Editorial (março/2018)

 

(Foto de capa: Daniela Felix/Jornal A Sirene)

Antes de começar a ler estas palavras, com certeza, você já olhou para a capa que escolhemos para esta edição. Se ainda não o fez, vire o jornal e observe antes de continuar a leitura.

Nela, trazemos Bilu e Dorinha, moradores de Guerra, subdistrito de Barra Longa. A naturalidade com a qual eles aparecem nessa fotografia – pés descalços, de chinelos, vestindo roupas que comprovam as marcas do cotidiano vivido na roça – revela também como essa família não se importa de ser o que é: simples.

Ao juntar as palavras, os atingidos que viviam entre pés de limão, cachoeira e animais soltos pelo quintal vão relatando o modo como a Fundação Renova/Samarco vem conduzindo o processo de reparação em sua cidade. Ao preencherem o tal cadastro aplicado em Barra Longa, já perceberam que muitos de seus direitos tinham sido violados. Agora, com a proposta de indenização feita pela fundação/empresa, através do Programa de Indenização Mediada (PIM), entendem tal violação (ou melhor, não entendem direito), mas sentem que seguem sendo desrespeitados.

E não são só eles. O corte dos fios da “rede elétrica” na parte alta de Bento Rodrigues nos enche de questionamentos. Por que continuam querendo diminuir nossos direitos? Por que querem nos fazer esquecer do lugar de onde viemos e que nos faz tão bem?

É em busca de permanecer com nossas lembranças que contamos as histórias das benzedeiras das nossas comunidades, que, por meio da fé e da sabedoria, ajudavam a cuidar do nossos corpos, das nossas almas e dos nossos corações. São elas que apontam para a importância de nos mantermos unidos pela tradição, que, agora, está fragilizada por este desastre-crime.

E seguimos nessa ideia de compartilhar nossos momentos juntos ao contarmos sobre a “água Santa”, espaço em que a comunidade do Bento se reunia, e com a diversão interrompida por ouvirem barulhos estranhos que vinham da água, logo começavam a espalhar burburinhos e confabular as melhores lendas sobre o local. Ainda, falamos sobre os nossos lugares de lazer: a rua, a praça, os campos de futebol. Quanta recordação!

Tudo isso para dizer que estamos atentos a todas as coisas que acontecem com o nosso povo e em nossas comunidades. Não aceitamos nada menos do que nos foi tirado. Queremos participar de todos os processos que determinam o nosso futuro. Queremos um diálogo esclarecido, pois informação é um direito nosso. Nada disso deveria estar sendo cobrado por nós.

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