Eles não dizem: “Vamos te tirar porque você está em risco”. Na primeira reunião mostraram alguns pontos que a lama pode atingir, alguns deles são a minha casa e a da minha sogra. Quando vieram colocar placas nas ruas, nós pedimos para eles mostrarem no mapa e perguntamos: “E esses pontos?”. O rapaz disse: “Não, esses pontos são só onde vão colocar rota de fuga”. Eu falei que, em uma das reuniões, o que eles tinham dito era que essa parte das nossas casas seria atingida. Agora, eles mudaram, disseram que não atinge. A gente fica sem entender. Depois que estourar, acabou, vai levar tudo. Disseram que era para gente correr se estourasse, mas, e se for à noite, que tá todo mundo dormindo? Eles vêm para fazer todas as famílias chorarem, só querem gastar depois que já acabou com tudo. Querem o minério que tem dentro de Antônio Pereira.

Joicelane Lorrayne, moradora de Antônio Pereira

Do que adianta treinamento? Brumadinho tinha e a sirene nem tocou.Maria Carolina, moradora da Estrada do Gongo Soco

A sirene tocou por volta de uma da madrugada. Estávamos na Estrada do Gongo Soco e, quando ouvimos, não sabíamos o que fazer porque não teve treinamento nenhum. Colocaram a sirene, mas ninguém sabia que ela funcionava e nem para o que era aquilo.

Adriana Duarte, moradora da Estrada do Gongo Soco

A Vale não instruiu ninguém. Agora eu tô afastada, mas trabalho em monitoramento de barragens. O dia que passei na estrada de terra, eu perguntei pra Adriana: “Você sabe o que é essa sirene aqui?”, ela falou: “Sei não”. Eu disse: “Isso significa que tem uma barragem perigosa por aí que pode romper a qualquer momento”. Depois, já tocou a sirene para evacuar o local. Aí eu perguntei: “Eles foram lá na fazenda dar treinamento para vocês, Adriana?”. Ela falou: “Não teve treinamento de nada”, e ficou bem nervosa de saber que aquilo era uma sirene de barragem.

Maria Carolina Gonçalves, moradora da Estrada do Gongo Soco

Moro eu e meus filhos, somos só nós três em casa. Se estourar, como eu faço?Joicelaine, moradora de Antônio Pereira

As empresas não falam dos riscos das barragens. Em Bento Rodrigues, por diversas vezes, funcionários da Samarco disseram que estava tudo sob controle e que a barragem não romperia. Em Brumadinho, a mesma coisa. E algumas famílias acreditam no que as empresas dizem, porque imaginam que são elas que detêm a engenharia tanto para garantir a segurança das barragens, quanto para avaliá-la. Algumas pessoas preferem acreditar nas empresas, mas isso tem ficado cada vez mais difícil com os dois rompimentos recentes e com as diversas evacuações realizadas depois do rompimento em Brumadinho.

Letícia Oliveira, coordenadora do Movimento Atingidos por Barragens (MAB)

Quando tocou a sirene, eu tremia tanto, não sabia se ia ou se ficava. Nós não conseguimos pegar nada. Ninguém tinha cabeça, largamos tudo para trás. Nem sabíamos onde estavam os nossos documentos. Ainda está tudo lá, muitas coisas ficaram.

Fernanda Rodrigues e Eustáquio Luzia, moradores de Tabuleiro

Se eles tinham o interesse de minerar, tinham que tratar bem o pessoal e tinham que nos treinar. O que a Vale faz para o pessoal de Socorro, de Tabuleiro e de Piteira? Não faz nada. Agora simplesmente joga para fora, feito cachorro.

Maria Carolina Gonçalves, moradora da Estrada do Gongo Soco

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