Editorial (Junho/2020)

“Eu costumo dizer, e vi muitas pessoas dizendo na época: ‘o que seria de nós se o rompimento tivesse sido à noite?’ Vejo essa pandemia como uma barragem que se rompe à noite. A gente não sabe de onde vem, como vem, só tem a noção da forma de contágio. Então a gente fica meio perdido, é como se tivesse uma barragem rompendo durante a noite, a gente no escuro, sem saber pra onde correr.” Foi assim que Mauro Silva, morador de Bento Rodrigues, definiu a pandemia de Covid-19. Essa forma de enxergar o novo coronavírus percorre o rio Doce e chega até o Espírito Santo. Para Luciana Souza de Oliveira, moradora de Regência, “ser atingido durante a pandemia é reviver todo o sofrimento de 2015. Nós não sabíamos de nada, sabíamos ter uma lama de rejeito, mas não sabíamos a real gravidade. É assim esse quadro da pandemia. A gente sabe que essa doença está aí, a gente está vendo os nossos colegas, pessoas conhecidas, vizinhos sendo contaminados”.

 Uma doença sobre a qual ainda sabemos pouco, mesmo assim, possui um efeito grande sobre as nossas vidas. Por proteção à nossa própria saúde e daqueles(as) que nos rodeiam, temos de reinventar algumas comemorações, como aconteceu no Dia das Mães, no mês passado. Nesta edição, você confere uma matéria com algumas mães que contam como foi essa data para elas. 

Mas não foi apenas esse momento que precisou ser adaptado, nosso calendário se tornou incerto. Junho, normalmente, é mês de festa junina. Época em que a comunidade atingida de Mariana costuma retornar aos seus territórios para demarcar seu espaço e sua existência por meio das celebrações religiosas, pois, nas comunidades atingidas, a fé e a ação são formas de luta e resistência. Por entendermos a importância dessas festas para a luta dos(as) atingidos(as), trouxemos, nesta edição, um ensaio que resgata os registros dessas festas que fizemos ao longo dos quatro anos.

Mas como compreendemos que as religiões são múltiplas, assim como as histórias e as demandas das pessoas atingidas. Por isso, na capa, trouxemos o Pai de Santo Adão Bento, morador de Barroca, que é garimpeiro tradicional. Esses profissionais, há tempos, escutam negativas às suas reivindicações. No entanto, a pandemia também traz urgências a essas questões.Nesta edição do Jornal A SIRENE, você lerá sobre as luta dos(as) atingidos(as), que resistem a esse momento de incertezas. Embora fisicamente separados, essa força é coletiva. Ainda nas palavras de Luciana Souza de Oliveira, “ser atingida é, sobretudo, também, se colocar como um sujeito que se vê no outro,  que busca força dentro de si, dentro do outro, para continuar sobrevivendo. Porque eu acho que é bem isso a palavra, ficar vivo, vivo e bem, vivo e com saúde”, reflete a atingida, moradora de Regência-ES.

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