Diretamente atingidos

Por Daniel Marques e Juliano Marques

Com o apoio de Letícia Oliveira, Simone Silva e Wandeir Campos

Daniel e Juliano são cortadores de cana do município de Barra Longa e, desde o rompimento da Barragem de Fundão, perderam o lugar de onde tiravam renda.  Hoje, eles lidam com as dívidas que fizeram nesse tempo em que ficaram desempregados, com os desafios de conseguirem um outro serviço e com o trabalho de tentarem ser reconhecidos pelas empresas responsáveis pelo crime.

“Nós dois trabalhamos durante 10 anos na cachaçaria Tiara, que produz uma cachaça famosa na região de Barra Longa, Mariana e Ponte Nova. Carregávamos o caminhão que buscava a cana e levava até a cachaçaria. Éramos os últimos a sair do serviço, chegávamos em casa às 11 horas da noite. Quando pouca cana chegava ao caminhão, ajudávamos também no corte da cana, nos expondo a situações difíceis desse trabalho, como respirar a fuligem das queimadas da palha, correr o risco de queimadura, de picada de cobra. Também tinha outros trabalhadores e trabalhadoras nesses serviços na cachaçaria, cerca de 15 pessoas.”

Daniel e Juliano, moradores de Barra Longa

A lama de rejeitos atingiu a área de plantio de cana da cachaçaria Tiara, em Barra Longa. Como medida de reparação, a Samarco fornece a cana para a cachaçaria. Entretanto, não há mais a necessidade do corte ou do transporte da cana, pois o proprietário já recebe a matéria-prima para a produção da cachaça pela empresa. Assim, Juliano, Daniel e seus companheiros de trabalho perderam o emprego e a renda.

“Com a perda do nosso trabalho, passamos a ter dificuldades para conseguir pagar nossas contas, o aluguel de nossas famílias e a alimentação para os nossos filhos e, ainda, precisamos lutar todos os dias para sermos reconhecidos como atingidos.”

Daniel e Juliano, moradores de Barra Longa

Por terem perdido a renda, Daniel e Juliano têm direito a uma reparação mensal no valor de um salário mínimo, mais 20% para cada dependente, e uma outra quantia equivalente ao valor de uma cesta básica. Contudo, dois anos e sete meses após o rompimento da barragem, eles nunca receberam nada.

“Fizemos reivindicações à Samarco e ouvimos apenas ‘não’ do direito à verba mensal. Eles justificaram que, apesar de termos perdido a nossa renda devido ao rompimento da barragem de Fundão, essa perda se deu de forma indireta. A Samarco elaborou seus próprios critérios para pagar direitos ou não aos atingidos, sem nenhuma participação destes na elaboração dos critérios. Para a empresa, há atingidos diretos e indiretos e apenas os diretos têm direito à verba de manutenção. Esse critério é muito fora da realidade. Se nós perdemos nossa renda por causa do rompimento, como que o impacto foi indireto? Outros 11 companheiros nossos, que trabalhavam no corte e transporte de cana, receberam. Por que nós não vamos receber?”

Daniel e Juliano, moradores de Barra Longa

Em resposta aos cortadores de cana, o representante da Fundação Renova/Samarco justifica que é possível que alguns erros tenham sido cometidos e que algumas pessoas estejam recebendo a verba de manutenção indevidamente e que isso será corrigido. A fundação/empresa ainda afirma que, nesse caso, quem tem direito a receber o valor mensal é o proprietário da cachaçaria.

Documento assinado pelo proprietário da cachaçaria afirmando que os irmãos trabalhavam no local. (Foto: Simone Silva/Jornal A Sirene)

“Nós sabemos que temos o direito e vamos continuar lutando. Eles podiam nos pagar e resolver isso de uma vez conosco. Inclusive, o proprietário, nosso patrão, já testemunhou por nós, provando que trabalhávamos lá.”

Daniel e Juliano, moradores de Barra Longa

Atualmente, Daniel trabalha em uma casa de peças em Barra Longa e, há dois meses, Juliano conseguiu emprego de ajudante de pedreiro. Mesmo trabalhando, a renda atual é bem menor do que a que eles tinham antes. No período em que ficaram desempregados, as dívidas foram se acumulando. Hoje, estão vendo a violação de direitos, iniciada em novembro de 2015, com o rompimento da barragem, aumentando.

O não reconhecimento como atingidos desrespeita mais direitos na vida dessas pessoas.  Este tipo de critério de que apenas o proprietário deve ser reconhecido é usado por empresas há muito tempo e vem sendo denunciado há mais de 20 anos por atingidos em todo o Brasil. Desse modo, os argumentos da Samarco demonstram uma situação de descumprimentos que só se renovam.

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