voltar. Voltar para o lugar que ainda é seu, e que, agora, está marcado pelas consequências de uma tragédia/crime, desenrolada na mesma semana de sua mudança para Mariana.

“Não tem condições de voltar pra lá, mas ela não esquece. Ficava pedindo para voltar [para a casa em Campinas].”

Aparecida Aurélio, neta de Dona Geralda

A passagem da lama pela comunidade de Campinas, em área próxima à casa de Dona Geralda. (Foto: José Vicente/Divulgação)

Quando retorna para a casa em Campinas, agora em área de risco, onde o filho José Ignácio, 78, continua vivendo por conta de seus animais, o que vê é o quintal atingido pela lama, muita poeira ao vento, falta de água e um vazio onde deveria estar uma passarela, que sequer reconstruíram. São essas condições que impedem, mesmo após um possível fim do tratamento, que Dona Geralda volte a morar nesse lugar, que, agora, se tornou um espaço de ausências deixadas pelos acontecimentos interrompidos.

Após tantas mudanças, de novo, Dona Geralda não teve nem o direito de ser reconhecida como deveria, como uma atingida pelo rompimento da Barragem de Fundão. Não tem suporte para o pagamento do aluguel, seu filho recebeu o cartão reparação quase um ano após a tragédia, e ainda teve negada, pela Fundação Renova/Samarco, parte da indenização pelos danos. Dizem, como se ela pudesse ter escolhido, que Dona Geralda já não morava mais naquela casa, embora a residência ainda pertença à ela.

Hoje, 27 meses depois, a filha Maria Silvestre, o genro Alcídes Graça e as netas Aparecida Aurélio e Maria Martir se desdobram para pagar um aluguel no bairro Alto do Rosário, distante do centro, e que dificulta a mobilidade de toda a família. Para a Renova/Samarco, Dona Geralda talvez seja apenas mais uma pessoa que não se encaixe dentro de critérios limitados estabelecidos pela própria empresa, e que costumam considerar, apenas, se houve “deslocamento físico” de um atingido e se teve “comprometimento de renda”.

Mas, para quem cuida de Dona Geralda e a vê segurando uma boneca no colo, como quem não abdica de sua força protetora, seu caso é mais do que esses critérios. É um emaranhado de acontecimentos complexos, de alguém que vive para ser o que de fato sempre foi: uma fortaleza em meio às mudanças, a “mãedindinha” da família.

Quais são os meus direitos?

Segundo o Ministério Público, no caso de Dona Geralda, a Renova/Samarco deveria garantir o direito ao pagamento de aluguel retroativo; a oferta de um local adequado para a criação dos animais de Seu José Ignácio; e o direito à antecipação de indenização.

Caso você, atingido, esteja em uma situação semelhante à de Dona Geralda, o Ministério Público recomenda que seja aberta uma solicitação na Fundação Renova/Samarco. Caso não haja solução dos problemas, deve-se agendar um atendimento com a Assistência Social, por meio do telefone (31) 99218 0234, ou no escritório da Cáritas, na rua Monsenhor Horta, no. 76, no bairro Rosário.

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