Para esta reportagem, o Jornal A Sirene foi até as comunidades que sofrem com o risco de rompimento de barragens e o descaso da mineradora Vale. Em Barão de Cocais, a Barragem Sul Superior da Mina de Gongo Soco, localizada a cerca de 11 km da cidade, está em nível 3, o que representa alto risco de rompimento. No dia 8 de fevereiro, as comunidades de Socorro, Tabuleiro, Piteira e Vila Gongo Soco foram evacuadas. Hoje, parte da população está em hotéis e os(as) demais moradores(as) em casas alugadas pela mineradora, em Barão de Cocais. Desde então, os(as) moradores(as) foram impedidos de retornar às suas casas. A comunidade de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, teme o rompimento da Barragem do Doutor, parte do Complexo de Timbopeba, também da mineradora Vale. Nessas comunidades, a empresa atua de forma irresponsável ao deixar os(as) moradores(as) desinformados(as). 

Por Adriana Duarte, Célia Gomes de Araújo, Eustáquio Luzia, Fernanda Rodrigues, Gercina dos Santos Silva (China), Joicelane Lorrayne, Lucimara Estevão, Maria Anunciação Luzia, Maria Carolina Gonçalves, Maria do Carmo de Pádua, Rosa Luzia, Roziny Santos Silva e Terezinha Quintão*
Com apoio de Larissa Pinto, Letícia Oliveira (MAB), Tainara Torres e Wigde Arcangelo

* Algumas pessoas não aparecerão ao longo dos textos, mas esta reportagem contou com a participação de todos(as).

Não temos mais sossego

Muita gente tá adoecendo. Qualquer coisa, um alarde, um carro toca e já fica achando que é sirene. Em fevereiro que começou isso. Minha neta falou: “Vó, parece que vai estourar uma barragem lá no Gongo”. Alguns dias depois desse sufoco, estava fazendo almoço e pensando: “Se essa lama vier pra cá agora, essas panelas vão pra longe”. Fico pensando: “Ah, meu Deus, e se estourar lá agora?”. O caso é sério demais, eu não vou dar conta de correr. Vou fazer 80 anos. Queríamos ter uma resposta mais certa pra termos um pouco de sossego.

Gercina dos Santos Silva (China), moradora de Barão de Cocais

Nós crescemos na casa da minha mãe. Como que você desfaz dessa história?Roziny, moradora de Rio Doce, natural de Barão de Cocais

Fotos: Larissa Pinto e Tainara Torres

Gercina, mais conhecida como China, e suas filhas Rosemare (esquerda) e Roziny (direita).

No dia que houve o rompimento da Vale, em Brumadinho, minha sobrinha estava comigo e ficou transtornada. Nós estávamos vendo televisão. Quando vi ela estava perto da imagem de Nossa Senhora que eu tenho, e falei “O que é isso, Ana Amélia?”, ela disse “Estou rezando para mamãe do céu, tia Tê. Pedindo para ajudar aquele povo lá igual a nós”. A menina tem só seis anos. A empresa acaba com a vida da criança, acaba com a vida dos idosos, acaba com tudo. Eles não estão nem aí, falam: é 100 mil reais! E é isso, isso paga uma vida? Não paga.

Terezinha Quintão, moradora de Bento Rodrigues

De uma forma geral, a Vale tenta te comprar. A ideia é que o dinheiro compra tudo. É muito fácil pra ela colocar todo mundo em hotéis, encaixotar todo mundo como se fossem objetos e depois que passar ver o quê que faz. O negócio deles é o dinheiro. É indenização e pronto, acabou.

Roziny Terezinha Santos Silva, moradora de Rio Doce e natural de Barão de Cocais

Eu moro de aluguel. Eles vão arrumar um lugar pra gente ficar?Célia Gomes, moradora de Antônio Pereira

Esse estado de medo já é uma forma de ser atingido, mesmo que a barragem não rompa. A empresa tem que pagar por esse transtorno à população dessas regiões de alguma forma. Em Barão de Cocais, famílias das comunidades rurais foram evacuadas, mas o centro da cidade não, assim como é o caso de Itabirito. Isso gera medo, as pessoas pensam: se retiraram alguém é porque tem perigo, e eu continuo na área de risco. Esse medo vai continuar sendo gerado enquanto o procedimento de emergência das barragens for retirar apenas as famílias que se localizam na área de Auto Salvamento e deixar as demais em risco. É preciso elaborar procedimentos de emergência mais sérios e eficientes e que sejam pensados a partir dos anseios das comunidades que estão sob ameaça de um rompimento.

Letícia Oliveira, Coordenadora do Movimento Atingidos por Barragens (MAB)

Eu tenho problema de pressão alta, fico nervosa, tenho medo de estar dormindo e a barragem estourar. Ela não tem hora. Sou moradora há pouco tempo, mas me preocupo porque não sou só eu, tem muitas pessoas, famílias. Trabalho perto da barragem, na Vila Samarco. Fico com medo, ainda mais porque falaram que lá é um dos primeiros pontos que vão ser atingidos. Não podemos deixar de trabalhar nem de dormir, mas a gente fica com essa preocupação no dia a dia.

Célia Gomes de Araújo, moradora de Antônio Pereira

Em Bento, estávamos debaixo de uma bomba, mas a gente não sabia que tinha mais pelo mundo afora. Nesse lugar que fomos morar, na Vila Samarco, tinha outra barragem! Quando eles pararam o serviço nessa barragem, pensei: se paralisou é porque tem problema. Minha menina ficou meio cismada, “Vamos embora mãe, não vamos ficar aqui não. Já que eles pararam as obras, tem algum risco”.

Terezinha Quintão, moradora de Bento Rodrigues

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