Olhares de fora

Por Marcos Muniz e Simária Quintão

Com o apoio de Ananda Martins, Edson Bessa e Flávio Ribeiro

O rompimento da Barragem de Fundão repercute não só no dia a dia dos(as) atingidos(as), mas também em espaços de estudos. Em um primeiro momento, a chegada de muitos(as) pesquisadores(as) costuma assustar e gerar desconfiança: essas pesquisas vão servir para nós? Quais os interesses desse pessoal? Mesmo assim e, por mais que tenham que vencer o cansaço de tantos outros afazeres, os(as) atingidos(as) sabem da importância de que suas denúncias, histórias e sonhos sejam ouvidos e entendidos. Além disso, alguns resultados dessas pesquisas científicas, quando há retorno, servem como provas e, assim, ajudam na busca por justiça.

Exposição sobre o desastre/crime na Bacia do Rio Doce integrou parte dos projetos da pesquisadora Ananda Martins. (Foto: Ananda Martins/Divulgação)

“Em uma de minhas visitas a Bento Rodrigues, caminhei pelas ruas da comunidade com o Marcos Muniz. Após passarmos pelas casas dos seus vizinhos, pela praça e pelas laterais da igreja de São Bento, alcançamos um grande volume de água represada pelo Dique S4. Sobre a paisagem de água, Marquinhos me apontou cada cômodo da sua casa e o local de suas plantações, agora submerso. Antes de irmos embora, ele me mostrou, com o celular, imagens da casa que era sua antes da lama chegar, quando, imediatamente, se corrigiu: ‘Essa casa ainda é minha’. A conversa com o Marquinhos e com outros moradores durante minha pesquisa de mestrado fizeram com que eu percebesse que a relação dos atingidos com seus espaços construiu suas memórias e seus modos de vida. Hoje, o desastre continua por meio de uma série de violações de direitos e revela as forças desiguais de poder que existem em nossa sociedade. Nesse sentido, cabe aos(às) pesquisadores(as) construírem, com os(as) atingidos(as), caminhos para que as pesquisas saiam das bibliotecas e cheguem até as comunidades e, assim, possam ser ferramentas para a luta por justiça. Sou muito grata aos(às) atingidos(as) pela confiança e hospitalidade, e por terem compartilhado comigo momentos de suas vidas.”  

Ananda Martins, mestre em Urbanismo e graduada em Psicologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

“Eu vejo que a participação das universidades é de grande importância para nós. Nós temos que receber de braços abertos e agradecer muito a essas pessoas que estão nos ajudando. Fazer o possível para estarmos juntos, porque senão nós estamos perdidos. Quando eles chegam, a gente fica com o pé atrás, com um pouco de medo, mas procuramos nos informar melhor se eles estão do nosso lado ou do lado das empresas. Acho que alguma contribuição que poderiam fazer seria com relação ao patrimônio, à preservação de Bento Rodrigues, para que ali não vire uma barragem e que sirva de memorial, um ponto de visitação e aprendizado.”

Marcos Muniz, morador de Bento Rodrigues

“Vários fatores tendem a classificar o rompimento da Barragem de Fundão como um crime, especialmente devido aos fatos históricos contados por quem sempre viveu em Bento Rodrigues. Daí a importância de conversar com aqueles que entendem as mudanças na comunidade como um plano para as mineradoras, durante muitos anos, para tomarem todas as terras de Bento e juntarem às barragens de rejeitos. A conversa com a moradora Simária e o morador Mauricélio me mostraram questões que deverão ser parte central da pesquisa, que tenta entender os conflitos de uma “tragédia anunciada” a partir dos relatos e denúncias. Eles me revelaram, durante a conversa sobre fatos da história de Bento, que o rompimento da Barragem era possível de ocorrer a qualquer momento, e que a construção dos Diques S3 e S4 comprovam a ganância da Samarco em ter as terras da comunidade. Percebi por suas falas como conhecer bem o lugar onde as pessoas vivem e onde elas criam seus laços pode ser importante para entender o poder das mineradoras diante das comunidades. Conhecer a história de Bento, e acima de tudo suas transformações, só é possível a partir da sabedoria de fala dos(as) moradores(as), que toca a nós pesquisadores, por conta da sensibilidade dos relatos, mesmo em uma situação de desastre/crime. Sempre irei agradecer pela oportunidade de conhecer as histórias de pessoas como Simária e Mauricélio.

Edson Bessa, mestre em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB)

“A conversa com o pesquisador estava sendo importante para ele, mas pra mim também. Se a pesquisa mostrar a história como a gente contou, será importante para as pessoas que não estão aqui conhecerem a verdade, através de quem vive a realidade e não através da empresa. Se a pesquisa fosse feita com a Renova/Samarco/Vale/BHP ia ter só o lado ‘bom’ que elas querem mostrar. É necessário que as pessoas de fora saibam da realidade, porque a gente não tem os mecanismos que a fundação/empresas têm, por exemplo, para fazer marketing por meio dos veículos de comunicação, de internet e tudo mais. Nós somos a parte mais fraca e o que nos resta é receber esses pesquisadores e mostrá-los o que vivemos. Se os pesquisadores levarem a verdade da maneira que contamos, nos ajudam a desmascarar a Renova/Samarco. Porém, às vezes, não vemos o retorno das pesquisas e reportagens. Não queremos esse retorno para saber se ficou bom ou não, se ganhou algo ou não, mas para saber se retratou as coisas como elas são de verdade, porque, quando isso acontece, é o que mais importa para nós.”

Simária Quintão, moradora de Bento Rodrigues

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