Abril 2019

A imagem escolhida para a capa desta edição carrega alguns sentidos. Nas mãos de dona Orídes, atingida de Bento Rodrigues, vemos marcas do tempo. Mas “o que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei. Se quero explicá-lo a quem me pede, não sei” – indagou, em certo momento, Santo Agostinho. Para os(as) atingidos(as), porém, estão claros os significados do substantivo tempo. A palavra representa um tempo bom e vivido em comunidade. Um tempo em que os costumes da roça eram hábitos diários, experimentados e compartilhados. Um tempo em que a religiosidade era colocada em prática, em que as procissões eram símbolos de fé. Um tempo em que as ruas das comunidades rurais se enchiam de tranquilidade, e em que os dias eram pacatos. As mãos agora estão à espera. Representam, também, uma parada brusca, e a estratégia que as empresas responsáveis pelo crime de 2015 tem utilizado para silenciar e desanimar.

No livro de Eclesiastes, há uma passagem em que se afirma que há tempo para tudo: tempo para nascer, tempo para morrer, tempo para plantar, e tempo para arrancar o que se plantou (Ecl 3:3). Mas que tempo é esse em que nós, atingidos(as), estamos? É um tempo de permanecer em comunidade, embora, há três anos, nosso convívio tenha sido separado pelo crime. É tempo de resistir, apesar das estratégias usadas para desmobilizar a coletividade. É tempo, também, de resgatar, partilhar, documentar e de manter vivas as tradições, os hábitos, a liturgia. A religiosidade, por exemplo, é um aspecto importante para muitos(as) moradores(as) das regiões atingidas. Em linhas gerais, “a palavra” revela a disposição que uma pessoa tem para pensar sobre questões sagradas. Falar sobre religiosidade inclui, ainda, ações e práticas, hábitos e ritos.

O Jornal A SIRENE, feito pelos(as) atingidos(as) e para os(as) atingidos(as), é um dos espaços no qual é possível não só preservar, mas registrar aquilo que não queremos esquecer.  Talvez possamos dar mais significados a esta da capa. É tempo de tomar fôlego, levantar, mexer as mãos, o corpo, e continuar na luta por aquilo que é nosso. É tempo de resgate e de vislumbrar o nosso retorno às comunidades. Deus julgará o justo e o ímpio, “porque há um tempo para todo o propósito e para toda obra” (Ecl 3:17). Enquanto a justiça divina não nos alcança, façamos valer a justiça dos homens, sustentando-nos não só na fé e na memória daquele tempo que passou, mas também na união e no trabalho coletivo, do agora e do daqui em diante.

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