A ocupação da Bacia do Rio Doce pelos índios botocudos resiste frente a uma história de dizimação secular. Desde os Krenak - viventes do meio rio -, até os Tupinikim e os Guarani - aldeados em Aracruz, ao sul da foz -, a herança indigenista dessa porção de Brasil vive em luta pela sobrevivência de seus costumes e tradições.

Na lida com as duras consequências do desastre, a resistência indígena conta com a força e inspiração da experiência Krenak - povo que, há décadas, busca a demarcação integral de seu território sagrado. Para eles, não existe diálogo com a recém-criada Fundação Renova - apesar da pressão, inclusive da Funai (Fundação Nacional do Índio), pelo ingresso da organização no território indígena. Até o momento, os Krenaks negociam a reparação diretamente com a Vale.

No Espírito Santo, as tribos de Aracruz e a comunidade de Degredo, em Linhares - esta última reconhecida como território quilombola pela Fundação Palmares desde 2016 - recebem uma atenção específica por parte da Renova; relação diretamente fiscalizada pela Câmara Técnica “Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais” - uma das 11 câmaras temáticas que compõem o Comitê Interfederativo (CIF).

Em Degredo, a Fundação Renova, via terceirizada - a empresa Herkenhoff & Prates -, produziu um estudo do componente quilombola da comunidade. O mesmo trabalho não foi realizado com outras populações atingidas que também possuem tal herança, como grupos localizados em Conceição da Barra, no norte do Espírito Santo.

Lucilene de Jesus, membro da Comissão de Atingidos e Atingidas de Degredo, relata as mudanças provocadas pelos rejeitos na comunidade: “Aqui era um paraíso, um lugar tranquilo. Pescar era a nossa vida. Tanto que a gente nem chamava de trabalho. Todo mundo se encontrava no mar, mas se você for lá agora, não vai achar ninguém. Depois da proibição da pesca por causa da lama, cada um teve que seguir seu rumo. Muitos foram pra cidade em busca de emprego e estão passando dificuldades por isso. As pessoas, que eram acostumadas a viver aqui, foram forçadas a sair, a deixar seus costumes e seus modos de viver.”

 COMUNIDADE QUILOMBOLA DE DEGREDO A chegada da lama provocou mudanças nas relações entre os moradores e moradoras.

Em relação às indenizações, indígenas e quilombolas não são, necessariamente, discriminados no processo de reparação; ao contrário, estes grupos são atendidos por políticas específicas, já que são sujeitos de direitos diferenciados garantidos pela Constituição Federal Brasileira de 1988. O que não quer dizer que estas políticas sejam eficientes ou benéficas, sobretudo quando se considera os efeitos da monetarização em culturas tradicionais.

No campo, ouvimos relatos de problemas na autogestão dos recursos repassados pela Fundação aos cacicados - reclamações sobre a não distribuição do dinheiro entre à totalidade das famílias indígenas. Já no caso de Degredo, o problema foi a ausência de uma estrutura comunitária que pudesse receber e gerir o montante destinado à comunidade, situação que acabou por gerar conflitos de representação entre os moradores do local.

Contudo, quando se pensa nessas comunidades, o olhar que nos toca escapa à dimensão técnica do tema - um campo, sem dúvida, instigante, alimentado por matrizes científicas que discutem, por exemplo, as especificidades dos protocolos de consulta a povos tradicionais. Especificamente sobre a experiência indígena no contexto do desastre, narramos uma experiência marcante em nossa passagem pelo Espírito Santo: o caso de Areal, comunidade próxima à Regência, onde está localizada a foz do Rio Doce.

Lá, conhecemos Gleuza e seu irmão, José. Fisicamente falando, a herança indígena era inegável na dupla: o tom de pele, o tipo de cabelo, o formato e a cor dos olhos.

Primeiro, os irmãos nos contaram sobre a dizimação de seus antepassados - um processo de extermínio físico e de supressão de memória: a eles, foi ensinado, em casa e na escola, o ódio contra o indígena, colocado como ser inferior, preguiçoso, ruim. A história é contada com pesar, mas não se repete. Ao contrário, o que testemunhamos é a associação tida como ofensa transformar-se em verdade ancestral, força que já habitava os corpos de Gleuza e José. Àquela altura, os irmãos estavam aprendendo o que já sabiam; eram índios que estavam, no avançar da idade, aprendendo a serem índios.  

Hoje, talvez, Areal tenha em Gleuza a pajé da tribo em processo de reidentificação. José se orgulha do cocar que ganhou de um índio Krenak e já exerce a liderança esperada de um cacique. Ainda tímidos, eles e outros moradores da comunidade - todos meio parentes - reúnem-se em torno da fogueira, acendida próxima à oca construída recentemente. Ali, permitem-se os primeiros batuques, os primeiros tragos, as primeiras oferendas. A lua brilha na noite firme. As crianças divertem-se com a Areal que se desenha no encontro.   

