Editorial (Agosto/2020)

Em julho de 2017, a população de Mariana ganhou um novo espaço de lazer: a Feira Noturna. O evento, que acontecia nas noites de quintas-feiras, foi uma idealização da Associação dos Atingidos pela Barragem de Fundão e firmado pelo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Há mais de quatro meses, a Feira Noturna teve suas atividades paralisadas devido às medidas de isolamento social. Nesse período, os produtores ficaram desamparados, sem apoio do poder público para repor a fonte de renda que era obtida com a Feira. A capa traz uma recordação da inauguração do evento; nela, Waldir Pollack e sua barraca de verduras. Hoje, a rotina não é mais a mesma e, como os outros produtores, ele luta para se manter.  

Algo que os(as) atingidos(as) sabem bem é que a garantia dos nossos direitos está sempre em disputa. Aquilo que foi conquistado, ao longo desses mais de quatro anos, aconteceu por meio de lutas exaustivas que consomem tempo, energia e saúde mental e física. Um processo longo e contínuo. Cada vitória é motivo de felicidade, mesmo assim, é preciso estar vigilante às tentativas de retrocessos, pois a forma como a máquina do sistema opera garante aos poderosos vantagens nessa arena. 

Em julho, a Renova anunciou o corte do Auxílio Financeiro Emergencial (AFE) para mais de sete mil pessoas. Um direito conquistado com esforço e que ainda não abarca todas as pessoas que deveria. A notícia foi recebida com espanto pelos(as) atingidos(as), principalmente pela justificativa da suspensão. A Renova alegou que os meios de produção e de sobrevivência dessas pessoas já estão recuperados. Atingidos(as) e aqueles(as) que convivem com essas pessoas sabem que essa não é a realidade. As comunidades atingidas não aceitaram essa imposição e conseguiram, judicialmente, reverter a decisão. Embora o AFE dessas pessoas agora esteja assegurado, elas passaram por momentos de estresse e medo de perdê-lo, uma situação desgastante que acompanha a vida dos(as) atingidos(as). 

Viver com medo não deveria ser algo natural, mas é a condição de quem vive próximo a barragens em situação de risco, uma realidade da população de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto. Os(As) moradores(as) do distrito exigem respostas para as dúvidas que a mineradora Vale cultiva. É inadmissível que a mineração continue, a qualquer custo, atropelando vidas, direitos e desrespeitando trabalhadores(as). Torna-se cansativo, para nós e para quem está na luta diária por um novo modelo de mineração, repetir as mesmas frases, tais como: o crime se renova, o crime se repete, o crime parece não ter fim. É exaustivo que precisemos reiterar, o tempo inteiro, o que todo mundo está vendo. É a Vale quem deveria se cansar de cometer as mesmas atrocidades de formas diferentes. Talvez, se a justiça fosse feita anos atrás, a mineração não tivesse o “passe livre” para matar civis inocentes e trabalhadores(as). 

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