Editorial (novembro/2018)

No dia 5 de novembro de 2016, quando o rompimento da Barragem de Fundão completou um ano, o Jornal A SIRENE lançou uma capa na cor preta para simbolizar o luto, a perda e os danos. Naquela mesma edição, foi contada a história da “luz do Santíssimo” na capela de Ponte do Gama, que permaneceu acesa mesmo após a passagem da lama responsável por devastar parte da comunidade. Em 2017, optamos por uma capa branca, que representava as condições dos(as) atingidos(as) de Mariana e de Barra Longa diante dos atrasos da Fundação Renova/Samarco/Vale/BHP para reparar o crime que haviam cometido. Ao mesmo tempo, significava, também, a esperança de reescrever histórias.

Nesta edição, quando se completam três anos do desastre-crime, reunimos as histórias, os relatos e as memórias daqueles e daquelas que, mesmo com as dificuldades, ainda resistem. Por isso, trouxemos, mais uma vez, a luz, agora como capa, que ilumina a cozinha do senhor João e dona Maria Ângela, moradores de Pedras. A imagem mescla a ideia das duas edições anteriores: enquanto a escuridão denuncia que ainda estamos de luto pelas perdas que sofremos diariamente desde o rompimento, a claridade simboliza a fé de que, algum dia, poderemos retomar nossas vidas, em nossas casas.

(Foto de capa: Nilo Biazzeto)

O ambiente da cozinha também não é ao acaso. Ele reflete a relação de acolhimento e proximidade que nós, atingidos(as), temos uns com os outros e com as pessoas que estão ao nosso lado, nos ajudando a enfrentar um dos momentos mais difíceis das nossas vidas. É na cozinha que temos o costume de conversar, rir, contar histórias, de relembrar momentos bons e ruins. Tudo isso enquanto a água do café ferve e o bolo assa.

Pensando nisso, na partilha dessas histórias, propusemos aos colaboradores do jornal que percorressem as comunidades atingidas de Mariana, Barra Longa e Rio Doce para mostrar o dia a dia na roça, as culturas das diferentes regiões e as histórias de vida nutridas e banhadas pelos rios Gualaxo e Doce. Simbolicamente, estendemos aqui o convite comumente feito pelas pessoas dos lugares em que passamos: “Entra pra cá, vem tomar um café”.

Seguindo o trajeto do rio, mais uma vez, expandimos nossa missão até o Espírito Santo. Embora a realidade de lá seja diferente da nossa, estamos ligados não só pela água que atravessa nossos Estados, mas também pelas consequências da lama que ainda nos atormentam. Registrar a realidade dos(as) atingidos(as) daquela região é demonstrar solidariedade àqueles que, como nós, também lutam por uma reparação justa e integral.

Agora, chegamos aos três anos do rompimento da Barragem de Fundão e, em nossa trajetória, temos o registro de muitas lutas e conquistas, seja em Mariana, na Bacia do Rio Doce ou no Espírito Santo. Se, antes, éramos interligados por uma história de dor, hoje, nos unimos também pela luta. E, temos certeza, ela é longa e não termina aqui.

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