Editorial/Dezembro 2018

Foto: Gabriel Sossai

Com delicadeza e orgulho, dona Ilda Oliveira, moradora de Areal, comunidade próxima à Regência Augusta-ES, conta a história de um pedaço de pano que bordou sobre o rio Doce. A costura retrata detalhes que ela guarda, na lembrança, da casa em que vive, do cotidiano no vilarejo, da tranquilidade e da paz proporcionadas pela natureza, da felicidade e dos benefícios que o rio deixava. Ao falar sobre o significado da água para o bordado que fez, dona Ilda afirma, com convicção: “A água liga as pessoas. A água é a nossa vida. A água é nossa bebida, nosso costume porque, sem ela, não valemos nada. Nós podemos até sobreviver comendo qualquer coisa, mas, sem água, não. Nada mata a sede, só a água. Sem ela, não valemos nada”.

Ligados pelas águas dos rios Gualaxo e Doce, o Jornal A SIRENE atravessou, mais uma vez, o Estado de Minas Gerais até chegar à foz, no Espírito Santo, para participar do III Encontro Ancestral. Lá, pessoas de diferentes regiões se uniram às comunidades indígenas e quilombolas, também de diferentes lugares, para, de maneira lúdica e cultural, buscar a regeneração interna e o cuidado uns com os outros. Recorrer à ancestralidade, simbolizada pelos povos que mantêm suas tradições à beira do rio Doce, é importante para que nós nos fortaleçamos, individual e coletivamente, para resistir e lutar, dia após dia, especialmente a partir de novembro de 2015.

Temos falado insistentemente sobre lutas e sobre as consequências deixadas pela passagem da lama de rejeitos que contaminou os rios. É preciso também mostrar as possibilidades de resistência que temos aprendido a construir e fortalecer ao longo desses três anos, seja em Minas Gerais, seja no Espírito Santo. É por isso que, inspirados pelo bordado de dona Ilda e pelo Encontro Ancestral, o Jornal A SIRENE dedica parte do conteúdo deste mês para trazer resultados de trabalhos que buscam dar visibilidade àqueles e àquelas que, mesmo três anos após o rompimento, ainda se sentem desamparados e à margem dos processos políticos de reparação, mas continuam à procura de justiça.

Encerramos 2018 com um histórico de lutas e de conquistas para as comunidades atingidas de Mariana, de Barra Longa, do Rio Doce e dos(as) demais atingidos(as) ao longo da Bacia, mas com o sentimento de que ainda há muito a ser feito. Enquanto isso, no Espírito Santo, os primeiros passos ainda estão sendo dados. Independentemente disso, nossa luta é permanente e comum. Por isso, nesta edição, trouxemos reportagens que abordam aqui e lá, expandem nossa área de cobertura, justificam o compromisso que temos com o direito à comunicação e alimentam essa importante ferramenta de luta, na esperança de que sirva de modelo para um jornalismo que esteja sempre em defesa dos que mais precisam. Enquanto houver silêncio, morosidade e quebra de direitos, aqui, A SIRENE continuará soando.

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