Editorial (Outubro/2020)

As crianças e a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, dividem o mesmo dia de comemoração, 12 de outubro. Nossa Senhora Aparecida é um símbolo de fé, de descanso na certeza que as preces sobre as injustiças serão ouvidas e atendidas. Já as crianças são conhecidas por não se contentarem com as respostas óbvias dos adultos, são fortes, cheias de energia. 

A teimosia infantil em não aceitar as velhas explicações dos adultos nos ensina muito. Na sociedade em que vivemos, os poderes são ordenados para não serem questionados. Quando alguém ousa desrespeitar essa regra não escrita, a balança costuma pesar para o lado das pessoas poderosas. Não aceitar aquilo que nos é imposto exige força e determinação.

Não é fácil lutar contra a forma como as grandes instituições enxergam o mundo e que, muitas vezes, violam nossos direitos, passam por cima de nossas vontades. Porém é possível passar pelas brechas dessas forças que ordenam o sistema e sermos ouvidos(as), exigir que os(as) mais fracos(as) nesse jogo de forças sejam atendidos(as). É essa certeza de que as injustiças podem ser consertadas que impulsiona a luta.

Os(As) atingidos(as) pelo rompimento da barragem de Fundão carregam essa dualidade do dia 12. São quatro anos e 11 meses lutando contra grandes poderes econômicos com a mesma certeza das crianças, de que as respostas dadas pelas mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton podem e devem ser questionadas. E, quando o cansaço, natural de nossa humanidade, aparece, é a fé de que o crime não ficará impune que dá força para que a luta continue.     

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