Editorial (agosto/2018)

(Foto de Capa: Silmara Filgueiras/Jornal A Sirene)

Durante todos os dias das nossas vidas, especialmente, a partir do momento em que fomos obrigados(as) a deixar nossas casas, nossas comunidades, nossos vizinhos e amigos, temos nos sentido injustiçados(as). Porém, essa injustiça começou há muitos anos, antes do rompimento da Barragem de Fundão, quando a mineradora Samarco iniciou sua exploração de minério construindo barragens de forma irresponsável e, consequentemente, transformando a nossa sorte.

Pensando nisso, tentamos trazer, com a foto dos olhos da Cintia Silva, atingida de Paracatu de Baixo, nossa capa deste mês, uma ideia de justiça que vem do modo como enxergamos aquilo que temos enfrentado. É assim que buscamos dizer sobre um sentimento que é só nosso e que, apesar de tudo, nos mantém em movimento durante esse tempo todo: queremos ver nossas vidas reparadas da maneira mais justa.

Para lutar por essa justiça, reivindicamos mudanças, como o uso de uma linguagem da qual vamos conseguir nos apropriar, pois, além de enfrentarmos longas e exaustivas reuniões, nos sentimos perdidos em meio ao uso de termos, muitas vezes, desnecessários, que só complicam ainda mais o processo.

Além disso, as verdades precisam ser ditas por nós, e é necessário que acreditem em nossas palavras, porque só a gente sabe o que o crime nos causou e continua nos causando. Por isso, quando falamos que nossas casas estão em risco por causa das rachaduras que surgiram devido ao trânsito de caminhões pesados, em Barra Longa e no Rio Doce, estamos acrescentando mais um item à lista de direitos que devem ser reparados. Dessa forma, não cabe à Fundação Renova/Samarco duvidar ou avaliar o modo como nossas moradias foram construídas, mas sim reconhecer os problemas que sua chegada provocaram em nosso dia a dia. Não podemos tolerar que as empresas sigam “reparando” os danos cometendo outros. Cobramos que a fundação/empresa e suas terceirizadas também sejam responsabilizadas por novos erros.

No mês passado, nós denunciamos os perigos trazidos pelas obras de limpeza no Rio Doce, na área da Hidrelétrica de Candonga, no distrito de Santana do Deserto. Neste mês, tristemente, informamos que o que temíamos, em partes, aconteceu: em julho, houve um deslizamento de terra na Fazenda Floresta, região onde estão sendo construídos os diques que servirão como depósito dos rejeitos retirados da água. Após reclamarmos nossa presença no local, estamos conseguindo acompanhar as obras mais de perto. Essa é a nossa tentativa de evitar que o mesmo rejeito não nos atinja de novo.

Por tudo isso, também exigimos que a nossa participação seja, de fato, reconhecida, e em maior número, nos principais espaços de decisão, como os previstos no novo TAC Governança. Se, antes, não tínhamos nenhum poder de voto no acordão, agora, conquistamos uma pequena representação que, de novo, corre o risco de ser insuficiente e continuar a nos deixar sem o poder que tanto precisamos para tornar esse processo de luta um pouco mais igual.

Chegamos ao final de mais uma edição do Jornal A SIRENE um pouco mais confiantes depois de recebermos a notícia da assinatura do termo de anuência que autoriza o início das obras de reconstrução do nosso Bento Rodrigues. Esperamos, com fé, que esse passo seja um reflexo para o que deve acontecer também com as comunidades de Paracatu de Baixo e Gesteira, que aguardam, ansiosas, o cumprimento de seus direitos.

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