Em Conceição da Barra, última cidade do litoral norte do Espírito Santo, conhecemos Maria Auxiliadora. Mãe de sete filhos, Maria criou a família sem a ajuda do marido, que a abandonou ainda jovem. Pescadora por ofício, transformou as dificuldades em trabalho duro e, do mar, retirou o necessário para o sustento de sua casa.

Maria conta os desafios da vida de pescadora: “quando o menino cai na água, não adianta apavorar, você tem que esperar ele boiar pra catar ele de volta pro barco”. Lembra, com tristeza, da filha de 2 anos que perdeu para a força das águas: a criança morreu afogada enquanto se banhava no rio com os irmãos mais velhos - tragédia que fez Maria abandonar a comunidade de Meleiras e se mudar para a sede do município. “Nunca mais voltei”, atesta, com firmeza, o método contra a dor.

Não me pede para cozinhar que eu não sei. Sei pescar. É o que sempre fizMaria Auxiliadora, pescadora, moradora de Conceição da Barra

FAMÍLIA DE PESCADORES Maria Auxiliadora garantiu o sustento de seus filhos com a venda de peixes e frutos do mar.

Maria, seus filhos e netos dependem quase exclusivamente da pesca. Assim como eles, milhares de pescadores e pescadoras capixabas foram prejudicados pela chegada da lama de rejeitos da Samarco ao litoral do Espírito Santo.

Para essas pessoas, o desastre não lhes retirou apenas condições de trabalho, mas atingiu todo um modo de vida. Isto porque ser pescador é saber o mundo de um determinado jeito. Pescador é meteorologista formado pela experiência; conhecedor das características próprias de cada espécie de peixe, da utilidade de cada ferramenta pesqueira, do significado de cada toada de vento. São saberes que se mesclam ao cheiro do mar e do mangue, às cores refletidas pelas águas em cada hora do dia, à beleza do rio percorrido no ir e vir do trabalho.

Pescador tem o ofício marcado no corpo; peles - pretas na maioria - que se douram com o sol de todos os dias, por muitos anos; mãos calejadas, hábeis no manejo de cordas. São pessoas que dependem do pescado não só para geração de renda, mas, principalmente, como base da alimentação diária. Hoje, com a permanência dos rejeitos no Rio Doce e em ampla faixa costeira do Espírito Santo, comer o peixe todos os dias significa incertezas, riscos e medo.

Como ouvimos do pescador João dos Santos, de Bom Jesus de Ferrugem, comunidade de São Mateus, “a água une a gente”. É através - e por causa - das redes hídricas que pessoas e territórios são costurados; pelas quais são criados vínculos de pertencimento social e cultural a determinadas porções de terra. E nessa energia, que ao longo dos séculos tem conectado tradições e costumes e desenhado histórias de ocupação territorial, a lama da Samarco encontrou sua rota para destruição.
Os rejeitos que chegaram pelo rio foram despejados no mar, que tentou recusar o que não lhe pertencia. Assim, encontram-se depositados não apenas no berço do desastre e ao longo da calha do Doce, mas também no fundo do oceano. Resíduo brabo que é, não se mistura à água, formando um colóide que deixa o mar mais ou menos marrom de acordo com sua agitação. A devolutiva do mar tem provocado sérios desequilíbrios nos ecossistemas, desde os mangues litorâneos até as bocas de outros rios existentes ao longo da costa.

Desde o dia que chegou aquela lama, nossa comunidade nunca mais teve sossego. Daí para frente, os problemas só aumentaram. Todo nosso ecossistema foi danificado, nossa natureza está contaminada, não sabemos até quando teremos que conviver com issoSimião Barbosa, construtor de barcos e pescador de Povoação, distrito de Linhares

A contaminação da água foi, no tempo próprio da lama, corroendo a cadeia ecológica existente na região. Os atingidos e atingidas relatam que a quantidade e variedade de peixes diminuiu significativamente após a chegada dos rejeitos. Hoje, a captura de espécies com anomalias ou até mesmo sem vida se tornou comum. Para alguns, o sabor do pescado não é mais o mesmo.

