“Barreiras, nosso lugar, atingido”

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“Barreiras, nosso lugar, atingido”

No norte do Espírito Santo, comunidade de Barreiras denuncia a diminuição dos peixes e problemas de saúde após a chegada da lama de rejeitos. Foto: Daniela Felix/Jornal A Sirene

“Barreiras, nosso lugar, atingido”

No norte do Espírito Santo, comunidade de Barreiras denuncia a diminuição dos peixes e problemas de saúde após a chegada da lama de rejeitos. Foto: Daniela Felix/Jornal A Sirene

“Barreiras, nosso lugar, atingido”

No norte do Espírito Santo, comunidade de Barreiras denuncia a diminuição dos peixes e problemas de saúde após a chegada da lama de rejeitos. Foto: Daniela Felix/Jornal A Sirene

“Barreiras, nosso lugar, atingido”

No norte do Espírito Santo, comunidade de Barreiras denuncia a diminuição dos peixes e problemas de saúde após a chegada da lama de rejeitos. Foto: Daniela Felix/Jornal A Sirene

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No norte do Espírito Santo, comunidade de Barreiras denuncia a diminuição dos peixes e problemas de saúde após a chegada da lama de rejeitos. Foto: Daniela Felix/Jornal A Sirene

“Barreiras, nosso lugar, atingido”

No norte do Espírito Santo, comunidade de Barreiras denuncia a diminuição dos peixes e problemas de saúde após a chegada da lama de rejeitos. Foto: Daniela Felix/Jornal A Sirene

“Barreiras, nosso lugar, atingido”
No norte do Espírito Santo, comunidade de Barreiras denuncia a diminuição dos peixes e problemas de saúde após a chegada da lama de rejeitos. Foto: Daniela Felix/Jornal A Sirene

“Barreiras, nosso lugar, atingido”

No norte do Espírito Santo, comunidade de Barreiras denuncia a diminuição dos peixes e problemas de saúde após a chegada da lama de rejeitos. Foto: Daniela Felix/Jornal A Sirene

“Barreiras, nosso lugar, atingido”

No norte do Espírito Santo, comunidade de Barreiras denuncia a diminuição dos peixes e problemas de saúde após a chegada da lama de rejeitos. Foto: Daniela Felix/Jornal A Sirene

Por atingidos e atingidas de Barreiras

Com o apoio de Rafael Drumond e imagens de Daniela Felix

Especial para o Jornal A Sirene*

Nosso lugar, onde moramos, é ribeirinho e foi prejudicado. De primeiro, os pescadores tinham fartura de peixe. Agora, depois que aconteceu esse negócio dessa lama aí, esse problema, a maioria dos peixes sumiram. Hoje, a gente conta os peixes que pega. Encontramos muito peixe morto, boiando. No rio, no mangue, na praia.

No começo de 2016, você colocava uma rede, caceava, era uma fartura. Era só mariscão. A gente botava a rede, vinham 10, 15 caranguejos. Hoje, a gente trabalha a noite toda e não pega nada. Tarrafa direito e nada. Dorme no rio e quando vai levantar a rede no outro dia, nada. Caranguejo, Siri, Carapeba, Rolabo, Sururu, Ostra, Cangoá – tudo atingido. Agora a coisa mais difícil que tem é ver uma Cangoá pular.

A água? Ficou barrenta, amarela, com cheiro forte. Aquele limo, aquela nata branca, uma catinga podre. Aquele lôdo. Aquele mal cheiro que se você não for forte, vomita. Tem um ‘minervo’, um veneno brabo lá, que deixa a pele da gente cheia de ferida. As crianças estavam pegando coceira. Você chega em casa e tem que tomar banho porque não aguenta de tanto coçar. Passa um álcool com citronela, o nome do remédio. É só por no vasilhão de refrigerante e deixar curtindo por uns dias, depois passa no corpo pra matar as bactérias brabas. E tem muita gente com diarreia, mas não sabemos se é por causa do peixe. Eu, olha pra você ver, tô com alergia aqui no ombro, justamente, onde ponho a rede que fica na lama. Tô passando pomada, mas nunca tive isso antes, não.

Não é mais o peixe que era o peixe do nosso lugar. O importante é ter peixe na panela, mas nem isso tem. A gente, pescador, fica com medo de comer, mas é o jeito da gente, né? A gente come aquele produto porque a gente nasceu e se criou assim. Agora, mesmo quando a gente se alimenta, fica aquela cisma. Não tem mais aquele gosto de peixe.

Dificuldade, meu filho. A maioria não tem emprego fixo, vive disso aqui mesmo. Vivemos da pesca e do mangue. Antes a renda nossa era 1500, 2000 reais por mês. Agora, a gente num tira nem 200, 300 … nem R$100, quanto mais R$300. Ninguém quer comprar o pouco peixe que tem porque sabe que está contaminado. Tá todo mundo vendendo o que tem pra sobreviver – uma rede, um freezer. No comércio local tá tudo fechando. Antes, na época do peixe, vinha comprador pra cá, o movimento era bom: pessoal de São Mateus, Guriri, Vitória. Fora o turista que essa lama afastou.

A situação do pescador tá precária e a gente não tem ajuda. O seguro-desemprego que a gente recebe na época do defeso, que é o período de proibição da pesca, não mantém a família. Nesse período, eles cortam nossa Bolsa Família. E as contas são muitas, energia tá um absurdo, e a gente tem criança pequena.

