Resultado da nossa luta

Por Ana Paula Carneiro, Arlinda da Silva, Angélica Peixoto, Izolina Isaías, Luzia Queiroz e Romeu Geraldo

Com o apoio de Flávio Ribeiro, Ludmila Guimarães e Sônia Sartori

Imagens: Flávio Ribeiro / Edição: Eduardo Moreira

Após quase um ano de luta, a comunidade de Paracatu de Baixo conseguiu que as crianças e adolescentes atingidos(as) fossem transferidos(as) para uma escola mais adequada, no centro de Mariana. Inaugurada no dia 20 de agosto, a conquista só foi possível porque os(as) moradores(as) reivindicaram que a Fundação Renova/Samarco fizesse a mudança de local. Após o rompimento da Barragem de Fundão, 47 alunos, de 4 a 16 anos, passaram a estudar no bairro Morro Santana (Gogô), distante dos locais onde estão morando.

“Em novembro de 2017, a Renova/Samarco, a Assessoria Técnica e a Comissão foram convocadas no Centro de Convenções e lá apresentamos as demandas. Fomos nos GT’s falando que, se tinha gente reclamando demais, tinha coisa errada. Fizemos também uma reunião geral dos pais e mães, porque, às vezes, as crianças adoeciam e não tinha ônibus pra ir buscar, e aí os pais tinham que pagar táxi.”

Luzia Queiroz, representante da Comissão de Paracatu de Baixo

“Em todos os GTs (Grupos de Trabalho) de Paracatu, sempre pedíamos melhorias nas condições da escola no Gogô, e a Renova/Samarco sempre dizia que eles estavam procurando um novo local, e nunca que achavam esse lugar. O pessoal cansou de tanto esperar e falou assim: ‘Então a gente vai achar um local’. Selecionaram as casas, foram à imobiliária, pegaram as chaves e olharam vários imóveis na cidade.”

Ludmila Guimarães, arquiteta colaboradora da comunidade

“Procuramos outra escola porque a antiga estava ruim. Molhava tudo e também estava longe. As crianças estavam descontentes, porque a realidade de Paracatu era muito diferente da escola em que elas estavam. O espaço ali parecia muito provisório pra elas.”

Arlinda da Silva e Luzia Queiroz, moradoras de Paracatu de Baixo

“Se o espaço em que as crianças estavam era tão bom como a Renova/Samarco dizia, por que a Prefeitura também mudou os alunos da cidade antes disso tudo? A Prefeitura fez outra escola e deixou aquela lá, porque ela não servia. E aí a Renova/Samarco pegou as crianças de Paracatu e colocou elas lá nessa escola.”

Romeu Geraldo, morador de Paracatu de Baixo

“A gente saiu, como se diz, de porta em porta, rua em rua, procurando um novo lugar para as crianças. A gente sabia que não ia achar uma escola, mas queríamos, pelo menos, um lugar com um pouquinho de proteção para os meninos. Foram muitos dias andando até que a gente conseguiu esse novo local mais perto do centro, e a maioria dos pais e mães gostou.”

Ana Paula Carneiro, moradora de Paracatu de Baixo

Portas de algumas salas possuem indicações ilustradas. (Foto: Flávio Ribeiro/Jornal A Sirene)
(Foto: Flávio Ribeiro/Jornal A Sirene)

Recriar laços

Como a reparação dos modos de vida dessas crianças e adolescentes é uma necessidade e um dever das causadoras dos danos, estudar em um local mais perto de onde estão vivendo significa também diminuir as distâncias dos laços que foram rompidos quando tiveram que se mudar para Mariana.

“A gente tem que ser solidários uns aos outros. Os alunos estão passando por uma situação bem complicada e às vezes acaba que a gente também pega um pouco dessas questões, em especial os professores que são de Paracatu. Eles vem, contam com o apoio da gente e aí a gente corre atrás. Acho que a partir de hoje a comunidade vai ficar mais satisfeita sobre a escola e esperamos que os alunos fiquem mais perto dos sonhos que possam estar passando pela cabecinha deles, porque às vezes eles não falam sobre isso também.”

Sônia Sartori, diretora da escola de Paracatu de Baixo

“Demorou, porque dois anos já se passaram. Mas as crianças ficando mais unidas ajuda na educação delas, porque aqui fica mais no centro.”

Izolina Isaías, moradora de Paracatu de Baixo

“Os meninos vão voltar a ver uns aos outros, vai voltar o entrosamento. Na hora de vir para escola, um encontra com o outro, dá um oi. Aqui também tem o campo de futebol pertinho e isso vai começar a ocupar a cabeça e motivar eles.”

Luzia Queiroz, representante da Comissão de Paracatu de Baixo

“Essa nova escola dá a dimensão, para essas crianças, de que a luta ainda não está encerrada e que esse local é apenas um recomeço. Lá, no outro espaço, acho que a barreira mais visível era a da identidade da gente. Como era em um bairro afastado, ficava ainda mais difícil para nós nos reconhecermos, mas o que sempre colocamos era que estávamos juntos. Manter os mesmos professores com as crianças nesse apoio foi muito importante. O que deve ser levado, daqui pra frente, é que devemos nos unir. Tanto nós, professores, estamos nos apoiando, quanto as crianças também nos apoiam, porque, quando você olha para elas, você tem a certeza de que vale a pena, que a gente precisa seguir e ser forte. Precisamos lutar para que elas possam ter um futuro tranquilo, já que o presente anda tão turbulento.”

Angélica Peixoto, moradora e professora da escola de Paracatu de Baixo

“A luta agora é conseguirmos o tempo integral, principalmente para as mães que trabalham e poderiam deixar os filhos na escola. Hoje, como não tem onde deixar, muitas estão em casa, desempregadas. Lá em Paracatu, a gente tinha tempo integral, e os meninos brincavam, tinham aula de dança e arte, e agora eles ficam mais em casa sem ter o que fazer. Agora é televisão, telefone, não tem espaço pra brincar. E a rua é perigosa.”

Arlinda da Silva e Ana Paula Carneiro, moradoras de Paracatu de Baixo

A nova escola provisória de Paracatu de Baixo foi instalada no térreo de um sobrado localizado na região central de Mariana. (Foto: Flávio Ribeiro/Jornal A Sirene)

Apoio psicológico e pedagógico

Assim como a escola provisória de Bento Rodrigues, também localizada em Mariana, a escola de Paracatu de Baixo será auxiliada pela equipe ‘Compreender’, que fará parte da reformulação do projeto pedagógico, necessário para o pós-rompimento. Já o suporte psicológico e fisioterapêutico é realizado com o apoio da equipe ‘Crescer’.

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