A água, particularmente a dos rios, passou a cheirar mal. Muitos manguezais, um dos principais biomas do país, morreram: deles, restam apenas árvores secas, uma coloração terrosa incomum - tom de marrom ferrugem -,  poucos ou nenhum caranguejo e siri. Sem peixes para se alimentar, as aves litorâneas também foram atingidas, assim como todos os seres vivos que dependem do rio para saciar a sede.

IMPACTO AMBIENTAL Mangue localizado na comunidade de Campo Grande, no município de São Mateus, destruído pela lama de rejeitos.

Apesar da devastação provocada pelo crime, a beleza natural do litoral capixaba resiste. Na região, é comum o campo de visão se perder nas longas faixas de praia, no descampado da planície costeira e na linha sem fim do oceano. É nessa paisagem que, carregado de rejeitos, o Doce continua seguindo seu caminhar de rio. É lá que, após longo percurso, ele se entrega, pesado, à imensidão de tudo.

Nas palavras de Dorival, “é doce morrer no mar”. Ainda é. Apesar de.

Aquele dia, desde então

Tarde de quinta-feira, 2015, 5 de novembro.

Uma barragem de minério de ferro rompe em Mariana, Minas Gerais. Toneladas de rejeitos de mineração são liberados no meio ambiente. Resíduos mais ou menos sólidos de uma barragem encontram a água de outra. Uma onda de lama e rejeitos inicia um curso de destruição ao longo da Bacia do Rio Doce.

Em Mariana, o rompimento despeja uma avalanche de lama sobre pequenos povoados rurais e atravessa o relevo acidentado da região, destruindo o que se põe em seu caminho.

O primeiro curso d’água encontrado é o Rio Gualaxo do Norte, afluente da Bacia do Rio Doce: um rio miúdo, de margens estreitas demais para canalizar a lama que desce da barragem.

Rumo ao Ribeirão do Carmo e, posteriormente, ao Rio Doce, a lama leva adiante sua rota de destruição; parte dos rejeitos fica depositado às margens dos cursos d’água agora, assoreados e sem vida. Os rios, sem oxigênio, veem seus peixes e outros organismos morrerem por asfixia; destino semelhante aos animais que não conseguem correr dos rejeitos.

À medida que os quilômetros passam, a velocidade da lama diminui. Em estado de espera, habitantes de diversos pontos da Bacia aguardam a inevitável chegada da lama: em Governador Valadares, 100 remadores, em silêncio, fazem um último passeio pelo rio ainda não contaminado; em Resplendor, os índios Krenaks recebem, com cânticos e lágrimas, a corrente de rejeitos que chega para tirar a vida de Watú - entidade sagrada do rio. Em Regência, moradores banham-se, pela última vez, nas águas meio doce, meio salgada da foz.

Três anos depois e a lama ainda corre pelo rio, escoando no Oceano Atlântico. O rompimento é um fato presente: um desastre contínuo, de responsabilidade cível e criminal das empresas Samarco, Vale e BHP Billiton.

O DESASTRE EM NÚMEROS

19

mortes, 1 aborto, 1 corpo não localizado

11

toneladas de peixes mortos

43

municípios atingidos (pelo menos outros 5 municípios pleiteiam reconhecimento)

48,3

milhões de metros cúbicos de rejeitos liberados

500

moradias destruídas

650

quilômetros de destruição ao longo da bacia do Rio Doce

Fontes: Relatório Ramboll 2017 e Comitê Interfederativo

Jornalistas responsáveis: Daniela Felix e Rafael Drumond Texto: Rafael Drumond Imagens: Daniela Felix Edição de vídeo: Larissa Pinto / Web Design: Flávio Ribeiro Arte e Diagramação (versão impressa): Talita Aquino Orientação: Leonardo Sakamoto

Jornal A Sirene - Jornalista responsável: Silmara Filgueiras

Projeto realizado com recursos aprovados em edital de Jornalismo Investigativo. Fundo Brasil de Direitos Humanos

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