Editorial (maio/2018)

Na roça, o dia começa logo cedo. O sol e os animais anunciam que mais um “hoje” está começando e, com isso, uma rotina que depende de nós para acontecer. As sementes e as plantações necessitam do nosso tempo, das nossas mãos para serem plantadas e crescerem saudáveis. Os animais precisam do alimento que damos a eles e também de atenção. Muito desse modo de viver foi interrompido. Agora, o espaço é diferente mas, todos os dias, nós, somos os mesmos.

Para mantermos os costumes, propomos o exercício que faz  Raimundo Alves, morador de Bento Rodrigues. Para ele, a “horta, mesmo que pequena, é uma diversão”. Antes plantava de tudo e agora tem um espaço limitado. Mesmo afastado da antiga rotina, ele busca, no espaço comunitário que ajuda a cuidar na cidade de Mariana, continuar o hábito. Essa também é uma forma dele, nossa capa deste mês, mesmo que sem notar, cuidar de si mesmo.

Cuidado é o que os resultados sobre a saúde mental trazidos no último mês pelos pesquisadores da UFMG, e que assinalam o quanto as pessoas das nossas comunidades estão adoecendo após o rompimento da Barragem de Fundão, indicam nesse momento. São dados que nos preocupam e afirmam que o tempo afastado de atividades como essa do  amanhecer no campo tem nos feito falta. Enquanto convivemos com nossas dores e sofrimentos, devemos procurar alternativas para a vida que tínhamos.

E, assim, a nossa luta segue em busca de condições mais justas para vivermos quando formos reassentados, cabendo a nós decidir o que será feito e como serão realizados os projetos de reconstrução das nossas comunidades. Específicamente nesta etapa, enfrentamos algo que, talvez, jamais poderíamos imaginar que seria necessário: o abastecimento de água (em Paracatu de Baixo). Um recurso tão rico na nossa região, que abastecia nossas casas com abundância, e que hoje precisa ser cautelosamente pensado para não nos trazer prejuízos no futuro.

E os desafios continuam, pois mesmo que a vitória em elaborar um formulário de cadastro (em Mariana) feito por nós tenha avançado e permitido registrar o que perdemos, chegou o momento de questionarmos quem ou o que irá mensurar os valores dos nossos bens, da nossa história. Sem esquecer que eles/ela não estavam à venda. Por isso, estamos na luta para construção da nossa Matriz de Danos, reivindicando que ela considere itens e “valores” que sejam justos na nossa reparação, ainda que não haja quantia que pague pelas coisas que nos trazem lembranças de alguém, dos nossos lugares e até mesmo de um pé de jabuticaba que acompanhava o nosso crescimento.

Cada dia que passa, desde de 5 de novembro de 2015, são novos os caminhos e desafios que enfrentamos. São experiências de uma “nova vida” que reunimos ao longo desses dois anos e seis meses, desejando que ninguém mais passe pelas mesmas situações. Desse modo, fomos até a cidade de Congonhas conversar com os moradores de uma comunidade que, diariamente, sofre com incertezas a respeito dos riscos da Barragem Casa de Pedra, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), e com a falta de comunicação entre a empresa e os moradores. Essas pessoas, assim como nós, precisam lutar pelo direito de se sentirem seguros, querendo ou não permanecerem naquele território.

Aqui em Mariana e em Barra Longa, reunimos forças para cuidarmos de outras pessoas que são obrigadas a conviver com as consequências trazidas pela mineração, e também de nós mesmos. Assumimos, então, um papel importante na vida delas quando nos unimos e dizemos que não estão/estamos sozinhas/os.

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