Editorial (junho/2018)

(Foto de capa: Larissa Pinto/Jornal A Sirene)

As pessoas mais velhas, naturalmente, carregam consigo marcas de acontecimentos que ocorreram em vários momentos de suas vidas. Quando conversamos com elas, reconhecemos que essas marcas se tornam memórias, que são repassadas por meio das histórias que elas podem nos contar e que, de algum modo, elas ficam eternizadas em nós.

Na capa deste mês, trazemos, como personagem, dona Conceição, mulher, garimpeira, nascida e criada na cidade de Rio Doce. Cuidadosa em cada detalhe, ela conta como foram construídas as primeiras casas, como era a vida de antes e a de hoje, como a distância com o rio tem feito falta para todos de lá. Suas marcas/memórias/histórias simbolizam a de outros moradores da comunidade, que foram atingidos/marcados pelo rompimento da barragem.

Também, nesse dia 5 de junho é comemorado o Dia Mundial do Meio Ambiente, data importante para refletir sobre os rastros que foram deixados pelos rejeitos de minério  ao longo do trajeto por onde ele passou. Pensando em questões como a do “ponto de vista dos rios atingidos”, trazemos o ensaio fotográfico “Gualaxo”, que mostra como a paisagem da região de Paracatu de Baixo mudou de cor e como isso tem implicado na vida de todas as pessoas que necessitavam/necessitam daquelas águas para trabalhar, para cuidar das suas plantas e de seus animais.

Além daquilo que podemos ver, ainda somos vítimas das marcas invisíveis deixadas por esse crime. Sabemos que algo tem atingido diretamente a nossa saúde, algo tem nos contaminado, ou intoxicado, e, até hoje, enfrentamos a dificuldade de entender exatamente de onde isso vem e como podemos fazer para nos curar. A certeza que temos é a de que o meio ambiente em que vivemos, trabalhamos, nos criamos e que também nos nutre, deixou de ser saudável. Nesse momento de incertezas, novamente falamos de como a nossa população tem adoecido – cada vez mais.

Enquanto isso, o tempo vai passando e as marcas vão ganhando espaços nas vidas de cada um de nós. As mulheres do Gesteira têm se destacado pela presença na luta da comunidade no caminho que ajudam a construir para o reassentamento. Seguimos, então, a direção de esperança delas que, em um gesto que simboliza muita coisa para muitos de nós, começaram, de forma coletiva, a cultivar uma bananeira para tentar perceber, no desenvolvimento dessa planta, a espera dos atingidos para “voltarem para suas casas”. Pois assim também se encontram os moradores de Bento Rodrigues, que tiveram o seu canteiro de obras iniciado no terreno de Lavoura e, agora, aguardam que, de fato, esse novo passo signifique um acontecimento que vá além dos investimentos em propaganda feitos pela Fundação Renova (e do qual também temos, repetidamente e necessariamente, precisado falar).

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