A gente foi numa reunião e não entendeu nada. Era advogado brigando com advogado. Não recebemos nada ainda e já tem gente em cima da gente. Falaram que o dinheiro ia sair mais rápido com eles. Muitos fizeram, outros não. A verdade é que ninguém procura nada pela gente. Eles falam que a gente tem que ter carteirinha, mas não somos valorizados. Como é que a gente vai fazer? A sobrevivência daqui é o mangue e o rio. Por isso somos atingidos. A gente está aqui para reclamar disso aí. A gente quer resposta.

“A reunião”

Ouvimos os relatos acima numa tarde em que estivemos na comunidade de Barreiras, município de Conceição da Barra, norte do Espírito Santo. Para chegarmos lá, cruzamos o rio Cricaré no barco de Antônio – pescador desde criança e, naquele dia, repórter popular do Jornal A Sirene.

Ainda na travessia de ida, Antônio parou para conversarmos com as poucas pescadoras e marisqueiras que apostavam na captura de algum caranguejo. Juraci, a primeira delas, revelava, na pronúncia baixa do nome e no olhar cabisbaixo, uma sensível timidez. Era nosso repórter-guia que respondia às perguntas que fazíamos a ela. “Levanta a rede aí pra eles filmarem”, pediu Antônio, conduzindo o barco e as gravações.

Um recipiente de amaciante vazio, boiando sobre a água, sinalizava o ponto na superfície por onde a rede poderia ser suspensa. De forma habilidosa, Juraci puxou um fio de alguns metros até chegar numa armação onde um caranguejo havia se feito presa. A senhora, mãe de sete filhos, pega o marisco e põe num balde, coberto com capricho por um pano colorido. A operação, repetida em outro ponto, não teve semelhante “sucesso”. De um terceiro amaciante, sai um siri pequeno, “difícil de desfiar”, salvo pela pouca idade.

Mais à frente, conhecemos Sandra e Benedita. Estavam na água desde às sete da manhã. Naquela altura, já passavam das três da tarde. Mais vigorosas, as pescadoras mostraram os poucos peixes que pegaram – que, à distância, sequer avistamos; apenas entendemos não refletirem os esforços e a jornada de trabalho do dia: “Estamos querendo ir embora. A água já salgou, tá muito amarela. Assim, eles quase não veem a isca”.

– Vai ter uma reunião com o pessoal lá. Se vocês quiserem ir. – convidou Antônio.

– Que dia? – perguntou Sandra.

– Agora.

– Vai ser aonde?

– Na praça. Aí alguém de vocês passa ali e já avisa.

– Reunião, que reunião? – entramos na conversa, imaginando que teríamos a oportunidade de acompanhar as atingidas e os atingidos em algum encontro decisivo.

– Na praça, com vocês. – respondeu Antônio, nosso guia, repórter, diretor e, agora, produtor.

– Porque, assim, o essencial eles já viram. Lá, eles vão fazer umas perguntas e vocês vão responder conforme o dia a dia. – explicou.

A reunião era com a gente. Aportamos e, em pouco minutos, caminhávamos pela comunidade junto ao aviso “vai ter reunião na praça”, “pessoal, chega aqui na praça. Vai ter reunião”, “chama a Joseana, Luana”…

De repente, estávamos entre mais de 60 pessoas. Seus relatos compõe a primeira parte desse texto, as fotos e o vídeo que registram a presença de seus corpos e vozes. Havia naquele grupo uma urgência e uma impressionante necessidade em dizer. Para nós, acostumados a ver a câmera ser tratada com desconfiança, foi surpreendente testemunhar a relação que aquelas pessoas tinham com as lentes: uma espécie de salvação, de último recurso, de esperança.

Antônio, como bom repórter, saiu de cena e deu à palavra aos moradores de Barreiras e Meleiras – comunidade vizinha que passa por situação semelhante com a contaminação do rio. Para eles, o problema não é só a crise econômica deflagrada pela ausência ou pela mortandade dos peixes, mas também a crise de segurança alimentar e os problemas de saúde decorrentes do contato com as águas contaminadas.

O rio Cricaré não pertence à bacia do Rio Doce, mas, por desaguar na boca da Barra da Conceição, onde encontra o mar, foi atingido pela água salgada que, a depender dos ventos e das baixas do rio, avança pela planície costeira.

Barreiras é mais uma das comunidades tradicionais capixabas atingidas pelos rejeitos da Samarco. É um pedaço bonito de terra, costurado por um rio e uma vegetação que inundam os olhos de natureza. Lá, a terra fica um pouco elevada em relação ao nível da água, formando uma espécie de barreira, de banco de areia, que, devagarzinho, vem sendo “comido” pelo próprio rio – como nos explicou Antônio.

É nessa beirada de mundo, de peixes um dia fartos, que, trazendo muita tristeza, a lama da Samarco chegou.

O sentimento de perda e de lamento ganha força em um último registro. “Quando acabarmos essa conversa aqui, queríamos fazer uma foto com todo mundo que participou da reunião, pode ser?”. Pedido feito e aceito, todos se organizam em fileiras para o retrato. Enquanto esperavam o clique, o sorriso, automático, é suspenso por alguém que convoca a seriedade de todos. Pedido feito, pedido aceito.

*Daniela Felix e Rafael Drumond são colaboradores do jornal A Sirene e, atualmente, participam de uma viagem por regiões atingidas pelo rompimento da Barragem de Fundão, em Minas Gerais e no Espírito Santo.

* * A Fundação Renova informou aos moradores de Barreiras que o cadastramento dos atingidos da localidade será iniciado até o dia 30 de junho. No momento em que estivemos na região, a Fundação fez suas primeiras reuniões com os atingidos do munícipio de Conceição da Barra – 2 anos e cinco meses após o rompimento de Fundão.

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