Editorial (Novembro/2019)

Na capa, a justiça. Sempre ouvimos que os olhos dela são vendados para a imparcialidade. Em suas mãos, a balança afere de forma precisa. Mas, após quatros anos do crime da Samarco/Vale/BHP Billiton, não é essa justiça que nos foi revelada. A que conhecemos, no nosso dia a dia, se parece mais com a da capa. Um de seus olhos estão bem abertos, consegue enxergar as empresas que possuem grandes quantias de dinheiro e é para esse lado que a balança pende. Enquanto isso, o tempo escorre feito areia em suas mãos.

(Foto de capa: Joice Valverde)

Tudo o que nós mais queremos é ver as famílias reassentadas, adaptando-se aos espaços que poderão chamar de seus e podendo fazer as alterações no que bem quiserem, sentindo-se donas de seus lares. Mas tudo o que as mineradoras, por meio da Renova, fazem é nos enrolar. 

Quatro anos se passaram. Nós, atingidos(as), continuamos sem o reassentamento e tudo o que vemos é uma série de desmobilizações que vêm da Renova, das mineradoras e do próprio poder judiciário. Para se ter uma ideia, durante as audiências, são três advogados das mineradoras, e três advogados e dois assessores da Renova, que não são parte no processo, dividindo a mesa de audiência. Do nosso lado, está só o promotor, três representantes dos(as) atingidos(as) e dois da assessoria técnica. Somente os defensores das mineradoras podem falar, a nossa assessoria não pode defender o trabalho que fez conosco. Muitas vezes, saímos das audiências e das reuniões transtornados(as).

Até nossos(as) assessores(as) técnicos(as) sofrem com isso, constroem conosco as propostas com toda a capacidade técnica que eles têm, fazem pesquisas, buscam dados jurídicos para nos ajudar a defender nossas pauta diante da mesa de audiências, mas,  chegando lá, por vezes, são humilhados diante de muita gente.

Em alguns momentos, nas audiências, já nos deparamos com falas que nos incomodaram: “isso não é questão de justiça”, “nem leram a proposta, isso está fora de questão”, “não vamos discutir isso aqui, o que vocês estão pedindo é um absurdo, é querer um enriquecimento  ilícito”. O que queremos é bem simples, que se faça reparação de forma justa. Embora, o cansaço, muitas vezes, nos abata, continuaremos lutando por aquilo que é nosso por direito.

.

COMENTE

CADASTRE-SE NA NEWSLETTER

Send this to a friend