Editorial (Setembro/2020)

Viver em comunidade é compartilhar afetos, da alegria à dor, é ver certos pontos da vida de forma semelhante àqueles que nos rodeiam. Quando olhamos para as comunidades atingidas, podemos perceber que cada pessoa é única em sua forma de ocupar o mundo, mas que cada morador(a) divide, com seus conterrâneos, modos de viver em comum. A forma de lidar com a terra, o jeito de ver o trabalho, a maneira de festejar são algumas dessas semelhanças. 

Os(As) atingidos(as) de Bento Rodrigues e de Paracatu possuíam uma forma comum de tratar os animais. Os bichos, por vezes, eram fonte de sustento, mas não eram vistos como meras mercadorias. Existia uma ligação de carinho estabelecida.  O rompimento da barragem de Fundão também atingiu essa relação. A crueldade do crime da Samarco/Vale/BHP Billiton Brasil vai além daquilo que se pode contar materialmente, estende-se para os afetos.

Com o rompimento, os animais de grande porte dos(as) atingidos(as) foram levados para fazendas. O elo com os bichos fazia com que os(as) donos(as) saíssem de suas casas e visitassem o sítio constantemente, até que a pandemia de Covid-19 impediu que isso fosse possível. Nesta edição, trouxemos como os(as) atingidos(as) têm lidado com esse afastamento. 

E não é só nessa questão que o novo coronavírus tem obrigado os(as) atingidos(as) a se adaptarem. O espaço digital também se transformou em lugar de luta. As comunidades atingidas se valem desse espaço para se organizarem e para protestarem, como ocorreu em agosto, quando atingidos(as) postaram fotos nas redes sociais com #ReparaçãoIntegral, no intuito de mostrar que seguiam juntos pela reparação integral. Nosso ensaio fotográfico mostra algumas dessas imagens e explica os motivos do protesto.

Também é possível ler, em nossas páginas, os avanços dos dados em relação à Matriz de Danos, tanto em Mariana quanto em Barra Longa, uma importante ferramenta de valoração das perdas materiais dos(as) atingidos(as), assim como daquelas imateriais. Embora nenhum dinheiro possa restaurar a relação perdida com os rios, as conversas nas calçadas com os(as) vizinhos(as) ou, até mesmo, o cuidado com os animais, a reparação de todos os danos causados é um direito dos(as) atingidos(as).  

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