A força destrutiva do desastre - que, por onde passou, fez seu caminho de sofrimento e tristeza -, em Areal, viu o caos dar origem à luz. Lá, fez-se forte um movimento contrário à dor e à resignação; lá, vive-se uma jornada de autodescobrimento comunitário, marcada pela vivência de um presente intenso de afetos, saberes e ancestralidade.

ANCESTRALIDADE Na comunidade de Areal, os irmãos Gleuza e José Barcelos descobrem sua identidade indígena de origem Botocuda.

Esta retomada  foi possível em função de uma rede de atores que, trabalhando diretamente nos territórios atingidos, em diálogo direto com as populações e seus modos de vida, transformou o desastre em matéria-prima para um futuro de regeneração ambiental e social. Em Areal, este trabalho é capitaneado por uma turma jovem, cheia de energia e boas ideias colocadas à serviço de um futuro mais humano e sustentável: o coletivo Aliança Rio Doce. Não são os únicos - por ali, outros atores também desenvolvem projetos sociais que trazem novas perspectivas para a Vila Mágica de Regência Augusta.

Trabalho semelhante de resgate e construção de memórias é feito pela geógrafa e professora Simone Batista, da Universidade Federal do Espírito Santo, coordenadora do projeto de extensão Observatório dos Conflitos no Campo (Occa). Simone foi uma das primeiras pessoas que entrevistamos e, a ela, devemos a abertura de perspectivas fundamentais para a construção do olhar que permitiu esta reportagem. Foi ela quem nos localizou em relação à especificidade da água para conformação do território capixaba atingido.

Junto a outras mulheres, Simone integra uma ampla rede de defesa dos direitos dos grupos vulnerabilizados pelo rompimento da Barragem de Fundão.

Quando a comunidade vive exclusivamente do rio, da pesca, da mariscagem, o rio é toda fonte de alimento. Porque essas pessoas, se plantam, plantam um aipim para fazer farinha, mas a base da alimentação vem do mangue. Nesse caso, o rio é o territórioSimone Batista, professora da Universidade Federal do Espírito Santo

Se, no contexto das vítimas, as mulheres fazem parte de um conjunto ainda mais fragilizado frente às consequências do desastre, por outro lado, são elas que, cada vez mais, estão tomando a frente das lutas pela reparação integral dos danos causados aos atingidos e atingidas. O protagonismo dos movimentos em torno da causa do Rio Doce é, sem dúvida, feminino.

No Espírito Santo, enquanto as redes de pesca continuam paradas, as redes de apoio e de luta formadas no estado se articulam para garantir justiça às vítimas. Há, nos atingidos e atingidas do Espírito Santo, uma insatisfação tão intensa quanto o desejo de fazer valer aquilo que lhes é de direito. São pessoas que sabem o que perderam, que sabem porque estão em luta.

Para essas populações litorâneas, os rejeitos da Samarco chegam para somar a um quadro já naturalizado de violação de direitos. Elas não são atingidos de primeira viagem.

O Espírito Santo é atravessado por desigualdades e disputas entre os mega-empreendimentos instalados ou em vias de instalação e as comunidades tradicionais que vivem nesses espaços.

A região foi, a partir dos anos 60, um dos carros-chefes da exploração de petróleo, impulsionador do crescimento econômico reverenciado pelos defensores do regime militar. No litoral norte, as grandes obras estão espalhadas ao longo da costa e há, atualmente, uma previsão de construção de mais de duas dezenas de portos em todo o estado, prejudicando o meio ambiente e a vocação turística das localidades atingidas.

Por toda luta forjada a partir do desastre, por todas as violações anteriores a ele, percebemos que o que está em jogo não é apenas a discussão sobre ser ou não reconhecido como atingido pela Fundação Renova. A briga não é apenas por comida e trabalho, mas pelo direito à terra, ao lazer, à natureza.

Afinal, o ato de pescar o peixe que se come e nadar no rio que se pesca envolve uma relação espiritual com a vida, uma maneira própria de experimentar o tempo num espaço estruturante dos modos de ser e de viver. Na praia, no rio, no mar, no mangue. No Espírito Santo. Atingido e presente.

Jornalistas responsáveis: Daniela Felix e Rafael Drumond Texto: Rafael Drumond Imagens: Daniela Felix Edição de vídeo: Larissa Pinto / Web Design: Flávio Ribeiro Arte e Diagramação (versão impressa): Talita Aquino Orientação: Leonardo Sakamoto

Jornal A Sirene - Jornalista responsável: Silmara Filgueiras

Projeto realizado com recursos aprovados em edital de Jornalismo Investigativo. Fundo Brasil de Direitos Humanos

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