Editorial/Janeiro 2019

Foto: Silmara Filgueiras

Nesta primeira edição publicada em 2019, o Jornal A SIRENE traz, como capa, a imagem de uma cadeira vazia e enferrujada. As marcas do tempo manifestadas nela e o vazio que ela representa, simbolicamente, é um convite que fazemos aos nossos leitores para que “se assentem” e reflitam a respeito de um tema velho, mas que permanece recorrente em nossas comunidades: o assédio.

Por isso, reservamos uma reportagem especial para denunciar as situações constrangedoras que as mulheres têm sofrido por causa da intensa circulação de homens nas comunidades atingidas após o rompimento. Tomamos consciência dos casos de assédio que constantemente estão ocorrendo nas regiões em que o jornal tem área de cobertura (Mariana, Barra Longa e Rio Doce) e, pelo nosso compromisso com o direito à comunicação, decidimos não nos calar diante de mais essa violência, que é comum na sociedade brasileira, mas que foi agravada, nessas cidades, pelo crime.

Quando afirmamos que o rompimento da Barragem de Fundão continua se renovando dia após dia, a três anos e dois meses, estamos apontando para uma sucessão de muitos outros danos que são consequência do crime, na tentativa de visibilizá-los para que sejam reparados. De fato, a vida das pessoas e das comunidades sofreram mudanças bruscas, não só devido à passagem da lama, mas também com a chegada dos funcionários das empresas terceirizadas pela Fundação Renova/Samarco.

Na matéria “Chega de sofrer calada”, as mulheres atingidas relatam o constrangimento que sentem ao andar pelas ruas e serem assediadas, situação que também encontram em alguns dos seus ambientes de trabalho, somada ao abuso de poder e à diferença de gênero. São mulheres que também não se sentem mais à vontade em ficarem sozinhas em suas próprias casas. São mulheres que, mesmo com medo e muitas vezes silenciadas por conta das consequências negativas que podem sofrer, compreendem a importância da denúncia.

Estamos em um contexto de desigualdades e conflitos. Mas, como veículo de comunicação empenhado em estar ao lado dos mais frágeis, não devemos nos calar diante de mais esse dano. Pelo contrário, o que queremos é ecoar as vozes das vítimas. Se ainda houver alguma dúvida sobre o porquê de falar sobre assédio, uma das mulheres entrevistadas nos responde: “Porque chega de sofrer em silêncio”.

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