Não perdemos só o rio

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Não perdemos só o rio
A vida em Rio Doce

(Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

Não perdemos só o rio
A vida em Rio Doce

(Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

Não perdemos só o rio
A vida em Rio Doce

(Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

Não perdemos só o rio
Apesar de Vanilda e Sidney viverem juntos, ela ainda não recebeu por seus direitos

(Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

Não perdemos só o rio
A vida em Rio Doce

(Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

Não perdemos só o rio
Vilma mexeu com garimpo desde criança e hoje seu material de trabalho permanece guardado

(Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

Por Maria da Conceição Floriano, Sidney Santana de Souza, Vanilda Aparecida de Castro, Vilma Aparecida de Castro Gonzaga

Com o apoio de Larissa Pinto, Sérgio Papagaio e Silmara Filgueiras

Nesta edição, o Jornal A SIRENE abraça a cidade de Rio Doce e assume o compromisso de contar a realidade dos moradores que sofrem com as perdas causadas pelo rompimento da Barragem de Fundão. Nesse lugar, muitas pessoas viviam do garimpo e da pesca, uma relação com o rio que foi completamente alterada pela chegada dos rejeitos. Após dois anos e sete meses, o que mudou?

Rio Doce era uma cidade tranquila. A gente mexia com a pesca e com o garimpo artesanal. Nossos produtos eram vendidos na cidade e também para outros lugares, como Ponte Nova. O dia a dia era ir até o rio e voltar de lá com os peixes e com o ouro que conseguíamos para ajudar nas despesas da casa. Era nosso trabalho e nosso lazer, ao mesmo tempo.

Agora não podemos mais chegar na beiro do rio para pescar e garimpar, pois o nosso Rio Doce se tornou improdutivo. Pescar não é mais uma possibilidade, a água está contaminada pelos metais pesados. As varas de pesca e o material de garimpo guardados em casa estão estragando.

Não entendemos os critérios que a empresa cria para reconhecer apenas alguns de nós como atingidos(as)

A cidade não é mais a mesma. Hoje temos problemas com roubos, as nossas casas estão rachando e as ruas não aguentam o peso dos caminhões pesados que começaram a circular. O número de pessoas e transportes aumentou por conta das obras que estão sendo feitas em Rio Doce.

Desde que tudo aconteceu, nós estamos correndo atrás dos nossos direitos. Já fizemos manifestações, na última, no final de 2017, fechamos estradas e fizemos barulho para garantir os direitos para mais de 100 atingidos. Se não fosse isso, não conseguiríamos nem o pouco da reparação que a empresa tem feito. Mesmo assim, ainda somos vítimas da falta de comunicação deles com a gente, não entendemos os critérios que a empresa cria para reconhecer apenas alguns de nós como atingidos(as). Por que o(a) meu(minha) companheiro(a) de trabalho tem menos, ou mais, direitos do que eu? Por que, numa casa, apenas uma pessoa da família recebe o auxílio reparação? E o restante? Em uma casa é assim, mas em outra não é. Questionamos sobre o processo de isonomia que a empresa tanto prega.

“Antes aqui, em Rio Doce, não tinha quase nada, as casinhas eram de sapé. Para construir essa casinha aqui, eu vinha lá de baixo e trazia as pedras na cabeça, amassava tijolo com o pé e trazia lenha pra queimar o barro. Eu trabalhei muitos anos no rio, peguei até uma frieira no pé e ele ficou assim. Casei no sábado e, na segunda, já estava no rio trabalhando. E eu falo pra vocês, 64 anos de casados que vai fazer, eu não falhei nem um dia. Fazia o almoço, a janta e já saia pra beirada do rio. Sou mãe de 12, criei meus filhos todos assim. Tava lubrinando [serenando], eu tava no rio; tinha sol, eu tava no rio. Vinha de lá, trazia aquelas pedrinhas de ouro pra comprar o quilinho das coisas pra casa. Hoje eu não posso mais, por causa da minha coluna, mas dá uma saudade. E também não dá mais, né, o rio não pode mais. Agora não pode nem chegar na beira do rio, tá perigoso, parecendo um córrego, e ele era bem largo.”

Maria da Conceição Floriano, garimpeira e moradora de Rio Doce

“Até o meu filho, que não mora aqui e tenho que pagar pensão, eles falaram que não podia. Quando a gente foi contestar, eles disseram que é norma da empresa e meu filho tinha que depender da mãe, não de mim. Tem gente aqui na cidade com a mesma situação que conseguiu colocar os filhos como dependentes e eu não.”

Sidney Santana de Souza, pescador e morador de Rio Doce

(Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

“Aqui em casa só meu marido recebe o cartão. Ele fez o cadastro como pescador e colocou eu, meu filho e o filho dele como dependentes, mas quando o PIM (Programa de Indenização Mediada) veio fazer entrevista, eles deixaram a gente de fora, porque nós não somos casados no papel. Todos aqui em casa são dependentes meus e dele também, porque a gente trabalhava para ajudar em casa.”

Vanilda Aparecida de Castro, garimpeira e moradora de Rio Doce

(Foto: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

Prática simples e consciente

“Depois que a gente tira o carpete do rio, bate ele dentro e vai separando o cascalho dentro da bateia com água. O material que sobrava, eu trazia aqui pra casa e terminava de apurar usando o mercúrio. Fazia isso pra não contaminar os peixes e o rio.”

Vilma Aparecida de Castro Gonzaga, garimpeira e moradora de Rio Doce

“Quando conversei com a Vilma, passei a ter uma ideia diferente do garimpo. Ela me contou que aprendeu a garimpar com o pai, atividade que era sua principal fonte de renda até que um mundaréu de lama intoxicou o Rio Doce. Quando ela me contou como era o processo de garimpar, fui percebendo a consciência ecológica não só dela, mas de outros garimpeiros da região. Vejam só, eles foram acusados de contaminar o rio com metal pesado, como o mercúrio, mas ela me contou que tomava cuidado para não deixar que o mercúrio contaminasse a água no momento da apuração, e nem o ar, no momento da queima do metal, modo que também faz parte da atividade.”

Sérgio Papagaio, repórter do Jornal A SIRENE e morador de Barra Longa

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