Editorial (abril/2018)

Capa da edição de abril

A imagem de alguém que não se mostra. As mãos que nos impedem de identificar características importantes dessa pessoa. Não sabemos qual expressão ela traz em seu rosto, qual a cor de seus olhos. Não sabemos se é um homem ou uma mulher. O que sabemos é que, por trás de algo que impede a nossa visão, às vezes, existe alguém que foi atingido.

Com a capa deste mês, tentamos dizer, um pouco, o que tem sido o  nosso processo de reparação, “a nossa luta”, em que diversos fatores impedem que enxerguem as coisas como de fato são. Consequentemente, como é o caso do reassentamento de Paracatu, isso nos prejudica de prosseguir da forma como queríamos.

As incertezas sobre as condições dos terrenos e o vai e vem dos “estudos” que mal entendemos, entre outros detalhes, estão consumindo o nosso tempo e deixando as nossas comunidades desconfiadas e insatisfeitas.

Enquanto isso, através de investimentos em publicidade, a Fundação Renova/Samarco vende uma ideia de que tudo está acontecendo conforme o planejado, de tal forma que, “lá fora”, as pessoas possam ver que a extensão da tragédia não foi tão grande e que está tudo bem. Mas isso, na verdade, é ela, mais uma vez, tentando se colocar na e à frente da situação.

Tiramos “as mãos” da frente e mostramos o “rosto” de Barra Longa. As “marcas” que podemos ver são as das reparações mal-feitas pela fundação/empresa em dois imóveis atingidos de lá. Além de uma reforma na  escola atingida da cidade, onde as instalações elétricas estão expostas e facilmente acessíveis para as crianças, se tornando não um reparo simples, mas uma nova dor de cabeça para os pais. Diante da qualidade desse serviço, muitas preocupações surgem em relação às nossas casas no futuro.  

E essa realidade não está nas publicidades da Fundação Renova.

Assim, essa ideia de Fundação independente, eficiente, transparente e ética, são contraditórias ao desempenho das ações. “Abrimos”, então, a porta da “casa” dessas contradições para mostrar como ela é “por dentro”. Nesse sentido, questionamos, o que de fato é prioridade para a Renova? Com qual objetivo ela tenta se legitimar em espaços que não representam e/ou não interessam os(as) atingidos(as)? Talvez, o fato de estarmos dialogando com ela, sem o apoio necessário, e não com as empresas causadoras da tragédia-crime, seja o maior contraponto de tudo o que estamos passando.

 

 

-Quanto tempo mais isso, ou aquilo, ainda demora?

 

Sempre perguntamos para a Fundação Renova/Samarco.

 

-Não sei, depende. Mas estamos fazendo o possível.

 

 

Não importa qual seja a nossa pergunta, a resposta é sempre a mesma.

 

O tempo vai passando e nos sentimos “cobertos” por processos que “se perdem de vista”. Quando voltamos para casa, após uma reunião, e juntamos todos os detalhes que estão soltos pelo caminho, mais dias são acrescentados em nossas vidas provisórias. Vidas como a de Aparecida Maria Cerceau, moradora da comunidade do Borba, subdistrito de Mariana, que recebeu os rejeitos de Fundão durante a noite do dia cinco de novembro de 2015. Ela é a atingida de blusa vermelha na fotografia ao lado.

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