Editorial/Fevereiro 2019

No dia 5 de fevereiro de 2016, o Jornal A SIRENE foi lançado na praça da Sé, em Mariana. Este veículo nasceu ali para relembrar e romper o silêncio que antecedeu o crime de Fundão. Hoje, soar a nossa sirene a cada mês é mais do que um protesto diante da negligência da mineradora Samarco em não possuir um alerta para as comunidades próximas às barragens. Soar a nossa sirene ultrapassa o sentido físico, porque é, também, sobre poder ecoar para o Brasil a experiência que estamos construindo aqui, na luta por uma reparação justa e integral.

Agora, pouco antes de completarmos três anos de nossa primeira edição, a barragem da Vale se rompeu , no Córrego do Feijão, em Brumadinho e deixou em evidência, mais uma vez, a falha que poderia ter poupado dezenas, mas, mais provavelmente, centenas de vidas. De 2015 para cá, muitas ações poderiam e deveriam ter sido tomadas para que novos crimes não acontecessem. Porém, a atuação irresponsável das empresas mineradoras não permitiu que nem mesmo o básico funcionasse: o alerta que não tocou em Bento Rodrigues permaneceu em silêncio em Brumadinho.

Desde o crime de Fundão, nós, atingidos(as) e colaboradores do Jornal A SIRENE, temos nos manifestado em relação à ganância das empresas que mineram em nossa região, mas que pouco se preocupam com as consequências que a prática econômica tem causado. São danos que desrespeitam o meio ambiente, a vida humana e dos animais. Mesmo sabendo que perdas como as que sofremos são irreparáveis, estamos persistentes na busca por justiça e lutando para que todos os responsáveis sejam devidamente punidos. Mas, diante do rompimento em Brumadinho, nos questionamos: quantas vezes mais os crimes terão que se renovar para que alguma medida seja tomada?

A infeliz coincidência entre o aniversário do nosso jornal e o rompimento da barragem em Brumadinho deixa uma lição: ainda há muito a ser feito. Os(As) atingidos(as) do Córrego do Feijão, agora, se juntam a nós, seja pela dor, seja pelo desejo de justiça. Completar três anos de existência em meio a esse caos mostra a necessidade de permanecermos denunciando os rompimentos que nunca terminam e evidenciando aquilo que somente aqueles que tiveram as vidas alteradas de maneira forçada podem atestar, por meio de um jornalismo que só completa o seu sentido na construção coletiva e na vivência em comunidade.

Para nós, a lição que fica é clara. Continuar a luta aqui é, também, abraçar Brumadinho. Denunciar o descaso das mineradoras e registrar a realidade que vivemos após o rompimento de Fundão é garantir que as autoridades não se esqueçam dos(as) atingidos(as). É ecoar as vozes de outras vítimas. E este é o nosso maior desejo: que tudo aquilo que temos pensado e construído possa ser espalhado para todos e todas que precisam. Somente assim, alardeando as nossas sirenes, é que poderemos, enfim, romper definitivamente os silêncios.

COMENTE

Ainda não há comentários

Os comentários estão fechados

CADASTRE-SE NA NEWSLETTER

Send this to a friend